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Pescadores contra proposta que legaliza pesca de amêijoa trafaria

 Alguns armadores não concordam com os critérios propostos para a atribuição de licenças Apesar de proibida, captura de bivalves envolve 60 barcos e é a principal actividade 

Ana Rute Silva

ADirecção-Geral das Pescas e Aquicultura (DGPA) deverá propor, em breve, ao secretário de Estado adjunto da Agricultura e das Pescas, Luís Vieira, a legalização da captura de bivalves na Trafaria. Amélia Miguez, chefe da divisão de recursos internos da DGPA, confirmou ao JN que está em elaboração uma portaria que vai permitir, pela primeira vez, a pesca da amêijoa-macha na localidade. Dentro de um mês o documento deverá ser entregue ao secretário de Estado para apreciação.

"O Instituto de Investigação das Pescas e do Mar (IPIMAR) admitiu a hipótese de emitir algumas licenças, tendo em consideração os últimos estudos sobre o recurso. Legalizar todas as embarcações é impossível, porque o bivalve pode desaparecer", disse. Entre outras medidas, o projecto define que podem ser emitidas cerca de 25 autorizações (apenas uma por embarcação), o barco tem de estar pintado de laranja e devidamente identificado e não poderá capturar mais de 70 quilos de amêijoa-macha.

No entanto, os critérios para a atribuição das licenças não agradam a todos. Luís Peres, armador e comprador da Trafaria, admite que, apesar da notícia ser boa para a actividade, "é discriminatória". "Nos moldes em que estão a fazer não vai beneficiar estes profissionais. Ainda vai prejudicar mais. Só licenciam 25 embarcações e são mais de 60 aquelas que se dedicam à pesca da amêijoa. E há muitas embarcações desportivas", critica.


Multas frequentes

Na lota, o grupo de pescadores que joga cartas depois de uma noite de trabalho recebeu com desconfiança a novidade. "Há armadores com mais de um barco a trabalhar. O Estado esquece-se que anda há anos a absorver as multas que pagamos?", diz outro pescador.

Todos são unânimes em afirmar que na Trafaria a captura do bivalve "é a principal actividade". E as multas de três mil euros que a Polícia Marítima aplica com frequência são encaradas como um preço a pagar pela actividade. "A prova de que é com a apanha da amêijoa-macha que vivemos, são as multas constantes. Não temos outro remédio senão pescar porque há que dar de comer ao filhos", diz Luís Peres, mostrando uma notificação da Capitania do Porto de Lisboa para pagar mais de 2800 euros.

Mesmo que a ganchorra seja proibida, esta arte de pesca parece estar generalizada. A DGPA estima que há mais de 60 embarcações a trabalhar nesta actividade, mas só algumas têm licença de pesca para águas interiores. As embarcações desportivas e sem qualquer licença capturam ilegalmente bivalves, mais rentáveis do que o peixe.

"Tiraram-se centenas de milhões de amêijoa-macha do Tejo ao longo do tempo. A impunidade foi completa. Mesmo quem tinha licença de pesca profissional está a pescar bivalves ilegalmente", refere Joaquim Piló, dirigente do Sindicato Livre dos Pescadores, para quem resolver o problema dos que não terão acesso às licenças é tarefa do Governo. "A pesca do bivalve evoluiu com a conivência de todos".

 

 

 

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