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HISTORIA
Muito embora ainda não esteja bem definida a
origem da etimologia da palavra Trafaria, várias hipóteses têm sido levantadas por alguns
historiadores e investigadores.
Frei João de Sousa, na sua obra "Vestígios
da Língua arábica em Portugal", afirma que a palavra Trafaria é oriunda do vocábulo
árabe Tarifa que significa cousa extrema", final ou ú1tima.
Outra hipótese
é alvitrada por A. Baldaque da Silva que, em seu entender, Trafaria foi em tempos o
principal porto de pesca da margem Sul, sendo a principal arte piscatória no
Tejo,- nessa época, a Tarrafa.
Como este meio de pescar era muito lucrativo, vinham bastantes
Pescadores de Setúbal apanhar pescado para este local, os quais, com o seu
sotaque característico de carregar no "R", diziam: - Vamos A
Trarrafa à ria" dai, segundo ele, a origem de Trafaria.
Porém outras teses são apontadas para a derivação do topónimo
Trafaria.
No entender do professor David M. Lopes, destacado investigador e
estudioso da influência da língua árabe na toponímia portuguesa, a sua
origem deve-se à junção do elemento Traf, que significa ponta ou cabo, com o vocábulo
latino Arena que, em Português, é areia, dando assim, por sua vez, a
formação da palavra Trafarena, (ponta ou cabo de areia) a qual, depois de
profunda transformação fonética, no decorrer dos tempos, daria lugar à
actual designação de Trafaria.
Antiga povoação piscatória situada na margem esquerda da foz do
rio Tejo, Trafaria é desanexada, da freguesia da Caparica, em 7 de Outubro
de 1926, e elevada a sede da freguesia por Dec. Lei, passando à categoria de
vila em 9 de Julho de 1985. Em 1996, esta freguesia tinha cerca de 12 mil
habitantes e
encontravam-se inscritos nos cadernos eleitorais 6.980 eleitores.
Conseguindo conservar o seu aspecto de terra de gente humilde e
trabalhadora ao longo dos anos, Trafaria era considerada, em tempos passados, como
uma das mais importantes zonas de veraneio e lazer da outra margem do Tejo.
Possuidora de uma agradável praia, esta viria, porém, a decair
na preferência dos veraneantes em meados dos anos 40, altura em que as praias do
mar da Costa de Caparica passaram a ser mais atractivas e preferidas.
Talvez, por esse facto, a localidade da Trafaria tenha sofrido uma
certa
estagnação no seu desenvolvimento, a razão pela qual viria a
transformar-se em
centro urbano e num dormitório de Lisboa.
Edificações e vestígios árabes
Não dispondo de grandes monumentos, para além da sua igreja
matriz e do seu
Forte, a freguesia de Trafaria tem ainda o importante lugar histórico
de
Murfacém, local onde se pode observar um importante conjunto de
cisternas de
origem árabe e as capelas de Nª Sª dos Remédios, edificada,
provavelmente, nos
finais do Séc. XV, funcionando nela um núcleo do Museu de Almada
dedicado à
arqueologia árabe e à azulejaria de tradição arábica. Esta
curiosa capela esteve
muito tempo ao abandono, sendo remodelada em 1973, passando então
a denominar-se
por MORABITO ou
Nª Sª do Monte do Carmo. Desconhece-se a data da sua edificação,
mas, alguns
especialistas têm avançado com a ideia de que o monumento será
contemporâneo do
Séc. XIV.
Como edificações de grande valor arquitectónico, podemos realçar
o conjunto de
habitações na Avª 25 de Abril, cuja preservação e defesa é
algo de importante a
manter. Outro edifício de grande interesse é o da Farmácia
Central, na Avª
General Moutinho, construção única no concelho, que remonta aos
finais do Séc.
XIX., e o Forte da Trafaria, erigido em meados de 1683, durante o
reinado de D.
Pedro II. Este notável edifício de cantaria desempenhou, para além
de
fortificação de defesa da costa marítima, as funções de
Lazareto, até ao ano de
1820, altura em que foi desocupado
A igrejo matriz do Séc. XIX
Dedicado a São Pedro, este templo foi edificado na segunda metade
do séc. XIX,
no local da antiga ermida de São Jerónimo, fundada antes de
1755, por Jerónimo
Leite de Vasconcelos. De fachada simples, possui no espólio
imagens da capela de
Nª Sª da Saúde - anteriormente situada no Forte da Trafaria e
restaurada no
inicio do ano de 1910 - e de Nª Sª da Conceição, antigo salão
de culto do
extinto Solar dos Magriços, destruída por um incêndio em 1835,
restando somente
as paredes e a torre do campanário.
Esta igreja foi palco de um episódio trágico durante a sua
construção, em 1856,
tendo a sua torre derrocado, abatendo, por consequência, o
telhado do prédio
contíguo, causando a morte a cinco pessoas.
Ainda como dado histórico podemos registar o facto de, no dia 22
de Setembro de
1894, se ter gerado um grave conflito entre o povo e o então
prior padre José da
Costa Pinto, pelo que a igreja ficou interdita de ter o Santíssimo
Sacramento,
situação que só seria levantada em Agosto do ano seguinte, por
ordem do Cardeal
Patriarca.
Instituída logo a seguir à sua fundação , a Irmandade de São
Pedro era composta
por catraeiros e pescadores. Este templo, no ano de 1901, é
visitado pela rainha
D. Amélia.
Um Forte com múltiplas missões
Situado entre o extremo oeste da arri ba e o pequeno ribeiro da
Raposeira, este
edifício militar foi erigido em meados de 1683, durante o reinado
de D. Pedro
II.
Não sendo possuidor de grande história militar, desempenhou,
contudo, para além
de fortificação de defesa da costa marítima da barra do Tejo,
as funções de
Lazareto, hospital de quarentena até ao ano de 1820, altura em
que foi
desocupado.
Beneficiando entre os anos de 1829 a 1831 de obras de reparação,
o forte da
Trafaria passaria a presidio militar até ao fim das lutas
liberais. Abandonado
pouco tempo depois, é ocupado pela Companhia das Pescarias e
utilizado como
fábrica de guano de peixe.
Condenada esta sua função pelo Conselho de Saúde Pública,
seria mais tarde
reocupado novamente pelo Estado e, durante o reinado de D. Manuel
II, sofre
sucessivas obras de adaptação a presídio militar.
È nessa altura que a sua ermida, dedicada a Nª Sª da Saúde, é
restaurada, não se
tomando mais em salão de culto. Encontrando-se, presentemente, em
constante
degradação, conservando, porém, ainda o seu aspecto exterior.
Mais tarde, sob administração da Marinha, o forte passaria a
desempenhar funções
de presídio militar, transitando, depois, para a tutela do Exército.
0 incêndio de Janeiro de 1777
Entre os vários eventos históricos que ocorreram nesta pitoresca
povoaçaõ do
concelho de Almada, conta-se o celebre incêndio da Trafaria, em
23 de Janeiro de
1777.
Corriam em 1776 rumores de guerra entre Portugal e a Espanha,
verificando- se um
grande recrutamento por parte do Governo. Nesse época, consta-se
que a Trafaria
representava um importante centro de refúgio de malandragem e
desertores que
procuravam escapar aí à Lei.
Ao saber desse facto, o Marquês de Pombal mandou sob sua ordem e
mando o famoso
intendente Pina Manique, com 300 soldados, ao cair da noite,
cercar e pôr fogo à
povoação e prender todos os fugitivos. Este acto de grande
crueldade, continua,
ainda hoje, passado tantos anos, envolto em muitas contradições
históricas.
De "Jornal da Região – Almada" d22.12.1999
,por Atur Vaz.
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