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“Os Pastilhas” , o primeiro clube de Figo  

Nascido da carolice de um grupo de amigos, no início dos anos 70, o clube "Os Pastilhas" acabou por se tomar conhecido no mundo inteiro. Não porque tenha sido campeão em alguma modalidade de topo, como o futebol ou o basquetebol, mas por ter sido o berço de Luís Figo, que fez parte da equipa de iniciados em 1984.   A viver uma crise financeira, sem sede própria, o Pastilhas vai sobrevivendo, apostando agora no futebol de salão e no voleibol feminino.

O início dos anos 70 marcou o concelho de Almada com a abertura de várias colectividades. Aqui e ali surgiam novas equipas, agendavam-se campeonatos para a época de defeso e dava-se continuidade à rivalidade salutar entre os adeptos dos clubes grandes da terra. Os encontros de futebol entre o Almada e o Cova da Piedade eram acontecimentos vividos com fervor e era comum os ânimos exaltarem-se. Mas, depois de alguns arrufos, tudo acabava em bem. 

Este entusiasmo levou a que começassem a nascer clubes de bairro um pouco por todo o concelho, rivalizando na defesa da camisola, quer fosse no futebol, ou em qualquer outra modalidade. O clube "Os Pastilhas" nasceu da carolice de alguns, mas distinguiu-se, desde logo, com um certo misticismo. Quando entravam em campo, mesmo sem fazerem grandes resultados, os seus miúdos conquistavam os aplausos de uns e os assobios de outros. E, passados quase 30 anos, "Os Pastilhas" são conhecidos onde quer que se fale de futebol, tudo porque um dia um miúdo franzino, de nome Luís Figo, fez parte do "onze' de uma das equipas.  

Quando, em 5 de Março de 1972, um grupo de amigos fundou "Os Pastilhas", nas Barrocas, Cova da Piedade, nenhum deles adivinhava que o nome do clube viria a ser tão conhecido. Formaram uma equipa de futebol e deram-lhe o nome do seu patrocinador, Pastilhas Rennie, um apoio conseguido através do seu sócio número um, dono da farmácia que existia, e existe, na localidade.

Abriram sede no antigo armazém de um talho, nas Escadinhas das Barrocas e, quando, por altura do 25 de Abril de 1974, perderam o apoio da marca, não desistiram e continuaram em frente só com o nome "Pastilhas". Mais tarde, quando foram criados os estatutos oficiais do clube, passaram a chamar-se União Futebol Clube  "Os Pastilhas".

 Conta o actual presidente do clube, José Búzio, que tudo começou pelo futebol de salão e, só mais tarde, formaram uma equipa de futebol por onde passaram "jogadores que chegaram a militar no Sporting e no Benfica", entre eles, claro, Luís Figo. Mas "Os Pastilhas" distinguiam-se ainda pela sua equipa de tiro ao alvo com dardo. "Ganhávamos todos os torneios onde entravamos, tanto em masculinos como em femininos", afirma José Búzio.

Seguiram-se outras, modalidades, como a pesca desportiva, atletismo e "subbuteo". Nesta última modalidade chegaram a ser campeões nacionais em juniores e a disputar o Campeonato da Europa em Barcelona.  

 

 

A equipa de 1984.Figo é o segundo a contar da direita, em baixo

 

Figo, um “génio em embrião”

Depois de uma década de ouro, "Os Pastilhas" começaram a ter problemas e tiveram de encerrar algumas secções desportivas. "Sem instalações, era impossível mantermos todas as modalidades", conta o presidente. Com algum esforço, conseguiram suportar a equipa de futebol em iniciados e, na época de 1984, contavam com Luís Figo na sua equipa.

Lembra Fernando Santos, o primeiro treinador daquele que é apontado por muitos como o melhor futebolista da actualidade, que Figo era um miúdo franzino mas que mostrava uma postura em campo diferente. "Era um génio em embrião", diz, Mas, na época seguinte, "Os Pastilhas" foram obrigados a abandonar o futebol. "Os miúdos treinavam na Romeira e jogavam no campo do Cova da Piedade. Sem instalações próprias, tivemos de desistir", lamenta José Búzio.

Aos poucos, as direcções do Pastilhas deixaram as modalidades desportivas e "transformaram o clube só num espaço de lazer", afirma o presidente. E, mesmo quando algumas direcções tentaram fazer renascer o clube, "a Câmara de Almada nunca deu grande apoio”, lamenta. Aliás, afirma que a última vez em que contaram com a presença da presidente da Câmara no clube “ foi em 1991, numa homenagem ao Figo"

Curiosamente, mesmo com falta de instalações desportivas, diz José Búzio que ", Os Pastilhas" sempre foram procurados por jovens, um facto que lhes permite ter hoje uma equipa de futebol de salão e outra de voleibol feminino. E os bons resultados desportivos têm aparecido. "Em futebol de salão temos ganho os torneios em que participamos". E, na última Seixalíada, ficaram em segundo lugar com uma equipa de juniores num torneio de seniores.

Mas os problemas com a falta de instalações e verbas para manter as equipas continuam. A contar apenas com a facturação do bar e as quotas dos sócios, "as receitas não dão para as despesas", diz o presidente do Pastilhas. Com cerca de 250 sócios, só 200 pagam as suas quotas, o que quer dizer que, por mês, o clube recebe "apenas dez contos". As dificuldades financeiras ficam fáceis de entender quando "a inscrição num torneio são cerca de 40 contos e o seguro são 100 contos", diz o presidente.

Às verbas para participar em torneios, junta-se ainda os gastos com o aluguer de espaços para treinar. "Como não temos instalações, temos de alugar pavilhões de outros clubes que, por hora, cobram entre 2500 e 5550 escudos. Não temos capacidade financeira para isso". A complicar tudo isto, o presidente queixa-se da "falta de apoio da autarquia". Segundo diz, o "único apoio" que tiveram recentemente foi de "100 contos por parte da Junta de Freguesia da Cova da Piedade, para o voleibol". Uma soma que ficou aquém das necessidades, já que "metade do dinheiro foi para pagar o aluguer de um pavilhão para os treinos". Depois, para jogarem, as jogadoras precisaram, ainda, de equipamentos e bolas. E, para isso, não houve dinheiro. Perante isto, José Búzio não tem dúvidas de que "Os Pastilhas" estão "a ser marginalizados relativamente a outros clubes".

A saturar ainda mais o mar de problemas, "Os Pastilhas" viram-se, recentemente, confrontados com uma acção de despejo. Um problema a ser resolvido na barra do Tribunal e que poderá ditar o fim do clube, caso a decisão não lhe seja favorável. Mas José Búzio não acredita que "Os Pastilhas" fechem as portas, aliás seria quase ridículo que isto viesse a acontecer ao clube que primeiro acolheu Luís Figo. 

Para resolverem a situação, "Os Pastilhas" pediram o apoio à Câmara de Almada. "Até agora ainda não tivemos resposta", diz o presidente. Inclusivamente, pediram um terreno à autarquia para construir uma sede, dádiva que tem sido feita a outros clubes do concelho. "Sabemos que, se for necessário, podemos contar com a ajuda de Luís Figo", avança José Búzio.

O presidente, contudo, considera que o primeiro passo "deve vir da arte da  Câmara". Até porque, segundo os estatutos do clube, "se tivermos de fechar, os bens revertem para a Câmara, não para o Figo". Só que as esperanças ainda não morreram. Com "Os Pastilhas" a serem constantemente procurados pela imprensa espanhola, que querem saber "quem somos e quais as nossas dificuldades", o presidente acredita que esta fase de crise será ultrapassada.

In “Jornal da Região - Almada“ de 28.3.2001.  

 

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