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TORRE DO BUGIO, de fortaleza a farol
Até
aos finais do século XIV, são abundantes as referências à facilidade com
que esquadras das mais diversas origens penetravam no estuário do Tejo,
cometendo toda a espécie de agravos e prejuízos nas povoações
ribeirinhas e nos arredores da própria cidade de Lisboa. A ausência de
fortificações nas duas margens do rio constituía um convite aos
predadores marítimos que infestavam a casta portuguesa, oriundos de Salé,
Larache e Tetuão, mas também de portos de Castela, Inglaterra e outras
nações.
Coube a D. João I tomar as
primeiras iniciativas de dotar o Tejo de meios de defesa, tarefa em que
vieram a empenhar-se igualmente D. João II e mais tarde D. Manuel e D.
Sebastião.
Não são, porém, muito
exactas as datas apontadas por diversos autores, como aquelas em que se
iniciou a construção da fortaleza da barra, chamada de Torre de S.
Lourenço ou Torre do Bugio. Segundo Vilhena Bardosa, foi no reinado de
D. Sebastião que se iniciaram as obras, cujos fundamentos tiveram lugar
em 1578, na ausência do soberano que partira para a desgraçada empresa
em África. Hipótese pouco provável quando o erário estava desfalcado por
causa da aventura marroquina.
Rebelo da Silva, aponta como
estratega da construção de um forte na Cabeça Seca, à entrada do Tejo,
do lado Sul, frente à Torre de S. Julião, entre ambos os cachopos que
dividem a barra em dois canais, o capitão da Armada de alto bordo D.
Jorge de Meneses, na sequência de uma série de medidas defensivas que se
tomaram em 1580, entre a morte do Cardeal D. Henrique e o governo que se
encontrava nas mãos de cinco governadores.
De acordo com a documentação
consultada, o Bugio foi construído num cabeço de areia no qual se
implantou uma estacaria de grossa madeira, disposta em circulo. Numa
fase posterior, o interior da paliçada foi entulhado com pedras
dispostas de modo a resistirem aos mais rigorosos temporais,
construindo-se, finalmente, sobre estas fundações um forte em madeira.
Pelo que se sabe, esta
construção não resistiu muito tempo aos rigores das intempéries e à
instabilidade da cabeça de areia em que assentava o forte, decidindo D.
Filipe I reconstruir de novo a fortaleza, desta vez totalmente em
alvenaria continuando a obra em 1590, sendo almoxarife de S. Gião e da
Cabeça Seca Francisco de Gouveia, cavaleiro fidalgo da Casa Real, que
procedia ao estudo e execução das obras daquelas fortalezas.
A construção de um forte em
alvenaria foi uma das grandes preocupações das autoridades, sendo autor
do primeiro projecto, Frei João Videnzio Cazale que dirigiu a fase
inicial das obras, projecto que foi abandonado posteriormente, e as
obras suspensas, por este ter falecido em 1593.
Pouco depois,
é chamado a Portugal expressamente por D. Filipe I para projectar e
dirigir a construção de S. Lourenço da Cabeça Seca, em alvenaria, o
célebre engenheiro milanês Torriani Crémonézi, que ficou na história
como Torriano ou Turriano. É por esta época que será construído o Forte
da Trafaria.
Construção
suspensa com Independência
Na restauração da
independência, em 1640, a obra ainda continuava. No entanto, a fortaleza
já se encontrava guarnecida, sendo seu comandante o espanhol João
Carrilho Rótulo que a entregou sem resistência, e por isso foi premiado
pelo novo soberano com o cargo de sargento-mór da vila de Almada e seu
distrito.
Apenas a partir de 1643 é
decidida a fortificação da Cabeça Seca, sendo de supor que as obras se
encontrariam suspensas, como se pode concluir pelo texto de uma placa
metálica situada à entrada da fortaleza: "O mui alto envito poder rei de
Portugal D. João IV de gloriosa memória mandou fazer esta fortaleza a
ordem do Conde de Cantanhede D. António Luís de Meneses dos seus
conselhos de Estado e Guerra veador da fazenda e governador das armas de
Cascais que começou no ano de 1643".
Por essa época superintendia
à obra Frei João Turriano, filho do engenheiro milanês contratado em
1593 por Filipe I de Portugal, II de Espanha, sendo comunicado ao rei
que seriam necessários mais três anos para terminar as fortificações. No
entanto, supomos que estas só foram concluídas por volta de 1657, altura
em que Jorge de Barros foi nomeado seu governador.
Uma década
para salvar o Bugio
Apenas em 1775 é que ali foi
instalado o farol, o qual veio a sofrer inúmeras alterações no decurso
dos últimos dois séculos, sendo finalmente automatizado em 1981. A
violência dos temporais e a instabilidade dos fundos marítimos obrigaram
a execução periódica de grandes obras de reconstrução e consolidação. Em
1989, realizaram-se obras de grande vulto, sob a direcção da
Administração do Porto de Lisboa, tentando consolidar sem êxito a
debilidade estrutural das fundações da muralha a Sudoeste.
Em 1997, mais de cento e
cinquenta e oito mil toneladas de pedra e betão tentavam evitar o risco
de derrocada no Inverno que se aproximava, tendo os custos da obra sido
calculados em um milhão de contos. O projecto previa a construção de um
molhe de protecção circular, quatro metros acima do chamado zero
hidrográfico que serve de referência para a medição das marés, com
duzentos metros de comprimento, partindo de uma ligação à muralha que se
desenvolvia em forma de caracol.
As obras de restauro e
consolidação foram concluídas com êxito nos finais da década de 90, não
sem que antes tenham sido amplamente alterados os projectos adequando-os
às características dos locais e equipamentos.
A Torre da Cabeça Seca, de
S. Lourenço ou do Bugio é classificada como monumento nacional desde
1957.
In “Jornal da
Região –Almada” de 2.11.2000 em “Cantinhos da Região” por António Manuel
Neves Policarpo
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