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Naufrágios Históricos dos Açores

 

O naufrágio do Padre António Vieira (1654), Ilha do Corvo

Logo após a sua subida ao trono, aquando da restauração de 1640, D. João IV encontra um Império Português em franca decadência. Com efeito, um mês e meio depois da conjura de 1 de Dezembro, Malaca cai em poder dos Holandeses. Mesmo após a celebração do Tratado de Aliança de 12 de Junho de 1641, os Estados Gerais das Províncias Unidas teimam em consolidar as suas posições em território português, conquistando Luanda a 24 de Agosto do mesmo ano e o forte de Achém, em Março de 1642. Na mesma altura, o Pe António Vieira era enviado em missões diplomáticas a Haia e a Paris de modo a tentar obter o apoio de Mazarino para o resgate das terras brasileiras ocupadas pelos Holandeses. É também nesta altura que este clérigo propõe várias medidas revolucionárias que visavam combater o miserável estado do Reino, tais como o retorno dos judeus mercadores que se encontravam exilados pela Europa e a não confiscação, pela Inquisição, dos bens dos sentenciados.

Ao mesmo tempo que tentavam conquistar o Brasil pela força das armas, os Holandeses implementaram um formidável esquema de corso naval tendo aprisionado, só no ano de 1648, 249 navios dos 300 que normalmente percorriam anualmente o Atlântico. Como resposta a esta acção é criada, a 10 de Março de 1650, a Companhia Geral de Comércio para o Brasil que tinha como incumbência a protecção armada dos navios mercantes detentores do monopólio do trato do bacalhau, da farinha, do azeite, do vinho e do pau-brasil. Será só em Janeiro de 1654 que se obtém a capitulação dos Holandeses residentes no Brasil, o que marcará a reconstituição do Brasil português tal como ele existia antes da junção das duas coroas ibéricas.

O naufrágio

É também no ano de 1654, logo após a célebre Pregação aos Peixes - por falta de ouvidos da parte dos habitantes do Maranhão - que o Pe António Vieira parte para Lisboa, juntamente com dois companheiros, a bordo de um navio da Companhia Geral carregado de açúcar. Partia para, mais uma vez, defender junto do monarca os direitos dos índios escravizados contra a cobiça dos colonos. Como era habitual nos navios ibéricos, a vida quotidiana a bordo era regida pelas práticas religiosas, conduzidas neste caso pelo Pe António Vieira, grande partidário da reza pública do terço do Rosário. Esta monotonia foi intempestivamente quebrada por uma tormenta desfeita que se abateu sobre o navio cerca de 2 meses após a sua partida do Brasil, já à vista da ilha do Corvo.

Subitamente, as vagas tornaram-se excepcionalmente altas; o mar ficou completamente coberto de espuma e a visibilidade ficou reduzida ao mínimo. Como única salvação, o piloto mandou arriar todas as velas, à excepção da do traquete e deixou o navio correr com o tempo, à capa. De repente, uma rajada mais forte arrancou a vela e fez adornar a embarcação, ficando o seu bordo direito sob as ondas. Imediatamente, os passageiros em pânico correram para o costado oposto em tropel confuso. O Pe António Vieira, depois de a todos dar a absolvição geral, levantou a voz aos elementos e, bradou aos "Anjos da guarda das almas do Maranhão, lembrai-vos que vai este navio buscar o remédio e salvação delas. Fazei agora o que podeis e deveis, não a nós, que o não merecemos, mas àquelas tão desamparadas almas, que tendes a vosso cargo; olhai que aqui se perdem connosco."

Após tal exclamação, fez com que todos fizessem voto à Rainha dos Anjos de lhe rezarem um terço todos os dias se, porventura, conseguissem escapar das garras da morte. Um quarto de hora esteve o navio adornado sob as ondas, até que os mastros se partiram. Com a sua quebra e com o peso da carga de açúcar que se encontrava estivada até ás escotilhas, o navio girou sobre si próprio e retomou a sua posição natural. Todos se apressaram a recolher ao convés e, de joelhos, prestaram graças à Soberana Mãe de Deus. No entanto, sem mastros, sem velas, sem enxárcia e ao sabor dos elementos em fúria, a sua perdição tinha sido apenas adiada. Eis senão quando, ao longe, aparece outra nau que também corria com o tempo. Um nova esperança se levantava nos náufragos, esperança esta que depressa morreu com o afastamento do navio desconhecido. Este, cego ao navio destroçado e raso com o mar, acabou por mais tarde milagrosamente seguir uma derrota que o fez atravessar directamente a embarcação portuguesa a meio da noite.

O roubo e o desembarque na Graciosa

Esta embarcação era um dos tais famosos corsários holandeses que cruzavam o Atlântico em busca de presas. Recolheram os náufragos a bordo, pilharam o que puderam do navio à deriva - que acabaria por ir a pique - e fizeram desembarcar os portugueses na ilha Graciosa após os terem despojado de todos os seus pertences pessoais. Para acudir à miséria dos seus quarenta e um companheiros de infortúnio, o Pe António Vieira valeu-se da sua Companhia de Jesus e do seu nome. Tudo fez para lhes providenciar roupa, calçado e dinheiro durante os dois meses em que permaneceu na ilha Graciosa. Foi também a partir da Graciosa que o Pe António Vieira creditou Jerónimo Nunes da Costa para que este fosse a Amsterdão resgatar os papéis e livros que lhe haviam sido tomados pelo corsário, tarefa esta que, ao que tudo indica, se cumpriu visto dispormos hoje de cerca de 200 sermões - um dos quais, o vigésimo sexto, relata este naufrágio - e 500 cartas deste autor, muitas delas anteriores ao naufrágio.

Quando conseguiu passar à ilha Terceira, a sua acção determinou também o aprestamento de uma embarcação para que todos os seus outros colegas de infortúnio pudessem tomar o porto de Lisboa. O Pe António Vieira permaneceu na Terceira durante mais algum tempo, iniciando também aqui a devoção do terço, que pela primeira vez foi cantado na igreja da Boa Nova. Da Terceira passou a São Miguel e daqui embarcou a bordo de um navio inglês para Lisboa, a 24 de Outubro de 1654. Quis a Providência que, mais uma vez, a sua viagem fosse marcada por um temporal que afligiu sobremaneira os passageiros portugueses - que se entregaram como de costume às habituais ladainhas em que como Católicos, como quem cria na outra vida, repetidamente se confessavam para morrer - mas que em nada preocupou os marinheiros ingleses que, talvez por serem hereges ou talvez por serem mais confiantes na sua embarcação do que os seus passageiros, se limitaram a comer como se nada fosse, embalados que estavam pelo canto dos canários-da-terra que levavam a bordo.

E foi assim que, em Novembro de 1654, aportou ao Tejo o homem que acabaria por falecer na Baía, cego e surdo, a 18 de Julho de 1697. Durante a sua vida passara mais de 10 anos a lutar pela independência de Portugal, outros tantos a lutar pelos direitos dos índios da Amazónia e outros sem fim a combater os inquisidores de Coimbra. Estes, que o fizeram encarcerar de Fevereiro de 1663 a Outubro de 1665 e que o forçaram a ouvir durante duas horas, de joelhos, a enumeração das suas culpas e que o proibiram de sair do reino e de usar de voz activa e passiva, viram a sua Inquisição suspensa durante 27 meses graças à acção do Pe António Vieira. Este feito único só não se prolongou por mais tempo e conduziu à extinção da Inquisição em Portugal porque os bispos portugueses ameaçaram a Santa Sé com um cisma da igreja nacional. Foi também assim que este grande orador - a quem Fernando Pessoa apelidou de Imperador da Língua Portuguesa - e verdadeiro Homem de Deus escapou (por milagre divino?) da morte ao largo dos Açores.

 

Galeão São Pantaleão (1651), Água de Pau, Ilha de São Miguel

 

A 3 de Janeiro de 1651 naufraga, na Ponta da Galé, vila de Água de Pau, o galeão São Pantaleão da armada real. Proveniente do Brasil, com um carregamento de madeira de jacarandá, este navio capitaneado pelo general António Telles de Menezes, embate em lugar tão ruim que morrem mais de trezentos homens, escapando apenas uma trintena de pessoas. Entre estes sobreviventes iremos encontrar o mestre de campo Dom Fernando Telles de Faro, o sargento mor, Dom António de Azevedo e o capitão Luiz Francisco de Sampayo. De imediato, Luís Mendes de Vasconcellos, Governador Geral de São Miguel, notifica do sucedido o Provedor das Armadas e Naus da Índia, Mina e Guiné, João do Canto de Castro. Este, sediado na ilha Terceira, prontamente se socorre do Regimento da Provedoria das Armadas, verdadeiro manual de instruções que o Rei enviava regularmente ao único responsável pela segurança e provimento das armadas portuguesas em águas açoreanas de modo a que se pudesse precaver a fazenda real. O Regimento da Provedoria afirmava que, para o socorro da gente e sua provisão, se socorreriam os náufragos com dinheiro em contado e roupas, nomeadamente àqueles que delas se achassem desprovidos.

Assim, enquanto que ao mestre de campo caberiam 30 mil reis mensais, ao sargento mor caberiam apenas 9 mil reis por mês. Para os outros postos a distribuição era a seguinte: dar-se-iam, por dia, cem reis ao ajudante, sessenta aos capitães, oitenta aos alferes e sessenta aos sargentos. Os marinheiros eram contemplados com cinquenta reis diários e, aos soldados, caberia finalmente a soma diária de quarenta reis. Aos oficiais reformados caberia a soma diária de cento e vinte reis para os capitães, sessenta para os alferes e cinquenta para os sargentos. Como termo de comparação podemos dizer que o moio de trigo valia, nesta altura, cerca de oito mil e quatrocentos reis. A todos os que se encontrassem sem do que vestir ser-lhes-iam fornecidas roupetas, calças, jubões, meias, sapatos e duas camisas. Os custos que esta doação acarretava seriam, posteriormente, imputados aos Armazéns do Reino para abatimento nos respectivos assentos.

O destino da tripulação

O galeão São Francisco de Hamburgo, da mesma conserva - ou seja, de um mesmo grupo de navios que viajara conjuntamente a partir do Brasil - viera derrotado à ilha Terceira, por causa do mesmo temporal que ocasionara a perdição do São Pantaleão. Este galeão, estando surto no porto de Angra, necessitava sofrer reparações importantes, nomeadamente a nível da mastreação e do poleame. Devido à escassez de materiais que se verificava nos Açores, o Provedor das Armadas decretou que, enquanto a madeira e o ferro recuperados do São Pantaleão seriam leiloados e vendidos a quem mais oferecesse, a enxárcea e o poleame viriam embarcados para a Terceira de modo a servirem para o conserto do São Francisco de Hamburgo.

No tocante aos náufragos, apenas o mestre de campo, o sargento mor e mais dez oficiais de maior importância poderiam ter licença para embarcar para Lisboa. Ser-lhes-ia fornecido igualmente mantimentos em quantidade tal que se pudessem manter durante quinze dias. O restante da tripulação do São Pantaleão ficaria, no entanto, em São Miguel e de lá viria, a mando do Provedor, para complementar a guarnição do galeão que ficara na Terceira.

O salvamento da artilharia e da carga

A artilharia do São Pantaleão era, provavelmente, o bem mais valioso que a Coroa Real possuía a bordo do galeão naufragado. O Provedor determinou a sua recuperação imediata e para tal recorreu aos serviços de um mergulhador, João da Cruz, que se encontrava num dos navios da conserva. Este tripulante especializado receberia cinquenta reis diários pela prestação deste arriscado serviço. As peças de fogo assim recuperadas seriam inventariadas e o Provedor da Fazenda, António Diniz Barbosa, assentaria o se número bem como o respectivo calibre.

A carga de madeira de jacarandá viria para a Alfândega para que se pudesse entregar aos respectivos donos, pagando estes os direitos devidos à Coroa Portuguesa. Para que o transporte da madeira se fizesse sem embaraços de ordem económica, o feitor Francisco Soares de Mello providenciaria o dinheiro necessário por conta da Fazenda Real. Todas estas despesas seriam verificadas pelo Provedor das Armadas, de maneira a que este pudesse controlar mais eficazmente a contabilização dos custos que o naufrágio acarretaria ao Reino.

Se em São Miguel não se encontrassem embarcações disponíveis para a recuperação da artilharia ou da madeira de jacarandá, far-se-ia construir, por conta da Fazenda Real, uma barcaça especificamente construída para a recuperação e salvamento do galeão. Esta barcaça deveria ser dotada de molinete e gaviete e mais apetrechos de recuperação. Se houvesse falta de materiais de construção os carpinteiros navais poderiam utilizar o madeirame do galeão para a construção da dita barcaça, de maneira a que esta se encontrasse operacional o mais rapidamente possível. O Provedor avisava também André de Ponte de Souza, contador da Fazenda Real para as ilhas de São Miguel e Santa Maria, para que as justiças ordinárias cumprissem com o disposto com prejuízo de perderem as mercês dos seus ofícios. Esta precaução devia-se ao facto de, por vezes, as entidades representantes da Coroa terem uma certa desconfiança em relação às despesas que eram obrigadas a efectuar com estes naufrágios imprevistos visto nem sempre serem remuneradas atempadamente pela Coroa. Pode dizer-se que, já naquele tempo, o Estado não primava pela pontualidade no cumprimento das suas dívidas...

Algumas precauções em termos de prospecção arqueológica

Os Regimentos da Provedoria das Armadas são documentos extremamente importantes quando é necessário estabelecer um determinado sistema de prospecção. Com efeito, a elevada frequência de naufrágios junto às costas, em profundidades acessíveis aos meios de salvamento da época, implicava a existência de toda uma estrutura organizada de recuperação dos bens perdidos, nomeadamente das peças de artilharia e dos apetrechos náutico mais valiosos. Tal aconteceu, por exemplo, com a nau da Carreira da Índia Nossa Senhora da Luz, naufragada no Faial em 1615 e com o galeão São Pedro de Hamburgo, naufragado na Baía da Praia em 1654.

Ora, são precisamente as bocas de fogo e as âncoras os vectores arqueológicos típicos de um naufrágio. Estes vestígios são aqueles que, porventura, maior facilidade apresentam em serem detectados por meios de prospecção electrónica, nomeadamente por intermédio da magnetometria de protões. A recuperação contemporânea destes objectos, aquando do naufrágio, implica assim uma maior dificuldade na detecção e inventariação do património cultural submerso nos Açores, o que pressupõem a adopção de outras estratégias de prospecção.

Listagem de Naufrágios por Ilha

Grupo de Arqueologia Subaquática

 

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