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Caos nos acessos e no estacionamento às praias do
Concelho de Almada
Ex.ma Senhora
No
passado dia 27 de Março, do corrente ano, escrevi e
dirigi V. Ex.ª, uma carta sobre as “Acessibilidades
no concelho de Almada”. Decorridos quase quatro
meses, não obtive nenhum “ai” nem “ui”, nem de
V. Ex.ª, nem de nenhum responsável da autarquia, o
que parece dar a ideia de que a mesma caiu em saco
roto.
Mas, não me parece que haja saco onde ela possa
caber, já que o seu conteúdo era de tal forma
evidente, actual e comprometedor para a autarquia
que o único sítio para onde ela deveria ser
remetida, era para as mesas de trabalho de V. Ex.ª e
dos técnicos de planeamento e urbanismo que essa
Câmara, certamente, dispõe, pelo menos, para
servir de lembrança daquilo que é urgente fazer!
Referi, na altura, que as vias de comunicação do
concelho da Almada, vulgarmente designadas por
estradas, na sua maioria, há largos anos, mesmo
décadas, ou estão degradadas (com buracos, lombas,
desníveis), ou sem passeios pedonais, ou estreitas
(mal dimensionadas), ou sem betuminoso, irregulares
no seu traçado, ou, simplesmente, não existem.
Incluo nesta triste resenha, a falta de
estacionamentos. Referi, também, que esta
realidade tão ruim, que se constata no concelho de
Almada, é apanágio de países terceiro-mundistas...
Agora, que a época balnear está no seu auge, as
dificuldades provocadas por esta crua realidade, se
evidenciam de uma forma notória. Chego a
pensar que os responsáveis da C.M.A. não conhecem o
concelho do qual têm a jurisdição, que não transitam
pelas estradas que eu transito, que não frequentam
as praias que eu frequento, que não vêem o que eu
vejo. Das duas uma: ou vêem e consideram que é o
governo que é o responsável e, por isso, se abstêm
de actuar; ou, então, vêem mas acham que está tudo
bem!
Eu
diria que, em ambas as situações, a C.M.A. procede
mal. Por um lado, não é ao governo que se tem que
imputar responsabilidades relativamente àquilo que
está no âmbito das competências das autarquias,
aliás, previstas, na lei e são obrigações destas.
Por outro, os cidadãos munícipes, mas,
essencialmente, contribuintes, exigem dos poderes
públicos, que estes se preocupem com a satisfação de
todos os aspectos que contribuam para uma cada vez
melhor qualidade de vida e, por isso, a Câmara e
os seus responsáveis, se não têm capacidade de ver o
que está mal e deveria ser corrigido, então, ao
menos, oiçam os seus munícipes e não lhes façam
“ouvidos de mercador” quando apresentam críticas
e/ou sugestões fundamentadas e oportunas...
A
faixa costeira, de finas areias - na qual se situam
25 praias, 7 das quais com Bandeira Azul - banhada
pelo Oceano Atlântico, é usufruída, não só pelos
residentes no concelho, mas, também, por uma
população flutuante de cerca de 70000 munícipes dos
concelhos vizinhos do Seixal, Sesimbra, Lisboa,
Oeiras, Cascais, Sintra, Amadora, Odivelas, Loures,
etc. que, anualmente o visitam.
Será que a C.M.A. se esqueceu de que o concelho que
administra dispõe duma extensão de praias na ordem
de 25 km, desde a Trafaria até à Fonte da Telha,
e que os acessos a essas praias são do pior que
há? Mais parecem acessos criados naturalmente, pela
habituação da passagem do homem e dos automóveis,
sem qualquer intervenção municipal!
Como disse, há décadas, que os responsáveis por
este município nada fazem para alterar o degradante
retrato que nos é oferecido, parecendo estarem
satisfeitos com o horroroso cartão de visita que é
apresentado a todos os portugueses/contribuintes que
para ali se deslocam, muitos, deles, por uma
questão económica, já que não têm posses para irem
para outras praias mais distantes.
Mesmo, admitindo que algumas das obras necessárias
não sejam, exclusivamente, da responsabilidade da
autarquia, competiria a esta, em tempo
oportuno, desencadear os contactos tidos por
convenientes, com outros Serviços do Estado e/ou com
o Governo, no sentido de manifestar a importância e
a imprescindibilidade da sua realização...
Os cidadãos/contribuintes para atingirem as
praias, o que lhes está garantido, é uma deslocação
com demoras acrescidas e stressante (devido
a terem que transitar por atalhos ou por caminhos
impróprios e sem condições de escoamento do
trânsito; devido a semáforos; estacionamento
caótico, devido ao comércio, na passagem pela
Charneca da Caparica; zizagueando para fugir às
irregularidades do piso dos caminhos; trajectos em
terra batida...). Para estacionar, é outro pesadelo:
caminhos estreitos e impróprios, pó em suspensão,
sujidade, promiscuidade (mesmo assim, carros dos
dois lados, pessoas e carros a transitarem, ocupando
os mesmos espaços, atenção redobrada, etc., etc.)...
Ao
saírem das praias, outro calvário os espera: todos
vão entroncar na via centenária, única existente,
sem condições mínimas de circulação que, ou dá para
a Costa da Caparica ou para a Charneca da Caparica.
Esta é outra realidade que os eleitos camarários
parecem desconhecer. Se, para chegar às praias, é
penoso, para sair então é que “a porca torce o
rabo”. É ver os carros parados durante dezenas de
minutos (eu demorei mais de 60 minutos para me
deslocar da Praia do Rei até ao Centro da Costa da
Caparica), em fila contínua, com os ocupantes a
estorricarem ao sol e a se lamentarem: será que
ninguém vê isto?!
O panorama é caótico, mas, infelizmente, o caos,
para muitos representa a normalidade. É este o
espelho real das acessibilidades às praias do
concelho de Almada. É neste caos que os munícipes do
concelho de Almada e os que nos visitam têm vivido
durante décadas. É este caos que, para a C.M.A.,
significa normalidade. São horas desconfortáveis
perdidas devido à incompetência, à desorganização, à
falta de planeamento, à incúria, à insensibilidade e
ao desrespeito pelos munícipes.
De
facto, não me posso conter perante tanta falta de
respeito, como não posso deixar de denunciar o
que considero uma afronta aos munícipes: a C.M.A.
não investe nas acessibilidades, não cria
estacionamentos grátis para as largas
centenas de pessoas que, compreensivelmente, têm que
se fazer transportar em viatura própria, não cria as
condições suficientes e necessárias para obviar aos
transtornos aqui evidenciados, mas criou parques
de estacionamento pagos, explorados pela
ECALMA, uma empresa municipal, cobrando um euro por
cada viatura. Isto é uma completa falta de
senso. É preciso não ter vergonha!
É
caso para perguntar: com tantas falhas e carências,
como é que as praias da Mata, Rainha, Castelo,
Cabana do Pescador, Rei, Morena e Sereia, têm
Bandeira Azul? Então a falta de acessibilidades
capazes, as condições extremamente precárias de
estacionamento e o pó permanentemente no ar das
picadas terceiro-mundistas, não são um critério
decisivo para a atribuição da bandeira azul?!
Ou seja, isto é tudo, menos qualidade de vida; isto
é tudo, menos civilização; isto é tudo, menos – como
diz o slogan - “Almada do lado certo”...
Segundo dados divulgados recentemente, a C.M.A. é o
município do país menos endividado, tendo, até,
dinheiro a prazo. Se os responsáveis da Câmara acham
que isto é bom e já o disseram publicamente, estão,
redondamente enganados. Isto é profundamente
revelador da falta de ideias e de realizações
verdadeiramente importantes e necessárias para os
munícipes, algumas das quais já relatei. O
dinheiro dos munícipes é para investir em obras
prioritárias, susceptíveis de contribuírem para a
sua qualidade de vida, por forma a abolir ou reduzir
substancialmente os inconvenientes para a sua vida,
aqui descritos.
Almada, assim, seguramente, não está do lado certo e
muito menos, quando o diz, fazendo recurso abusivo
da publicidade, que considero inoportuna e enganosa.
Considero, aliás, uma afronta aos munícipes, o
concelho ter tantas carências e o seu dinheiro estar
a ser gasto em fogo de artifício, festas e festivais
e, como se não bastasse, agora, também, na
publicidade televisiva.
Deixem que sejam os munícipes a dizerem de sua
justiça. Se eles sentirem que estão a ser bem
governados eles saberão reconhecê-lo; não precisam
que sejam os que estão mandatados a dizê-lo, quase
sempre faltando à verdade. Tal, como não preciso
que me anunciem, em letras garrafais, escritas num
qualquer depósito de água “Que Almada tem água de
qualidade”. A qualidade não se anuncia;
sente-se, constata-se, verifica-se. Com este
slogan, o mesmo é dizer que, se num dado momento, a
água estiver menos boa para consumo, o que sobressai
é o que está escrito, quando isso não é verdade. A
isto chama-se manipulação demagógica.
O valor do ser humano está no que é capaz de
realizar, não no que apregoa.
Em de vez de anunciarem que “é bom viver em Almada”
e que “Almada está do lado certo”, bom seria que
criassem, de facto, as condições para tal, fazendo
ou mandando fazer as obras necessárias que,
tenho a certeza, já teriam sido feitas, se o
executivo tivesse outra composição política. Sem me
referir a nenhuma força política, em especial, o
executivo da C.M.A. que dê umas voltas pelo país e
veja os bons exemplos de requalificação que algumas
autarquias levaram a cabo: vejam o que foi feito em
Oeiras, com o excelente passeio marítimo; vão a
Portimão e a outros concelhos algarvios e vejam as
inúmeras e adequadas vias de acesso às praias, com
vastas zonas devidamente tratadas e ajardinadas.
Ao menos, tenham o bom senso de reconhecer que
Almada parou no tempo!
A
democracia participativa, felizmente, permite ao
cidadão informado e esclarecido, denunciar estas
arbitrariedades e esta ausência de assunção do
dever. Dever que deveria ser uma preocupação
constante e posto em prática pelos eleitos.
O
tempo em que vivemos não se compadece com incúria,
irresponsabilidade e laxismo. Como munícipe, estarei
na primeira linha da denúncia pública sempre e
quando achar que os direitos dos cidadãos/munícipes
não estão a ser respeitados ou quando verificar que
os eleitos não cumprem as obrigações para que estão
mandatados.
Os
meus cumprimentos.
Inácio Silva
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