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Um novo museu para 400 mil anos

PAULA LOBO
No corredor que dá acesso às galerias de exposição permanente, o chão mostra pegadas humanas com mais de três milhões de anos. No piso superior, reconstitui-se a vida doméstica na caverna, onde se talhavam objectos e preparavam refeições com animais caçados. Em Eyzies-de-Thayac, no sudoeste de França, o novo Museu Nacional de Pré-História recorda assim como se vivia há 400 mil anos no vale de Vézére.

Inaugurado há uma semana, este projecto orçado em 24,5 milhões de euros demorou duas décadas a construir. Por culpa, conta o jornal Le Monde, dos inúmeros estudos realizados, das expropriações, da fragilidade da falésia adjacente, da complexidade museográfica, da climatização e das verbas entregues a «conta-gotas».

Jean-Pierre Buffi - autor do Instituto Franco-Português de Lisboa (1979) e do Velódromo de Marselha, e actual coordenador do projecto do Grande Eixo Central de Turim -, venceu em 1984 o concurso de arquitectura para o novo museu. Um complexo com 4120 metros quadrados distribuídos por um edifício rectangular, revestido com pedra branca da região e destinado às duas galerias de exposição permanente, e uma série de construções cúbicas que albergam escritórios, laboratório, auditório com 300 lugares, sala de exposições temporárias e recepção.

«Em termos de superfície, de colecções patentes ao público e de reservas, é [o museu] mais importante a nível europeu», afirmou à AFP Jean-Jacques Cleyet-Merle, conservador desta instituição, que exibe apenas 18 mil peças de um acervo com seis milhões de objectos, até agora guardados no castelo local (ver texto abaixo).

Tutelado pelo Ministério da Cultura francês, o Museu Nacional da Pré-História dá especial atenção ao período entre o Homem de Neanderthal, o primeiro hominídeo a enterrar os seus mortos (há mais de 300 mil anos), e o Homo Sapiens (o homem «moderno», que lhe sucedeu há cerca de 40 mil anos).

Para evocar a passagem do tempo, apresentam-se cortes estratigráficos provenientes de vários locais da região, porque, recorda Jean-Jacques Cleyet-Merle, «foi a sedimentação que permitiu que os objectos fossem milagrosamente conservados na Dordonha». E em vez da árvore genealógica, a evolução humana ao longo de sete ou oito milhões de anos é representada por um diagrama que mostra a transição dos australopitecos para o homem de Neanderthal.

Ao longo dos 1500 metros quadrados ocupados pela exposição, podem ver-se, segundo o Le Monde, um modelo hiper-realista do adolescente do lago Turkana, no Quénia (com 1,8 milhões de anos), a reconstituição científica de um megaceros (espécie de cervo maior que um cavalo) e de um homem de Neanderthal prestes a devorar uma costeleta, ou o molde de um rinoceronte de pêlo comprido descoberto quase intacto na Polónia.

A par destas recriações há ainda utensílios de caça e pesca, pontas de zagaias, um queimador em grés e objectos encontrados nas grutas de Lascaux. O museu, que espera receber por ano 300 mil visitantes, aposta na abordagem pedagógica da colecção e no seu interesse para cientistas e doutorandos

 
 
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