Demarcação do
concelho da Guarda conforme consignado no foral
(tentativa de Reconstituição histórica).
Do lado de Celorico linha Norte
da Demarcação do Foral
" Da
parte de Celorico: por porto de Cerejo e por
esse lombo, a direito, por fonte de Salgueira,
por entre ambas fontes de Cavadoude, em direito
a Mondego, onde El-Rei por suas próprias mãos
assentou pedras".
A demarcação do
foral da Guarda pelo lado norte, ou seja, por
parte de Celorico, desenha-se a partir do
planalto de Pinhel, e mais propriamente, a
partir da zona de Azevo (palavra alui deixada
pelos povoadores árabes, formada de Al-jaf,
significando árido, seco (12 ), descendo sobre a
bacia do Mondego, pela margem direita, ao
encontro do rio.
Em documentos da
época do foral, nada se refere ao ponto inicial
desta linha norte, pelo que se recorreu a J. de
Pina Manique e Albuquerque (13), Op. Cit.
pág.52: "na zona da Azevo, no Coa, cerca de uma
légua a montante donde conflue a Ribeira das
Cabras".
Também o ponto
exacto onde termina este lado norte e forma
ângulo com o lado poente não aparece
suficientemente clarificado, podendo
localizar-se numa das pontes de travessia do
Mondego, ao fundo de Cavadoude e, provavelmente,
a ponte da Faia ou Aldeia Viçosa.
Assim, para a
demarcação desta fronteira, com cerca de 70
quilómetros, o demarcante, do planalto do Azevo,
onde se situava, voltou-se para o Mondego,
estendeu o braço, a apontar, e falou a linguagem
popular: por esse lombo, a direito; pela
nascente da Salgueira e pelo meio das duas
linhas de água que envolvem Cavadoude, até ao
Mondego- um tracejado de 70 km, com dois
segmentos identificados e visíveis.
Mais uma vez J.
de Pina Manique e Albuquerque (14), Op. Cit.,
aviva dois dos traços subentendidos: "passando
por Codesseiro e Avelãs".
Rita Costa Gomes
(15 ), Op. Cit. Pág.24, fornece-se elementos que
nos permitem saber que esta linha de demarcação
não se traçara em terreno inteiramente por
desbravar. Refere que o traçado da importante
via romana relacionado com a localização das
atalaias (de tala'a, palavra deixada pelos
povoadores árabes, a significar subir nas
proximidades de Castelo Bom, dirigindo-se em
direcção a Coimbra".
E acrescenta: a
esta estariam ligadas outras vias que quase se
cruzavam perto de Codesseiro ( a via pública de
Gardia e a via Castelli Mendi )".
Quanto a
Cavadoude, sabe-se que era importante referência
para quem viajasse e, para além da menção acima,
de Rita Costa Gomes, outra menção de grande
relevo é a da sua estalagem que Viterbo (17) no
Elucidário, Tomo I, pág.295 menciona, dizendo
que "Em alguns dos mais antigos documentos
referentes à cidade da Guarda, se faz menção da
Albergaria do Mondego. Esta era a Albergaria de
Cabadoudi que já tinha muitos anos..."
Merecedor de
atenção o informante do texto que diz: "...em
direito a Mondego, onde El-Rei por suas próprias
mãos assentou pedras".
Que o próprio D.
Sancho tivesse acompanhado, ao longo de todo o
perímetro, a demarcação do foral, nem é certo,
nem tem um interesse extraordinário.
Mas uma certeza
ressalta do texto: El-Rei esteve no Mondego;
esteve na travessia do rio, a quando da
demarcação do foral da Guarda e ali, " El-Rei,
por suas mãos, pôs pedras". Que pedras? Onde
assentou ele as pedras? Na ponte? Para a
construir? Para a reparar? Em qual ponte?
Ou seria na
construção do marco angular desta linha norte,
com a linha poente, que ali mesmo começava?
Fosse como
fosse, esta participação, duas vezes real, de
assentar pedras por suas mãos também foi
duplamente simbólica: uma do seu empenhamento na
construção da cidade da Guarda e outra da sua
decisão de construir e povoar o Reino. |