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  Freguesia de Cova da Piedade

 
Até ao Século XVII este local era chamado Campo de S. Simão, nome que lhe vinha de uma ermida consagrada a este santo, que em 1677 já devia ter desaparecido, pois no sítio da Piedade jà existia uma ermida consagrada a N. Sra. da Piedade e a S. Simão.
No lugar onde hoje se situa a freguesia da Cova da Piedade deu-se em 22 de Julho de 1833 um recontro entre liberais e miguelistas, que terminaria em Cacilhas com a morte do general de D. Miguel, Teles Jordão.
Em memória deste recontro, no ano de 1873, ajardinou-se um terreno no centro da povoação, construindo-se-lhe ao meio um pavilhão para a Filarmónica, tendo a seguinte inscrição “em memória do feito heróico de Julho de 1833, alguns cavalheiros residentes neste sítio, e cercanias, mandaram aformosear este largo e avenidas, a expensas suas, auxiliados pela vedoria da casa real. Dedicado pela amizade, a tão prestantes cidadãos, em 23 de Julho de 1873.”
A freguesia da Cova da Piedade foi criada pelo decreto n.º 15 004 de 7 de Fevereiro de 1928, sendo desanexada da de S. Tiago e inclui os lugares de Alfeite, Caramujo, Mutela, Vale de Flores, entre outros.
A criação da freguesia não teve grande impacto na população local cujas preocupações se centravam na crise económica em que labutavam, bem como com os seus problemas locais. Exemplo desses problemas era a preocupação com a vala “higiénica” que cortava o actual Largo 5 de Outubro, que mudava de nível e de cheiro consoante as marés. A vala era, simultaneamente, motivo de indignação e de risota da população, principalmente após o banho forçado que ali deu o capitão de mar e guerra Francisco António Sequeira, responsável pelas obras do Arsenal de Alfeite.
Nessa época as festas da Ramalha tinham grande força. Entre Cacilhas e Lisboa havia barcos toda a noite e as celebrações da romaria “na noite em que o santinho ia dormir com a santinha” eram grandes, especialmente as libações a S. João. Os populares usavam na lapela três perpétuas, como “emblema” da “Ordem” de S. João, indicando aos taberneiros que lhes deviam servir vinho do “especial”.
A igreja matriz, com data de fundação de 1762, é dedicada a Nossa Senhora da Piedade e substitui um templo anterior que tinha a mesma invocação. A frontaria é de empena em bico, cingida por fortes cunhais prolongados por fogaréus.
O interior é de uma só nave, coberta por um tecto que ostenta, ao centro, uma pintura alusiva à padroeira. O altar-mor, setecentista de talha dourada, conserva as imagens de S. Francisco de Assis e de Santa Bárbara em madeira, possivelmente do século XVIII e, ainda, uma bela escultura do século XVII representando N.ª Sra. da Piedade de cunho acentuadamente dramático, proveniente da antiga igreja paroquial.
Na capela-mor em cujo tecto está pintado a fresco o Espírito Santo, destacam-se os azulejos, existentes no lado da Epístola, em composição azul e branca que representam a Natividade e a Adoração dos Pastores. Estes painéis da primeira metade do século XVIII, de bom traço, provenientes do anterior templo, reconstruído após o terramoto de 1755.
A Cova da Piedade tem em António José Gomes um dos seus filhos mais dilectos, de grande inteligência e coração, que gerou à sua volta um sentimento de unânime admiração. É, sem dúvida, uma figura a destacar na história nacional da segunda metade do século XIX.
António José Gomes era oriundo de uma antiga família de moageiros e reputou-se como um dos maiores industriais do seu tempo.
Este exemplar cidadão, homem culto e humano nasceu na Cova da Piedade a 6 de Julho de 1847, filho de Manuel José Gomes, natural de Corroios e de Maria Rita da Conceição Gomes, natural de Arrentela, na Rua Direita do Caramujo, no seio do principal núcleo industrial almadense.
António frequentou como aluno interno a Escola Académica de Lisboa, onde obteve vários prémios. Ao mesmo tempo ia acompanhando o pai na exploração dos seus moinhos. Quando tinha dezoito anos seu pai inaugurou um complexo fabril ligado à farinha que viria a dar lugar às mais prósperas indústrias da região, da Segunda metade do século XIX.
O complexo industrial que herdara em 1894, ardeu em 1897 e António José Gomes decide reconstruí-lo em betão armado, uma novidade. Técnicos ligados à indústria moageira, instituições e associações culturais organizavam visitas a este complexo industrial, considerado modelar.
Numa época em que a maioria dos operários não usufruia de quaisquer benefícios sociais de apoio à doença, António José Gomes garantia-os aos seus operários. Antes da existência de Previdência, já este industrial pagava uma “reforma” aos seus operários idosos.
Faleceu em 1909, em Lausanne na Suíça, onde procurava a cura para um problema de estômago.


 


 

 

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