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TESOURO DESCOBERTO NO ALFEITE

 

 

   A história do Alfeite encontra-se intimamente ligada a alguns dos mais importantes personagens e acontecimentos que marcaram a vida nacional nos últimos sete séculos.

            Propriedade real no século XIV, fez parte do dote de casamento oferecido por El-Rei D. Fernando a sua mulher D. Leonor de Teles, em 1371, no qual se incluíam as vilas de Almada, Abrantes, Alenquer, Atouguia, Aveiro, Óbidos, Sintra, Torres Vedras e Vila Viçosa.

            Na sequência da crise que se instalou em Portugal, D. Leonor, procurando captar apoios para a sua causa, fez doação da propriedade do Alfeite ao almoxarife da alfândega e dirigente da comunidade judia em Portugal, David Negro, o qual se revelou como elemento de grande utilidade à regente após a morte de D, Fernando, cotando-se como súbdito leal nos momentos difíceis, acompanhando D. Leonor de Teles na sua fuga para Castela, razão por que foi declarado traidor e os seus bens confiscados.

A 6 de Março de 1384, D. João, Mestre de Avis, Regedor e Defensor do Reino, doa todos os bens de raiz de David Negro ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira, assim como a vila de Almada e seu termo, atitude que viria a ser contestada judicialmente por D. Cinfa, esposa de David Negro, alegando que não sendo ela e seus filhos cúmplices nos actos praticados pelo marido, não podiam ser despojados dos bens que lhes cabiam por direito e justiça.

A contestação vai arrastar-se até 1393, época em que por acordo entre as partes, D. Cinfa e os filhos ficaram com os bens do Alfeite, e o Condestável com as propriedades que o antigo almoxarife possuía em Lisboa.

Anos mais tarde, D. Nuno Álvares Pereira nomeia sua mãe, D. Iria Gonçalves usufrutuária das propriedades que ganhara em pleito, incluindo as do Alfeite que adquirira a D. Cinfa em condições que não conhecemos.       .

Em 28 de Julho de 1404, entrando o Condestável em conflito com D. João I, fez doação de muitos dos seus bens em Almada à Ordem do Carmo, nos quais se incluía o Alfeite, até que. a venda em fracções dos bens de raiz daquela Ordem, no início do século XVI, transfere a posse da propriedade para os Marqueses de Vila Real, e mais tarde para o Morgado da Caminha, ligado à Casa de Tarouca, transformando o Alfeite numa das mais belas e importantes coutadas dos arredores de Lisboa.

 

 

Casa do lnfantado

Implicados no atentado planeado pelo Bispo de Braga contra a vida de El-Rei D. João IV, o Marquês de Vila Real, D. Luís de Noronha e Meneses e seu filho D. Miguei Luís de Meneses, segundo Duque de Caminha, foram decapitados no Rossio em 29 de Agosto de 1641. Os seus bens foram confis- cados e mais tarde incorporados na Casa do Infantado, instituição régia que viria a ser criada em 1654. A partir daí, vão sendo adquiridas e incorporadas na Casa do Infantado as propriedades da Quinta do Antelmo ou da Penha, Quintinha, Vinha do Pagador, Quinta do Outeiro, Pinhais do Cabral e das Courelas, Quinta da Romeira, Quinta da Bomba, Quinta da Piedade e Lagoa de Albufeira.

Em 1834, com o triunfo dos liberais, a Casa do Infantado é extinta e os seus bens integrados na Fazenda Real, facto que não impediu que o Rei D. Luís vendesse de forma irregular a Quinta do Outeiro à firma inglesa Ranking & Son e a Quinta da Piedade a Pompeu Dias Torres, negociante de Lisboa.

Com a implantação da Republica, o Alfeite foi entregue ao Ministério do Fomento, excepto o Palácio Real que ficou sobre administração do Ministério das Finanças. Finalmente, em 1918, todo o perímetro constituído pelo que resta das propriedades da Casa do Infantado passam a depender da Junta Autónoma para a construção do Arsenal de Marinha no Alfeite.

 

Reais postos a descoberto

As obras irão arrastar-se durante vinte anos, com frequentes alterações do projecto inicial, dificuldades de financiamento, instabilidade política, governos que se sucedem de forma vertiginosa.

É neste contexto que em 1925, no decurso de alguns trabalhos de sondagem geológica para estudo do solo, é encontrado um fabuloso tesouro soterrado no Alfeite.

Nos primeiros dias de 1925, ao proceder-se a sondagens do solo, alguns operários depararam-   -se com um objecto insólito. Tratava-se de um grande talha de barro, repleta de reluzentes moedas de ouro, facto que deixou estupefactos todos quantos presenciaram o achado, tomando as autoridades conta da ocorrência.

Tratava-se de centenas de moedas de 500 reais, raríssimas, cunhadas no reinado de D. Sebastião, com finíssimo ouro dos tributos de Quiloa, e conhecidas popularmente por 'engenhosos', alcunha do seu fabricante, João Gonçalves. Outra particularidade relaciona-se com o facto de se tratar das primeiras moedas datadas, 1562. Existem moedas da mesma época, com o valor de 500 reais, que são relativamente vulgares.

Os 'engenhosos' são contemporâneos de outras moedas conhecidas por S. Vicente, por apresentarem numa das faces a imagem desse santo segurando uma caravela da cidade de Lisboa na mão esquerda e na direita a palma do martírio. Em volta apresentavam uma divisa conferida pelo Papa a D. João III, avô de D. Sebastião, "Zelator Fidei  Usque Ad Mortem".

Houve ainda outras moedas conhecidas por S. Vicente no reinado do Cardeal D. Henrique e durante a regência dos cinco governadores que se lhe seguiram, mas nenhuma tão rara como os engenhosos encontrados no Alfeite.

 

Tesouro em parte incerta

Como explicar a presença de tamanha fortuna num local tão ermo do concelho de Almada, quase quatro séculos depois dessas moedas terem sido cunhadas?

Embora consideremos impossível encontrar uma resposta para tão intrincado problema, não deixamos de considerar como plausível a possibilidade deste tesouro ter sido escondido por D. João Álvares Caminha, fidalgo da Casa Real, cuja família detinha a posse do Alfeite e que acompanhou El-Rei D. Sebastião na desgraçada jornada a Marrocos, onde ficou cativo.

Numa época em que os bancos não existiam, a segurança dos bens era fraca e a esperança de vida muito curta, é natural que uma aventura guerreira em África justificasse algumas medidas de precaução, no sentido de colocar a bom recato parte do património amealhado. Só que, por vezes, nem sempre os acontecimentos correspondiam aos planos congeminados. Terá sido essa a origem do tesouro do Alfeite? Não há provas que assim seja, razão por que nos limitamos a conjecturar.

Finalmente, interrogamo-nos quanto ao destino daquelas centenas de reluzentes e raras moedas de ouro. Que entidade assumiu a sua salvaguarda? Onde se encontra esse espólio? Ai está um bom tema para quem se interesse pela investigação.

 

In “Jornal da Região –Almada” de25.10.2000 –Cantinhos da Região por António Neves Policarpo.

 

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