|
Almada, 1 de Janeiro de 2008
Exm.º Sr.
Reitor do Santuário de Cristo Rei
C/C
Diocese de Setúbal
Câmara Municipal de Almada
Assembleia Municipal de Almada
Exm.º Sr.:
Tomei a iniciativa de entrar em contacto com V.Ex.ª
porque, na noite passada, de ano novo, decidi ver o
fogo de artifício, com a minha família, exactamente
na zona do Santuário.
Ao chegar ao local, com alguma antecedência,
observei que haviam sido afixados uns avisos aos
portões, informando que estes não seriam abertos
aos munícipes que quisessem ver o fogo de artifício.
Senti-me indignado e contrariado, já que sendo o
Santuário que ocupa o terreno que permite o acesso à
vista mais nobre sobre Lisboa, no concelho de
Almada, deveria ter criado as condições atempadas,
por forma a permitir aos munícipes e cidadãos o
acesso à zona que permite a visão, nas melhores
condições, do fogo de artifício, à meia-noite.
Ao contrário, o que se verificou foi o deambular das
pessoas de um lado para o outro, tentando encontrar
um local onde fosse possível ver o fogo, sem
obstáculos, sem qualquer sucesso, gorando-se todas
as expectativas criadas.
Para mim, para a minha família e para muitas
centenas de pessoas, a alternativa foi descer um
caminho perigoso cheio de buracos, sem iluminação e
muito íngreme, tentando encontrar uma abertura para
se ver qualquer coisa.
Terá sido dito, pelo segurança no local, que a não
abertura dos portões se devia ao facto de haver
cabos de iluminação ao monumento de Cristo Rei, pelo
chão, pretendendo-se evitar que alguém tropeçasse
neles ou viesse a prejudicar a iluminação. Não
obstante, os referidos portões foram abertos para
algumas pessoas e viaturas, provavelmente,
considerados cidadãos de primeira...
Na verdade, não parece lógica esta justificação, já
que seria sempre possível isolar a zona onde se
encontram esse cabos, ou delimitar a passagem das
pessoas por uma zona em que o inconveniente acima
referido não ocorresse.
Tratou-se, pois de uma medida anti-social, grave,
possivelmente tomada sem ponderação dos seus reais
inconvenientes e que defraudou a expectativa das
pessoas, já que, segundo me foi dito, nunca antes
tal tinha acontecido.
Como cidadão e munícipe, não posso deixar de
condenar a ordem emitida, segundo constou no local,
pelo sr. Reitor, uma vez que ela encerra uma atitude
insensata, infeliz, discricionária, e prepotente.
O património à guarda da Igreja não deve trancado a
sete chaves. Ele tem que ser usufruído pelos
cidadãos, uma vez que, antes de estar à sua guarda
ou administração, era património público, logo dos
portugueses. A Igreja, a proceder assim, equipara-se
ao Estado em relação às Áreas Protegidas, que não
permite que sejam usufruídas pelos cidadãos, mas
acaba por vê-las serem destruídas, ingloriamente,
pelos incêndios.
Por outro lado, tal como se condena que as zonas
mais nobres das praias não devem ser ocupadas por
barracas ou tendas de campismo, sem rei nem roque,
também se condena que uma entidade construa uma
autêntica cortina sobre Lisboa, colocando
gradeamentos em toda a área, numa das zonas mais
nobres de Almada, impedindo os seus munícipes de
usufruírem das vistas que essa zona proporciona.
Segundo li na Internet, no sítio do Santuário, está
prevista a construção de um miradouro frente a
Lisboa, esperando que ele não venha a sê-lo, apenas,
para os peregrinos, mas, sim para toda a população.
Se,
de facto é reconhecida uma importância estratégica
deste Santuário para a cidade de Almada, espero que
o enquadramento estratégico do espaço do Santuário
com a cidade, em fase de estudo, encomendado pela
Câmara Municipal de Almada, em colaboração com o
Santuário, venha a contemplar, de uma forma
inequívoca, a usufruição deste espaço pelos
munícipes e cidadãos.
Nesta perspectiva, espero poder usufruir, no mais
curto espaço de tempo, em qualquer período do ano,
sem impedimentos de ninguém, da vasta zona ocupada
por V. Ex.ªs., a qual considero que é um autêntico
miradouro que Almada dispõe sobre Lisboa.
Apresento a V. Ex.ª os meus cumprimentos.
Inácio Silva
|