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Dois habitantes encontraram peças arqueológicas com três mil anos

“Já passaram alguns meses, mas ainda recordo a satisfação que tive quando fizemos a descoberta. Ao princípio, ficámos pasmados a olhar para aquilo, mas depois abraçámo-nos de alegria”, conta, ao CM, com alguma timidez.

A descoberta deste tesouro, vendido posteriormente ao Estado por 17 400 euros, ocorreu num fim-de-semana, em finais de Agosto de 2004. Este pedreiro de 49 anos – actualmente desempregado e que pediu para não ser fotografado de frente – e o seu companheiro partiram de Baleizão, aldeia do concelho de Beja conhecida pelo assassinato, há meio século, de Catarina Eufémia, que se tornou um símbolo do combate pela liberdade e pela defesa dos direitos dos trabalhadores e da mulher, nos difíceis tempos do regime de Salazar.

Pouco depois, num terreno revolto por máquinas situado nas proximidades do rio Guadiana, cuja localização exacta não revela, os dois homens deram de caras com o tesouro, que em breve estará exposto no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa (ver caixa).

“A boca do pote era bastante visível e os machados estavam por cima. No fundo, encontrámos as peças em ouro”, relembra, acrescentando: “Os objectos foram levados para as nossas casas e só ficaram no local os cacos do pote”.

As horas seguintes foram angustiantes. Começaram a chover ofertas de desconhecidos, com valores “bem superiores” aos que foram pagos pelo Estado. José Brissos e o companheiro, que entretanto já tinham mostrado o achado aos familiares, ficaram surpreendidos com a rapidez com que a informação chegou a esses compradores e, para além da desconfiança em relação as essas pessoas, não sabiam também como agir na venda do tesouro.

E é então que surge José Ambrósio Silva, amigo de longa data de José Brissos, que se disponibiliza a arranjar um destino legal para o achado. “O Zé (José Brissos) mostrou-me as peças e telefonei à professora e arqueóloga Conceição Lopes, que veio logo à aldeia. As peças foram vendidas em dois dias e entregues ao Estado”, explica este agricultor de 60 anos, também natural de Baleizão.

José Brissos, que regressou há três anos à terra natal após ter trabalhado um período como emigrante, ficou de consciência tranquila e satisfeito com o desfecho do negócio. O seu companheiro é que nem por isso e afastou-se na altura do processo de venda.

“Não sei se o achado valia mais do que aquilo que recebemos. O importante é que foi entregue aos portugueses e não vendido para o estrangeiro”, declara este homem, admirador confesso da arqueologia: “Quando tenho tempo livre gosto de ir para o campo e vou descobrindo coisas. Quando era pequeno achava moedas e em 2003 encontrei ânforas pré-romanas”.

Foi precisamente o interesse pela arqueologia que levou José Brissos a impor condições durante o processo de venda: “Ficou assegurado que o achado seria conhecido por ‘Tesouro de Baleizão’ e que, caso os arqueólogos avancem com trabalhos de prospecção no local, a mão-de-obra será maioritariamente de pessoas da região”.

José Brissos acredita, aliás, que na área onde encontrou o tesouro haverá outros. “Aquelas terras são ricas, mas não vou procurar nada. As pessoas do Museu de Arqueologia foram bastante correctas e já recebi a minha parte da venda... uma boa ajuda neste tempos tão difíceis”.

O PATROMÓNIO ESTÁ A SER VANDALIZADO

A região de Baleizão é bastante rica em património arqueológico, mas muito do espólio tem sido destruído por pessoas sem qualquer tipo de experiência que se dedicam à descoberta de vestígios. “Aqui na terra há quem tenha detectores de metais. Mas diz-se que vem muita gente de fora para tentar descobrir coisas valiosas mas acaba por vandalizar o nosso património”, sublinha José Ambrósio, que está a formar uma associação cultural e de defesa do património desta região do Baixo Alentejo. Ao CM contou ainda que, durante um dos muitos passeios que costuma dar pelos campos de Baleizão, montado na sua égua, encontrou espanhóis a cavar. “Foi a única vez que vi pessoas a explorar a região. Na zona do Serro Furado têm encontrado objectos dos tempos de D. Filipe II de Espanha e de D. Afonso IV, mas muitos estão feitos em cacos. As autoridades não têm meios para andar atrás das pessoas”, frisou. Baleizão chegou a ter quatro mil habitantes mas agora está reduzida a menos de metade. Daí que o tesouro possa ser importante para o desenvolvimento da aldeia através da criação de postos de trabalho caso o Estado avance com trabalhos arqueológicos. “Seria bom porque a maioria da população vive da agricultura. Quem sabe se por trás deste achado não está uma cidade desconhecida?”, interroga José Ambrósio.

"RARIDADE EXIGIU COMPRA EXCEPCIONAL"

A “raridade” do ‘Tesouro de Baleizão’ justificou a “forma excepcional” como foi comprado, explicou ao CM o director do Museu Nacional de Arqueologia (MNA), Luís Raposo. “O MNA decidiu adquirir este conjunto de peças de ourivesaria dado o seu valor comercial intrínseco e histórico muito grande”, referiu o responsável, acrescentando: “Um achado desta importância é raro, razão que nos levou a actuar com esta rapidez e de forma excepcional”. A verba necessária para a compra – 17 400 euros – foi avançada pelo Grupo dos Amigos do MNA, uma vez que a decisão tinha de ser tomada rapidamente, caso contrário o ‘Tesouro’ corria o risco de ser adquirido por coleccionadores particulares. O montante representa uma “compensação” dada aos descobridores alentejanos que acharam o conjunto de peças da Idade do Bronze. “Com esta compensação, quisemos dar um sinal às pessoas que, quando descobrem tesouros, o devem comunicar às entidades oficiais”, adiantou aquele responsável, sublinhando, contudo, que, “99 por cento dos achados arqueológicos não têm valor comercial”. O ‘Tesouro de Baleizão’ é constituído por três artefactos em ouro (gargantilha, bracelete e anel), um anel em quartzo e várias peças em bronze, como fragmentos de anel, argolas, machados e pesos.

Na opinião de Luís Raposo, estes pesos são, possivelmente, o achado mais importante de todo este tesouro, pois demonstra que “a técnica da metalurgia era muito desenvolvida naquela época”. Actualmente, as peças encontram-se em conservação e restauro no MNA e vão ser, posteriormente, apresentadas ao público. Provavelmente, em Maio ou Junho.

 
 
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