|
SAVEIROS E ALGARVIOS TRAVAM ARMAS NA TRAFARIA
Numa
ardente tarde de Julho, quando já os brilhantes raios do sol,
tremulando, se encaminhavam para o ocaso, apareceu vindo dos lados do
Cabo Espichel, a bombordo dos cachopos da Barra de Lisboa, uma armada de
embarcações do Algarve, que constava de três lanchas guarnecidas, cada
uma delas, com algarvios, vinte e tantos chuços, dezoito bicheiros, nove
facas flamengas, vinte e cinco navalhas de dez réis e setenta e tantos
cachimbos de barro, entre velhos e novos. E assim vinha esta chusma
preparada para o que desse e viesse, pois esta gente do Algarve, como
são confinantes com os Mouros, todos são marafados e mais marafados
vinham por ser tempo de figo verde que quando lá se não passa, não podem
eles passar. Por conta disto, saíram de suas terras jurando pelas almas
dos capachos e pelas tripas dos atuns que haviam de sacar comer mesmo
que roubassem.
Vindo estes
três barcos piratas esgalgados por lhes faltar o contrato da merenda, já
dentro do Tejo, tomando o rumo do Bugio, chegaram à frente da terra da
Trafaria, para onde se botavam os lazarentos e os cavalos para a
almargem. O gajeiro, do cimo do mastro de onde se avista terra, viu
então estranhos vultos a boiar no meio da água, e entendendo ser atum ou
golfinho deu parte ao seu comandante e mandou este que voltassem por
estibordo e que fossem provar a natureza daqueles estranhos monstros
marinhos. Entrou toda a confraria a gritar no maior desassossego e
entendendo ser empresa em que pudessem tirar a barriga de misérias,
remaram com toda a força e chegando aos ditos vultos acharam-se
engasgados com as bóias de uma rede que ali tinham botado os saveiros da
Trafaria. Os algarvios consultaram-se entre si e votaram que se
levantasse a rede e se saqueasse o peixe e tudo o mais que pudessem
agadanhar para saciar a desalmada fome das suas barrigas.
Adormecidos
pelo saque
Estando os homens das três
embarcações todos nesta diligência, sucedeu vir um dos saveiros saindo
de uma enseada na costa que fica a Sul da Trafaria, em que os saveiros
viviam na maior parte do ano, aquartelados em cabanas de palhas. Vendo
este que a redor da rede se divisavam três embarcações estranhas, supôs
serem piratas e, remando com toda a força, foi dar parte aos seus
companheiros que se encontravam na enseada.
Estes, que também não eram
moles pelo rústico modo de viver que tinham à maneira de feras, entre
rochedos e só conhecendo Baco como Deus, nem terem outra Lei a não ser a
da sua conveniência, desassossegados com o aviso botaram as suas
embarcações ao mar, armando-se de cacheiras, chuços, paus e facas. E com
a ‘ajuda’ de Baco e do valor guerreiro amparado por Marte, remando com
inexplicável ligeireza chegando a avistar as embarcações dos algarvios
que já tinham saqueado a rede com todo o peixe.
Porém, como estavam mais
preocupados em meter o peixe na barriga, pouco se lembraram que a
cautela era precisa, não deram pelos saveiros que chegaram a tiros de
cachaporra, e mais incendiados ficaram os ânimos quando se certificaram
que lhes tinham roubado a rede com o peixe. Travou-se então a mais
furibunda batalha entre saveiros e algarvios.
Sangue
chega à praia da Trafaria
Os saveiros, que eram sete,
cercaram as três embarcações dos algarvios que, vendo-se no meio,
lançaram mãos aos chuços e travaram dura guerra, de parte a parte. Era
tão grande o marcial estrépido junto com o furioso alarido daquelas
bárbaras e rústicas línguas, que toda a gente da Trafaria saiu a campo
sem que ficasse velha no canto da chaminé nem moça na porta da rua que
não acudisse à praia, de onde se avistava o lugar da batalha. Soavam as
vozes que tinham morrido cinco homens e dois caído ao mar e trinta e
tantos feridos de ambas as partes, certificando-se esta noticia com
sangue que eram tanto que chegava à areia da praia.
Faltando as forças a uns por
feridos, e as vidas a outros por mortos, metendo-se de permeio a
obscuridade da noite, deram fim à batalha com grandes perdas de parte a
parte. Ao ter notícia da batalha, a Justiça prendeu saveiros e
algarvios, fora uns poucos que fugiram. Levaram trinta e tantos para a
Torre do Bugio e vinte e sete para o Tronco da cidade.
A quem coube a
vitória desta batalha, não chegou aos nossos dias notícia certa. Só se
suspeita que esta passará por dez réis para a mão de qualquer curioso
que Deus guarde para sustento dos cegos e amparo das tabernas.
In “Jornal da
Região – Almada” de 10.1.2001 = “Cantinhos da Região” por António Manuel
Neves Policarpo
|