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Lixo e ruínas
agravam a degradação do Ginjal
sem perspectivas Área
onde estiveram instaladas diversas indústrias aguarda, há anos,
por reabilitação Quem ali mora não tem condições mínimas de
segurança e de habitabilidade
No Ginjal, as memórias parecem
fantasmas. Velhos edifícios degradados, pintados e cheios de
lixo abrem sem pudor as portas a quem passa. Acolhem sem-abrigo,
que dormem em colchões húmidos, e bandos de cães vadios que
parecem guardar o antigo cais. É difícil imaginar que neste
lugar funcionaram inúmeras empresas de reparação naval, de
conserva de peixe, fábricas de gelo ou armazéns de isco. Nem
mesmo depois de um passeio entre a antiga estação de embarque de
Cacilhas e as escadas de Olho de Boi, inacessíveis em dias de
chuva, à conta da terra que cai da arriba.
Os vestígios dos portos de mar, que no século XVIII levavam
passageiros e mercadorias à "Outra Banda" apagam-se, lentamente.
As mais antigas residências do Ginjal datam do final do século
XVII mas, hoje, se valor histórico há, está escondido debaixo da
degradação que parece consumir, devagarinho, as paredes. Os
esqueletos que restam deixam triste quem por ali mora ou faz do
Ginjal passeio diário, de conversa e pesca.
"Trabalhei aqui cinco anos. Os barcos descarregavam bacalhau,
reparavam-se as embarcações que iam para a Terra Nova, no
Canadá. Vinham da Nazaré e partiam, em Abril", recorda Joaquim
Carita, reformado do Arsenal do Alfeite, apontando o olhar para
o que resta da Sociedade de Reparação de Navios (SRN). Todos os
dias, de manhã e à tarde, é no Ginjal que passa o tempo. Lembra
a fábrica de óleo de fígado de bacalhau, que oferecia o
desagradável suplemento a todos os trabalhadores.
O pátio da SRN, criada em 1942, com o objectivo de reparar e
transformar navios e utensílios de navegação de pesca, está
atulhado de lixo. O que resta dos edifícios já serviu para
exposições, eventos culturais e até para a realização de um
churrasco.
"No Verão, fizemos aqui peixe assado, que pescámos do rio",
conta Maria Teresa Santos, que vive há 40 anos no Ginjal, numa
casa sem condições de segurança. Espera pelo realojamento que
não chega, enquanto as rachas nas paredes se alargam. "Tantas
casas vazias por aí e nós aqui. Tenho alguidares espalhados
pelos quartos, não posso ter um esquentador e tomamos banho com
água aquecida nos fogões", diz. Sandra, filha de Maria Teresa,
acrescenta "Para irem a escola, as crianças têm de andar muito e
quando chove o percurso é muito difícil. Fica tudo cheio de
água".
Grave problema social
No Verão, o sol e a venda de fruta,
à saída da estação de Cacilhas, ajudam a suportar as más
condições de vida. Mas, no Inverno, as dificuldades duplicam.
"Não faço negócio nenhum e tenho medo que me caia alguma coisa
em cima. Já acordei assustada com uma pedra que caiu à minha
janela", conta.
Henrique Mota, há anos ligado a movimentos de cidadãos e
colectividades em Cacilhas, aponta o dedo ao "grave problema
social por resolver". "O fim do ciclo industrial marcou a
degradação do Ginjal. Há 30 anos que estamos à espera de um
projecto claro de requalificação", disse, ao JN. "Vemos o tempo
a passar e continua tudo numa degradação absurda. Há coisas que
devem ser feitas já, como a recuperação de edifícios".
O JN contactou a Câmara de Almada para saber que projectos tem
para o local, mas não obteve resposta. Em declarações
anteriores, Maria Emília de Sousa, presidente da autarquia,
admitiu que o Ginjal é "uma área complexa, com uma arriba
instável e, por isso, de grande dificuldade de recuperação".
Segundo a autarca, uma candidatura a fundos comunitários não
avançou, mas "é possível que, no âmbito do plano [de pormenor]
para a Quinta do Almaraz, haja um troço do cais do Ginjal
incluído".
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