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ORATÓRIO DE SANTO ANTÃO DA RAMALHA 

 

     No início da década de quarenta do século XV, vivia no lugar de Alvalade (Ramalha), termo de Almada um abastado mercador e proprietário de seu nome Fernão Gomes. Fora casado com Inês Aires, falecida ao dar à luz o único filho do casal, baptizado com o nome de Aires Gomes.

            Supomos que as relações familiares entre Fernão Gomes e o filho se foram deteriorando com o tempo, consumando-se a ruptura e consequente abandono da casa paterna por parte de Aires Gomes, quando o pai resolve casar em segundas núpcias com Mexia Vasques Farinha, da parentela de João Vaz Farinha, na época Juiz dos Judeus e dos Orfãos da vila de Almada, família que para além de possuir avultados bens, dispunha de considerável influência social e política.

            Do segundo matrimónio de Fernão Gomes, nasceram dois filhos, Gomes Fernandes e Inês Gomes. Se em relação ao primeiro não dispomos de outros elementos biográficos para além de que se, encontrava em Almada em 30 de Abril de 1463, relativamente a Inês Gomes sabemos que o pai a casou com mestre João, cirurgião de El-Rei e que após a morte do marido casou em segundas núpcias com João Vasques, escudeiro, de quem teve dois filhos, António Vasques e Margarida Alvares. Dispomos ainda da indicação do falecimento de Inês Gomes, ocorrido em data anterior a 1463.

            A vida parecia decorrer sem grandes problemas na bucólica paisagem da Almada do século XV, quando a paz foi quebrada por um violento litígio que teve lugar em 1446, opondo Fernão Gomes aos frades de São Domingos, possuidores de uma quinta confinante com as suas terras, que lhes foram doadas em 17 de Novembro de 1378, por Pedro Afonso "Mealha'.

            A querela relacionada com uns caminhos que passavam no limite das duas propriedades, azedou de tal modo as relações entre as partes e assumiu proporções tais, que mereceu a honra de ser registada, chegando a crónica dos factos aos nossos dias.

             Por essa época, a propriedade que Fernão Gomes possuía em Alvalade passara a ser conhecida por Quinta das Farinhas, topónimo que derivava do apelido de família da mulher. Possuía ainda outros bens em Almada, Lisboa, Sesimbra, Arruda e em Santarém, no lugar de Azóia, onde se encontravam a maior parte das propriedades de um Morgado que Fernão Gomes instituíra em data e condições que não conhecemos com detalhe.

No período a que nos reportamos, as pestilências, contágios, febres, lepra, bobas, desinterias, fomes , guerras, infortúnios e desastres naturais, contribuíam para a generalização de um quadro psicológico onde o recurso ao sobrenatural, na falta de soluções terrenas, constituíam a derradeira tábua de salvação a que se agarravam os povos. Recorre-se ao afreguesado São Sebastião para pôr fim às epidemias de peste que ceifam milhares de pessoas de todas as idades e condições. O fervor no santo só desaparecerá quando as medidas de higiene e a fiscalização dos cuidados de limpeza foram instituídas.

Com a passagem dos anos crescerá a devoção por Santo Elias, com a sua decisiva caixinha das águas. Vão ser os cabidos a promover e exaltar o santo, preferindo-o a qualquer outro nas preces e procissões por água, a mais ou a menos. Temem-se nesse tempo as crises alimentares, trata-se de encontrar um procurador celeste com provas dadas para as resolver. As pestes irão passar, as crises alimentares vão manter-se. São Sebastião especializou-se demais para continuar a merecer a devoção, quando o seu papel de advogado deixou de ser necessário por falta desse tipo de causas. Desa- parecida a doença vai esquecer-se a mezinha.

Mas Fernão Gomes vive no século XV, uma época ainda marcada pelo horror da peste. Em 1437 deram-se casos mortais em Lisboa e arredores, nova epidemia entrou no Reino em 1438. Em 1464 acusa-se urna pestilência geral, perecendo muitas gentes, situação que se repetirá em 1466, 1468 e 1469.

Fernão Gomes, que fora mercador, era devoto de Santo Antão, o mesmo santo que era patrono dos negociantes de cereais e de carnes. Sendo a ordem de Santo Antão devotada aos cuidados dos doentes atacados pela peste (denominada fogo-de-Santo Antão), melhor se compreende o contexto em que aquele proprietário decide, em 1456, construir na Quinta das Farinhas  um oratório consagrado aquele santo.

 

 

Quinta das Farinhas ordenado indivisível

 A 30 de Abril de 1463, encontrando-se cego e sentindo aproximar-se o termo da sua vida, Fernão Gomes manda redigir as últimas vontades estabelecendo o modo como, após a sua morte, devia manter-se e gerir a propriedade de Alvalade e o oratório anexo que mandara construir.

Desde logo, surge a exigência para que os priores da vila requeiram ao herdeiro que possuir as Farinhas e seu oratório, o cumprimento das obrigações testamentárias sob pena de ser citado e demandado perante os juizes eclesiásticos, e se os referidos priores não cumprirem sejam amaldiçoados por Deus. Proíbe que se divida e venda a propriedade em fracções, salvo se for na totalidade, pedindo a El-Rei, suas justiças, tesoureiros e oficiais que os bens em questão não sirvam como fiança, renda de igreja, mosteiro ou senhorio.

Por alvará de 29 de Janeiro de 1672, António de Sousa Henriques, descendente de Fernão Gomes, residente em Santarém, no lugar de Azóia, vende a Domingos Ferreira Chaves, por mil cruzados, a Quinta das Farinhas e seu foro na Ramalha, com a condição de manter uma missa e ofício em cada ano, ao que supomos por alma de Fernão Gomes. Esta venda foi contestada em 1719, por António Sodre Pereira das Coberturas, residente em Santarém, interpondo uma acção judicial contra João Vieira de Sã Ribeiro, genro de Domingos Ferreira Chaves, alegando que a quinta não podia ser vendida por se tratar de bem de morgado. O caso foi concluído com sentença favorável a João Ribeiro.

 

Desentendimentos no procissão

No ano de 1731 gera-se um novo conflito opondo a irmandade de São João Baptista e o já referido João Vieira de Sã. Era costume antigo, supomos que remontando ao século XVI, organizar aquela confraria sediada na igreja de Sant'Iago, um solene procissão do santo da sua devoção que se dirigia à Ramalha (antiga Alvalade na tarde de 23 de Junho de cada ano, pernoitando a imagem alternadamente umas vezes no oratório de Santo Antão, outras vezes na Ermida de Nossa Senhora da Piedade, situada ali próximo na Quinta de Crastos, onde, segundo a tradição, está sepultada uma das filhas  de El-Rei D. Dinis, regressando  à vila de Almada na manhã do dia seguinte.

Já em 1730, a Mesa da Irmandade se recusara a organizar a procissão, alegando que o oratório ficava muito distante da vila. Esta atitude provocou insubordinação popular, argumentando João Vieira de Sã Ribeiro que a procissão de São João Baptista se realizava para a Ramalha desde tempos que não havia lembrança nos homens velhos do seu tempo, exigindo que se cumprisse o preceito religioso, pois desde que deixou de ter lugar, não deram as fazendas novidades, o que se reconhecia por castigo divino.

Do lado da Mesa da Confraria de São João Baptista, o sargento-mór de Almada, Domingos Rodrigues Cobra, alegava que a organização da procissão era da competência dos irmãos que administravam em cada ano, saindo com o santo uns anos e outros não, não podendo assim João Ribeiro exigir a realização de um acto que dependia da vontade alheia.

 

Patriarca devolve tradição ao povo

Apenas  em 3 de Junho de 1734, o assunto fica parcialmente solucionado através de uma Provisão do Patriarca de Lisboa, D. Tomás I, na qual ordenava que "levem o santo à dita ermida na véspera do seu dia, e o tragam no dia, como de tempo imemorial se tem praticado, e mandamos que esta se cumpra como nela se contem".

A partir desse dia foi a população da Ramalha e de mais lugares vizinhos, que se encarregavam dessa tarefa e a procissão jamais deixou de se realizar ao longo dos últimos 266 anos.

A Quinta das Farinhas passou a ser conhecida pela Quinta da Ramalha, encontrando-se em 1958 na posse do engenheiro Ernesto Borges, que a vendeu aos proprietários do Restaurante Dragão Vermelho, situado em Almada. Na década de setenta do século XX a quinta é urbanizada, algumas acomodações são oferecidas ao Clube Desportivo e Recreativo da Ramalha e o oratório de Santo Antão e edificios anexos entregues à Câmara de Almada, sendo a sua gestão da responsabilidade de uma comissão de festas que organiza a tradicional procissão.

 

In “Jornal da Região – Almada” de 15.11.2000 – “Cantinhos da Região”.

 

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