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MARQUÊS DE POMBAL MANDA REVISTAR CACILHEIROS

 Ao proceder-se a uma busca no arquivo administrativo dos recolhimentos da cidade de Lisboa, instalado à época numas casas situadas na Rua da Rosa, foram encontrados vários documentos que pertenceram ao Dr. José Barbosa de Carvalho, que fora Juiz de Fora da Vila de Almada de 18 de Agosto de 1755 até 24 de Janeiro de 1760, e depois Juiz do Crime do Bairro do Mocambo, entre 25 de Fevereiro de 1771 e 14 de Outubro de 1778, pouco depois do afastamento político do Marquês de Pombal. José Barbosa de Carvalho veio a falecer em 4 de Abril de 1785.

Os documentos a que fazemos referência foram remetidos para as instalações da Rua da Rosa por um recolhimento denominado de Lázaro Leitão, nome do seu protector, onde tinham ido parar depois de várias vicissitudes que passamos a referir.

Por morte do Dr. Barbosa de Carvalho, em Abril de 1785, a secretária deste, e todos os livros e documentos, passaram por herança para um seu primo, António Martins Torres, do qual desconhecemos quaisquer outras referências biográficas para além do facto de ter casado com D. Maria Inácia de Macedo e Silva, de residir em Lisboa e não serem conhecidos filhos.

        Assim, foram os documentos herdados por D. Maria Inácia após a morte do marido, e mais tarde por um sobrinho desta, o Dr. António Rodrigues de Macedo Leitão Aranha, ao que supomos familiar do Desembargador António Damaia Aranha, antigo proprietário de uma quinta junto à praia do Alfeite, na Piedade, vendida à Casa do Infantado no início do    século XVIII. Falecendo o Dr. António Rodrigues Macedo Leitão Aranha sem herdeiros, e tendo sido padroeiro do recolhimento, onde até tinha casa para viver por disposição do fundador, o principal Lázaro Leitão com quem era aparentado, ninguém reclamou os documentos entre os quais se encontravam alguns relacionados com Almada e que pela sua curiosidade têm todo o interesse serem conhecidos.

O primeiro, com o título "Prisão de malfeitores por ocasião do terremoto de 1755", é datado de 4 de Novembro desse mesmo ano e assinado pelo ministro Sebastião José de Carvalho e Meio, Marquês de Pombal. Nesse ofício, dirigido ao Juiz de Fora de Almada, recomenda-se que fossem revistados todos quantos passassem pelas terras de sua jurisdição (que na época incluíam o actual concelho do Seixal) e lançasse mão de todos os viandantes que não se identificassem.

Á necessidade desta diligência vem explicada no início do oficio nos seguintes termos: "Na cidade de Lisboa se espalhou um grande número de ladrões tão desumanos e sacrílegos que abusando da calamidade com que Deus Senhor Nosso nos avisou no dia primeiro do corrente, acrescentaram a consternação do povo, justamente espavorido, persuadindo-o a que se retirasse para longe porque a cidade ia ser bombardeada para se derrubar o que restava dos edifícios em ruína, de modo a que no abandono em que a puseram com estes boatos cometerem livremente os muitos roubos e sacrilégios com que despojaram as casas e os templos, passando para Almada carregados dos mesmos roubos e sacrilégios".

 

 

Origem do Mercado da Ribeira

Pelo que podemos saber através da excelente obra de Francisco Pereira de Sousa, intitulada "O terremoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal", editado em 1919, o ministro de D. José, por decreto de 4 de Novembro de 1755, deu ordem para que todos os indivíduos surpreendidos a roubar fossem executados sumariamente nas forcas que propositadamente se levantaram na Cruz de Buenos Aires, Boa-Vista, Obras do Conde de Tarouca, Rossio, Campo do Curral e Cruz dos Quatro Caminhos.

Num outro documento datado de 7 de Novembro de 1755 com o título "Mantimentos para os povos da Outra-Banda e regulamentação dos preços das embarcações por ocasião do terremoto", Sebastião José de Carvalho e Melo assina pessoalmente um oficio dirigido ao Juiz de Fora de Almada, Dr. José Barbosa de Carvalho, comunicando-lhe que Sua Majestade tendo ficado muito sensibilizado com a notícia dos estragos causados pelo terramoto naquela vila, mandava dizer, pelo que respeitava a mantimentos, que podia fazer publicar não só na vila como em todo o seu termo que, desde o Terreiro do Paço até à Ribeira, se achava estabelecida uma feira com tudo o que era necessário para as famílias sobreviverem. Nesse documento é dado conhecimento que com ele seguia um Edital relativo aos barqueiros, por ter sido Sua Majestade informado que eles tinham vexado os povos com (preços) exorbitâncias e impedido o comércio entre as duas margens do rio.

Este documento sugere-nos duas observações: a primeira relaciona-se com o facto de esta feira poder ter estado na origem do Mercado da Ribeira, o segundo reparo tem a ver com o transporte do produto dos assaltos para Almada quando se deu o terremoto. Como o transporte só se podia fazer por barcos cacilheiros, não é difícil relacionar os marítimos com uma rede de cumplicidades e exploração da situação. Em qualquer dos casos, o documento seguinte parece constituir a prova de que o ministro de D. José encontrou um modo mais adequado para castigar os barqueiros de Cacilhas.

Cada vez que a Família Real tinha de atravessar o Tejo, o que sucedia com frequência, era expedido um oficio pelo poderoso ministro do reino ao Juiz de Fora de Almada, ordenando que a determinado dia local e hora, tivesse prontos na margem Norte uns tantos barcos cacilheiros de modo a conduzir para a Outra-Banda não apenas as pessoas reais, como os coches, bagagens, cavalos e os criados, barcos esses que seriam entregues ao Sargento-Mór Pedro Teixeira, o célebre amigo e criado do soberano, a quem era cometida a responsabilidade de dirigir os carregamentos.

 

Cerco ao Duque de Aveiro

Os documentos fazem referência a imensas diligências dessa natureza, ocorridas entre 23 de Janeiro de 1756 e 12 de Dezembro de 1758. Todavia, a mais curiosa informação fornecida pelo arquivo do Juiz de Fora de Almada relaciona-se com o atentado perpetrado por alguns nobres contra a vida de El-rei D. José. Mais uma vez, vamos recorrer a um oficio daquele espólio para conhecer o modo como se montou a rede onde o Duque de Aveiro foi apanhado.

"Sua Majestade é servido, que V. Mercê na mesma hora em receber este aviso, sem a menor interrupção, passe dessa vila de Almada ao porto de Cacilhas com toda a diligência e nele suspenda o desembarque de todas e quaisquer pessoas que ali aportem, de qualquer estado, condição e qualidade, sem excepção, não lhes permitindo sair das embarcações, desde as seis da madrugada até às quatro da tarde do dia seguinte. E tendo V. Mercê entendido ter chegado a hora de permitir o desembarque, deve dar geral busca a todas as pessoas e sequestrar-lhes todos os papéis e cartas que forem achados, os quais serão restituídos às pessoas a quem se apreenderam, depois de se haver feito uma diligência muito importante para o serviço de Deus e de Sua Majestade.

O mesmo Senhor, ordena ainda que no caso em que não só no espaço de tempo acima referido, mas ainda depois dele, por todo o sobredito dia e noite, e pelo dia próximo seguinte, chegue ao cais do mesmo porto qualquer embarcação, que não seja a pública e da carreira ordinária a qual leve algum passageiro particular, V. Mercê faça logo apreensão nele, imediatamente, e nos papéis e cartas que lhe forem encontradas, mandando-os V. Mercê a cargo de pessoas seguras entregar na minha mão, sem dilação alguma, para serem logo presentes a Sua Majestade que recomenda muito a V. Mercê tudo quanto é referido, com a certeza de qualquer inesperada omissão poderia ser considerada de grande desrespeito às duas Majestades: Divina e Humana.

Deus guarde a V Mercê. Belém, a 12 de Dezembro de 1758. Tomé Joaquim da Costa Corte Real".

Tendo o Duque de Aveiro sido preso em Azeitão na madrugada de 13 de Dezembro de 1758, não restam dúvidas quanto ao objectivo das diligências no porto de Cacilhas, ordenadas no dia 12 do mesmo mês.

Sebastião José de Carvalho e Meio, querendo impedir que o Duque lhe escapasse das mãos, quando estava prestes a segurá-lo, cerca-o cuidadosamente a partir dos portos, portinhos e embarcadouros do Concelho de Almada.

 

In “Jornal da Região - Almada” de 22.11.2000 = Cantinhos da Região por António Manuel Neves Policarpo