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A construção da Torre de Belém obedece a um critério racional de defesa do estuário do Tejo, implementado por D. JoãoII

 
 



(texto adaptado de N. Rubim)

 
A Torre de Belém é um referente do Portugal Atlântico e periférico. Embora ancorada no Tejo, e armada durante séculos com artilharia fixa, remete-nos para a viagem, para o querer, para o êxodo, para o nomadismo do Homem Português pelo Mundo repartido, e para o pioneirismo dos nossos seculares contactos de cultura nos vários espaços insulares e continentais.  
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Urrabieta Ortiz, séc. XIX
 
 

 
 
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A. Moyer et Sebatier, séc. XIX
  A nudez simbólica das suas pedras remete para as dimensões local, regional e nacional, mas alarga-se à dimensão Universal onde pode caber o Homem uno e diverso. A Torre de Belém afirma o direito à diferença dum povo e duma comunidade alargada de língua comum.

Falar de Fortificação como ciência só é possível quando se associa à técnica de construção defensiva um carácter científico. No final do séc. XV, a fortificação medieval, devido ao aparecimento da artilharia pirobalística, começou a tornar-se ineficaz. A evolução tornou-se inevitável, sendo o Castelo progressivamente substituído pela Fortaleza. Essa transição, pautou-se por distintas formas, como, por exemplo, a associação de uma torre medieval a um baluarte. Em Portugal, essa transição era liderada pela Escola Italiana, como aliás no resto da Europa, e vai-se materializar na construção da Torre de Belém, no reinado de D. Manuel I.

 
  A defesa do estuário do Tejo …

A construção da Torre de Belém, abaluartada, obedece a um critério racional de defesa do estuário do Tejo, implementado por D. João II, e englobado no plano mais vasto da reorganização geral das forças de terra e mar, plano esse continuado por D. Manuel I, e que viria a proporcionar os meios necessários, humanos e materiais, requeridos pela expansão promovida à escala planetária.

O projecto inicial abarcava um dispositivo integrado que compreendia, como meios fixos, a Fortaleza de Cascais, porventura atalaia e fortaleza avançada, a Torre Velha da margem sul e, em frente a esta, uma bateria, apenas fortificada, situada na zona onde mais tarde se viria a erguer a Torre de Belém. Guarnecidas de grossas bombardas, o tiro cruzado constituía formidável obstáculo a todo e qualquer navio, corsário ou de nação beligerante, que tentasse forçar a Barra. Devido a algumas limitações, como seja a sua grande dispersão, cadência reduzida, alcance insuficiente, construiu-se, por isso e por outros inconvenientes, uma nau de 1000 tonéis, cheia de numerosas peças que complementavam o dispositivo defensivo com uma base de fogo móvel.
 



 

 
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A View of the Bay of Lisbon, 1797
 
  E como talvez se julgasse ainda insuficiente a total protecção, também se construíram caravelas equipadas de grossas bombardas, executando tiro de ricochete, técnica inédita até então, e que estariam em posição, prontas a intervir caso necessário.

Este era um plano de grande eficiência, porquanto durante cerca de 30 a 40 anos não se registam queixas das populações, antes vítimas de constantes depredações por parte de corsários de origem norte-africana e norte-europeia. Este plano inédito e pioneiro veio a ser seguido, mais tarde, em todo o território do Império Português de quinhentos, sobretudo no Oriente.


 

  Nova artilharia …

Com o decorrer dos tempos surge nova artilharia, diversificada para responder a novos problemas de natureza estratégica e táctica. Surge um novo tipo de navio, desenvolvido entre nós, o primeiro no mundo exclusivamente à vela, destinado ao combate de alto mar: o Galeão. Fundeado a meio do rio Tejo, o "Botafogo" constituía um suporte da linha de defesa do rio. Surge na mesma altura em que é edificada a Torre de Belém (2ª década do séc. XVI).

De salientar que a Torre tem uma configuração única. Existindo grande similitude a nível estrutural com a Torre de Cascais, embora a profusa e bela decoração da de Belém a tornem única.

Desde o termo da sua edificação, a Torre de Belém foi artilhada para responder ao 1º plano de defesa da Barra do Tejo, iniciado por D. João II e concluído por D. Manuel I, cuja 1ª fase correspondeu à construção da Torre abaluartada de Cascais, desempenhando a função de vigia, foi continuado com a instalação da Torre Velha (da Caparica ou de S. Sebastião), na margem sul do Tejo, e, possivelmente, com uma bateria fronteira, descoberta, na margem norte.
 



 

 
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Torre de Belém
  Prevista pelo seu antecessor, D. Manuel I mandou edificar a Torre de Belém no local próximo à referida bateria, com possibilidades de executar tiro cruzado com a Torre Velha.

A Torre de Belém, tal como a fortificação de Cascais e a da Torre Velha, foi projectada tendo em linha de conta os novos condicionalismos técnicos e tácticos decorrentes do aparecimento da artilharia pirobalística. Assim, as bombardeiras encontram-se a pouca altura do nível médio das águas. São de forma rectangular, permitindo bornear as peças, isto é, apontá-las em direcção e possibilitar além do tiro directo o de ricochete.
 


 

 
A Torre serve de atalaia. A muralha é rebaixada e de maior espessura, relativamente ao antigo método de fortificação, que remonta à tradição medieval. Existe similitude entre a arquitectura interior do Baluarte e a dos nossos navios de guerra. Face a tudo isto, a bateria inferior da Torre pode ser totalmente artilhada com material do tipo utilizado no séc. XVI nas fortalezas continentais e ultramarinas.

 
 


TORRE DE BELEM
 


 
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