No ano de
1577, Matthew Baker iniciou em Deptford a construção de um navio
que viria a simbolizar a supremacia das armadas inglesas nos
mares. Ao contrário dos galeões ibéricos este novo modelo de navio
tinha castelos de proa reduzidos e um conjunto de linhas afiladas,
o que o tornava não só mais rápido, mas também mais manobrável.
A este novo navio deram o nome de Revenge. Media de
quilha 31 metros e tinha um comprimento total de cerca de 45
metros, estando o seu porte compreendido entre as 440 e as 500
toneladas. Na popa encontrava-se a cabina do capitão e o
alojamento dos demais oficiais do navio bem como a casa do leme, a
santa-bárbara - ou casa da pólvora - e os outros compartimentos de
armazenamento de víveres. Na proa, encontrava-se o mastro do
gurupés logo seguido do mastro do traquete, do mastro grande e do
mastro de gata ou mezena.
O
Revenge tinha duas cobertas de fogo, armando 42 canhões,
todos em bronze. Na coberta inferior - com as suas escotilhas a
cerca de metro e meio da linha de água - estavam localizadas 20
peças de artilharia, das de maior calibre (entre estas contavam-se
2 meios-canhões que disparavam projécteis de 15 quilos de peso e 4
canhões-pedreiros que disparavam balas de pedra com um peso de 12
quilos). Para além destas armas de grande calibre, o Revenge
armava ainda na sua coberta inferior 10 colubrinas que disparavam
projécteis de 9 quilos e 4 meias-colubrinas que disparavam balas
de 4 quilos de peso.
A relação de número entre as colubrinas e as meias-colubrinas era
excepcional já que era o inverso do que se passava com os outros
navios da época. O Revenge possuía assim uma invejável
capacidade de fogo. Na coberta inferior, as peças distribuíam-se
de maneira que os canhões se situavam a meio navio, com as
colubrinas alinhadas de igual modo - ficando, no entanto, 2
colubrinas à proa, para acções ofensivas, e 2 outras à popa, para
acções defensivas. No convés superior, o armamento era mais
reduzido, de modo a tornar centro de gravidade mais baixo e,
consequentemente, o navio mais estável (no convés estavam 4
meias-colubrinas, 10 quartos de colubrina e vários berços
anti-pessoal de pequeno calibre).
Três anos depois da sua construção, o Revenge combateu na
baía de Smerwick como navio almirante da frota inglesa. Combateu
igualmente, sob as ordens de Sir Francis Drake, a Invencível
Armada, no ano de 1588, partindo de Plymouth, no ano seguinte,
para atacar Portugal, também sob o mesmo comandante. Em 1590, o
Revenge era o navio-almirante da frota de Sir Martin Frobisher,
participando no bloqueio da costa espanhola, no intuito de
capturar as naus ibéricas provindas da Nova Espanha.
Sir Richard Grenville
Nascido na Abadia de Buckland, no Devon, em 1542, Richard
Grenville ficou órfão de pai aos três anos, quando este se afogou
num naufrágio célebre, o do Mary Rose (recentemente
escavado e recuperado em Portsmouth) .Da sua juventude obscura,
sabe-se apenas que matou em duelo um homem chamado Robert
Bannester e que foi admitido como estudante no Inner Temple, em
1559.
Grenville foi eleito para membro do Parlamento em 1563, tendo
casado com Mary St. Leger em 1565. Depois do casamento parte em
campanha contra os Turcos, tendo-se aliado aos exércitos do
Imperador Maximiliano II. Em 1576 foi eleito xerife da Cornualha
sendo investido cavaleiro no mesmo ano devido ao papel
preponderante que assumiu no debelar do Catolicismo no oeste da
Inglaterra.
Em 1585, Sir Richard Grenville fez a primeira de duas viagens à
Virgínia, na América do Norte, após ter obtido consentimento da
Rainha Elizabete I, no que foi ajudado pelo seu primo, Sir Walter
Raleigh. É em Roanoke Island que Grenville implanta a primeira
colónia inglesa na costa americana. Esta colónia veio a perder-se
pouco tempo depois, gorando-se as aspirações colonialistas do
cavaleiro inglês. Na viagem de regresso, Grenville ataca algumas
localidades dos Açores.
Em 1588, Grenville fornece três dos seus navios para o combate
contra a Invencível Armada, tendo ele próprio perseguido os navios
espanhóis sobreviventes até às águas irlandesas. Em 1591,
Grenville foi nomeado vice-almirante e, sob as ordens de Lord
Thomas Howard, dirigiu-se aos Açores para capturar as naus
espanholas.
Dirigia-se também, sem o saber, ao encontro da sua morte.
A expedição aos Açores
A 4 de Fevereiro de 1591, o Revenge embarca cerca de 90
barris de pólvora bem como 110 mosquetes e 70 arcabuzes. Para além
deste armamento ligeiro, a tripulação estava ainda dotada de arcos
ingleses e vários artefactos explosivos e incendiários.
Ainda em Londres, o navio recebeu cerca de 160 tripulantes, número
que foi aumentado para 260 quando, em Março de 1591, o navio
escalou os portos de Portsmouth e de Plymouth. O único oficial a
bordo, para além de Grenville, era o capitão William Langhorn,
responsável pela disciplina e comando dos soldados que se
encontravam a bordo da embarcação.
O Revenge fazia parte de uma esquadra composta pelo
Defiance, comandado por Lord Thomas, pelo Nonpareil,
comandado por Sir Edward Denny, pelo Bonaventure do
capitão Robert Cross, pelo Lion do capitão George Fenner,
pelo Foresight, comandado por Thomas Vavascur, pelo
Crane do capitão Duffield e pela barca Raleigh,
capitaneada pelo comandante Thynne.
Os outros navios de conserva, de reduzida tonelagem, eram o
Pilgrim, o George Noble, o Moon, o
Elisabeth, o Diana, o Wasp, o Moonlight,
o Dainty, o Swallow, o Vanguard, o
Bellyngham, o Bostock, o Disdain e o
Delight.
No final de Agosto, junto às Flores, esta armada de corsários
aguardava, impaciente, a vinda da rica armada espanhola, provinda
da Nova Espanha. No entanto, para sua surpresa, quem surgiu no
horizonte não foi a armada da prata, mas sim a armada de guerra de
Alonso de Bázan, que lhes tinha vindo dar caça.
A frota de defesa das ilhas
Com efeito, previamente avisado pelos seus espiões em Inglaterra
da preparação da frota inglesa onde se incluía o Revenge,
Filipe II ordenou, simultaneamente, à sua frota das Índias que
permanecesse durante o Inverno de 1590 no porto de Havana, em Cuba
e a Don Alonso de Bázan - filho do conquistador da ilha Terceira,
Álvaro de Bázan - o regresso da sua frota de 40 navios ao porto da
Corunha.
Esta frota de defesa (inovadora para a mentalidade conservadora da
maior parte dos militares espanhóis da época que ainda acreditavam
na força das galés mediterrânicas e na superioridade da abordagem
sobre os combates de artilharia no mar) tornara-se uma componente
essencial na defesa do território ibérico e na protecção das
armadas provindas das possessões ultramarinas, desde que a Espanha
vira derrotada a sua Armada Invencível em 1588. Com efeito, a
partir daquela altura, as incursões militares ingleses tornaram-se
mais arrojadas e a Espanha viu declinar a sua supremacia nos
mares, em favor da nova potência marítima.
Para defender a sua ligação umbilical com os metais preciosos do
Novo Mundo, Felipe II ordenou a construção de galeões de guerra, -
conhecidos como os Doze Apóstolos, pelos nomes que vieram a tomar,
entre os quais se contavam o San Felipe, o San
Barnabe, o San Christobal, o San Pablo e o
San Martin - a maioria dos quais integrava uma frota de
defesa que, com base na costa espanhola, tinha como missão
deslocar-se aos Açores anualmente, de modo a comboiar as frotas
mercantes que ali se reuniam.
A força sob as ordens de Don Alonso Bázan consistia num grupo
comandado pelo general Marcos de Aramburu, que tinha sob as suas
ordens 11 navios, dos quais 7 eram galeões de Castela. Outros 2
eram flibotes holandeses - uma embarcação rápida, de
linhas ligeiras e afiladas, à semelhança dos galeões ingleses -
denominados León Rojo e Cavallero de la Mar. Os
dois últimos eram navios de avisos, um dos quais era o San
Francisco de la Presa. Na frota espanhola, existiam ainda 8
flibotes, que eram comandados pelo português Dom Luís Coutinho. Os
galeões de Biscaia eram capitaneados pelo general Martin de
Bretendona, coadjuvado pelos restantes oficiais que comandavam as
restantes embarcações da armada: Sancho Pardo, António Urquiola,
Bartolomé de Villavicencio e António Manrique.
Em 1591, Felipe II ordenou a partida desta frota do porto de
Ferrol para a Terceira de modo a fazer face ao perigo que a armada
inglesa representava para a frota da prata. O corsário inglês Lord
Cumberland, que mantinha uma vigilância apertada sobre a
movimentação desta frota avisou então Lord Thomas Howard - que
permanecia desde Julho na paragem das Flores - da sua partida,
através da pinaça Moonshine, comandada pelo capitão
Middleton.
Bázan chegou à Terceira, a 30 de Agosto, e foi imediatamente
avisado da presença da frota inglesa no grupo ocidental onde tinha
causado toda uma série de desacatos e de pilhagens. O almirante
espanhol partiu para Flores mas atrasou-se bastante devido ao
tempo desfavorável que se fazia sentir no arquipélago.
No dia 8 de Setembro, Don Alonso de Bázan encontrava-se a cerca de
quinze léguas da ilha das Flores. Pretendendo seguir imediatamente
para a ilha, Bázan viu frustadas as suas intenções devido à quebra
do mastro gurupés no galeão de Sancho Pardo. Alonso de Bázan
viu-se assim forçado a mitigar o andamento, encontrando-o a
madrugada do dia 9 ainda a cerca de 8 milhas de distância das
Flores. O Almirante resolveu então contornar a ilha pelo lado
oeste de modo a surgir perante as forças inglesas - que se
encontravam ancoradas junto a Santa Cruz - como se viesse do
ocidente, fazendo com que os ingleses confundissem a sua armada
com a armada das Índias
O estratagema de Bázan resultou em cheio. Os ingleses rapidamente
levantaram ferro e acometeram a frota desconhecida. Para seu
espanto, em vez de encontrarem navios mercantes fracamente
armados, os ingleses encontraram pela frente quatro dezenas de
navios de guerra, sete dos quais de grande tonelagem.
A batalha inicial
Aquando do avistamento da frota desconhecida, provinda de oeste, a
maior parte dos navios ingleses estava desguarnecida, com as suas
tripulações em terra providenciando a aguada e o lastramento das
embarcações. Desses tripulantes, uma grande parte encontrava-se
doente, sendo portanto, inútil para a acção bélica que se
avizinhava. Estima-se mesmo que cerca de 90 tripulantes do
Revenge se encontrassem nessa situação. Pelo lado espanhol, é
de crer que também estivessem incapacitados parte dos seus
elementos, visto que estes se encontravam no mar, quase
permanentemente, há mais de dois meses.
Perante o avistamento da frota inimiga, os comandantes ingleses
ordenaram o corte das amarras e fizeram embarcar à pressa as suas
tripulações. Grenville foi o último a deixar o ancoradouro, já que
a sua tripulação demorou bastante a chegar ao Revenge.
Assim que se fez ao mar, Grenville constatou que tinha pela frente
uma esquadra de guerra e não uma frota mercante. Com o vento a seu
favor, os esquadrões de Sevilha surgiram a estibordo do Revenge e
deram-lhe imediatamente caça. Às cinco da tarde, Marcos de
Aramburu iniciou uma troca de salvas com os navios de Lord Thomas
Howard e tentou mesmo abordar o Defiance. O mesmo
tentaram fazer os galeões San Felipe e San Barnabé,
mas debalde.
Uma primeira descarga de artilharia, disparada do Revenge,
matou o oficial Jorge Troyano que seguia a bordo do galeão San
Felipe, comandado por Don Claudio de Biamonte. Este encostou então
a sua amura à do navio inglês e lançou uma corda de abordagem, por
onde treparam dez soldados espanhóis. O Revenge afastou-se e a
corda que os unia partiu-se, lançando os soldados que por ela
desciam ao mar. Grenville disparou então as suas armas da coberta
inferior. Carregadas com balas enramadas, destinadas a destruir o
aparelho do inimigo, a descarga ocasionou avultados estragos, quer
no velame, quer no cordame do San Felipe, que acabou por
se afastar. Imediatamente, Bretandona fez lançar um ferro de
abordagem, a partir do San Barnabé.
Entretanto, aproveitando-se do anoitecer, Lord Thomas Howard
escapou-se com o resto da sua frota, sendo perseguido pelo galeão
San Martin, a bordo do qual seguia um tercio lusitano e o
Mestre de Campo, Gaspar de Sosa.
Grenville, preso ao San Barnabé, não o pôde acompanhar. A
maior parte dos ingleses subiu então até aos seus castelos de proa
e de popa, de onde disparou os arcabuzes e mosquetes, lançando
mesmo granadas de mão para o interior do galeão espanhol.
Em ajuda deste, chegou então Marcos de Aramburu, que fez
desembarcar homens para a popa do Revenge. Abalrou-o para
esse efeito com a sua própria proa, que ficou destruída até à
linha de água. Os espanhóis capturaram então a bandeira do navio
inglês, matando alguns dos seus tripulantes e atingindo mesmo a
zona do mastro principal. Entretanto, Aramburu afastou-se, com a
água do mar a entrar às golfadas para o interior do seu navio e
pediu ajuda ao resto da frota. Em seu socorro veio Don António
Manrique, a bordo do galeão Ascención, que abalrou
igualmente a proa do Revenge, logo seguido pelo português
Don Luís Coutinho, que o secundou nessa acção.
A captura do Revenge
Nesta altura, era já noite cerrada. Don Alonso de Bázan fez reunir
a sua esquadra ao redor dos três navios imobilizados. Às onze da
noite, o próprio Grenville foi atingido por uma bala de mosquete.
Enquanto se submetia a cuidados médicos, uma descarga de arcabuzes
matou o cirurgião de bordo e feriu gravemente na cabeça o
comandante inglês.
O Revenge tinha perdido toda a sua mastreação, enquanto
que o navio de Coutinho se afundava durante a noite. O mesmo
sucedia, durante a madrugada do dia seguinte, ao Ascención
tendo-se salvo a maior parte dos seus tripulantes no navio de
Bretandona. O galeão San Barnabé fora tão atingido que
chegou mais tarde ao porto de Vigo quase sem velas nem âncoras.
Pela manhã, quase toda a pólvora do Revenge tinha sido
gasta e todas as lanças estavam partidas. Do embate tinham
resultado cerca de 40 mortos, estando ferida a restante tripulação
com maior ou menor gravidade. Na coberta acumulavam-se cerca de
1.5 metros de água proveniente de três orifícios de bala
localizados abaixo da linha de flutuação e atabalhoadamente
remendados pelos carpinteiros de bordo. Do lado espanhol
contaram-se mais de cem mortos, dois dos quais capitães, um deles
Luís de San Juan, capitão de infantaria.
Grenville tentou então convencer o seu mestre artilheiro a fazer
explodir o navio. No entanto, o capitão William Langhorn conseguiu
persuadir o mestre da embarcação a render-se aos espanhóis. Depois
de uma breve conferência a bordo da capitânia espanhola. Don
Alonso de Bázan ofereceu então a vida e a liberdade aos ingleses
em troca da sua rendição. A tripulação encerrou o mestre
artilheiro numa cabina do navio - impedindo-o mesmo de cometer
suicídio - e dirigiu-se então para bordo dos navios espanhóis.
Grenville foi levado para bordo do galeão de Alonso de Bázan, onde
veio a morrer, dos seus ferimentos, no dia seguinte.
Só quinze dias depois da batalha que dera a vitória a Alonso de
Bázan, surgiu junto à ilha das Flores o remanescente da flota de
la plata, comandada por Aparicio de Arteaga.
A frota das Índias
A frota da Nova Espanha partira de San Juan de Ulloa, no México, a
13 de Junho de 1591. Comandada por Ribera, esta frota de 22 navios
fora atacada pelo corsário John Watts ao largo de Cuba e perdera
dois dos seus navios. Tal já não era novidade, visto que o mesmo
corsário tinha feito o mesmo a outros 7 navios espanhóis
provenientes de Santo Domingo. À chegada ao porto de Havana,
Ribera juntou-se à armada das Honduras e aos navios mercantes que
Felipe II tinha mandado ali invernar. Das 120 embarcações
iniciais, apenas 71 sobreviveram aos furacões e os corsários.
A 27 de Julho, a frota partiu finalmente de Cuba em direcção aos
Açores. Durante a travessia do Atlântico novas tempestades fizeram
naufragar mais 11 navios em alto-mar e ocasionaram avarias
substanciais no resto da frota. A 14 de Setembro, chegaram às
Flores os primeiros 11 navios da armada das Índias. Comandadas por
António Navarro, estas embarcações tinham-se separado do corpo
principal da frota cerca de 3 semanas antes. Após terem sido
reabastecidos com água e víveres, estes navios juntaram-se à frota
de Don Alonso Bázan. No dia seguinte, surgiram no horizonte os
restantes 49 navios, sob o comando de Aparicio de Arteaga. Os
espanhóis viam com desânimo a sua armada semi-destruída. Velas,
cordame, provisões, tudo se encontrava estragado ou avariado.
Entretanto, a bordo do Revenge fora colocada uma tripulação mista
de 70 homens, espanhóis e prisioneiros ingleses, comandada pelo
capitão basco Landagorrieta. Don Alonso de Bázan resolveu então
convocar, a 14 de Setembro de 1591, uma junta para se decidir o
caminho a tomar:
- deveria a armada permanecer junto às ilhas e aguardar a chegada
das fragatas vindas de Havana, com ouro e prata a bordo, bem como
a arribada das naus portuguesas da Carreira das Índias, tal como
fora instruído por Filipe II?
- ou deveria a armada partir imediatamente para a Terceira, de
modo a que os navios danificados pudessem sofrer as reparações
necessárias para fazer face à última etapa da jornada, e partir
daí para o continente?
Foi decidido que a armada deveria cumprir o regimento régio, pelo
menos até à data limite imposta pelo soberano: 5 de Outubro de
1591. Assim, enquanto que junto às Flores permaneciam algumas
zabras e caravelas de sentinela, Don Alonso de Bázan partiu com o
grosso da armada - 60 navios vindos da Nova Espanha e 36 da sua
própria frota - para a Terceira, onde tencionava permanecer até à
data acordada.
A tempestade
No entanto, o Homem põe e Deus dispõe. No dia seguinte, pelo
meio-dia, o vento começou a soprar rijo de nordeste. Crescendo em
intensidade e rodando para norte, o vento assumia já ao anoitecer
características ciclónicas e continuava a piorar pela noite
dentro. Ao amanhecer, Don Alonso de Bázan descobriu que com ele
apenas permaneciam 10 navios. Toda a sua frota estava dispersa
algures entre as Flores e a Terceira. Na manhã desse dia
afundou-se junto ao San Pablo o navio Espiritu Santu,
de São Domingo, tendo-se salvo apenas 1 dos tripulantes.
Por 3 dias e 3 noites soprou o vento furiosamente, agora vindo de
oeste. Impelido por ele, Bázan não conseguiu ancorar em Angra,
onde parte da armada tinha conseguido chegar miraculosamente, só
conseguindo aportar à Praia, onde ancorou a 18 de Setembro. Aí,
abrigado no interior da baía, o San Pablo foi
inspeccionado e reparado por mergulhadores espanhóis enquanto se
tentou, debalde, desembarcar 100 soldados no areal da vila.
Pouco tempo depois, o vento cresceu em intensidade e obrigou Bázan
a deixar a Praia e a correr com o tempo, ao largo da ilha
Terceira. Simultaneamente, em Angra, a situação não tinha melhor
aspecto. Fustigados pelo vento ciclónico de noroeste, os navios
viram as suas amarras romperem-se, uma a uma. Empurrados para o
largo, muitos procuraram refúgio em São Miguel. Nessa noite 2 dos
galeões de Bázan fizeram abalroamento.
Entretanto, o Revenge lutava futilmente contra as ondas,
no que era acompanhado por Aramburu e Bertendona. Bázan acabou por
não voltar à Terceira. Comandado pelos ventos, agora provindos de
sudoeste, Bázan procurou refúgio em Lisboa, onde se reuniu a
maioria das embarcações sobreviventes. As restantes foram sendo
dispersas pelos portos de San Lucar de Barramena, Cádiz, Setúbal,
Porto, Vigo e mesmo Bayonne.
Em plena tempestade, os ingleses continuavam no corso. Assim, os
marinheiros do capitão Robert Flicke conseguiram saquear dois dos
navios da Terra Firme, antes que estes se afundassem. Ao mesmo
tempo, Manuel Paez, comandante do Caçada, um dos flibotes
de Coutinho, recapturava um outro navio não conseguindo fazer o
mesmo à Nuestra Señora de los Remédios que acabou por ser
levada, como presa de corso, para o porto de Plymouth.
Os naufrágios
De encontro à costa norte da Terceira desfizera-se a nau-capitânia
da frota mexicana, uma das mais ricas a afundar-se nesta
tempestade.
A nau Santa Maria del Puerto afundou-se a menos de duas
léguas da Terceira, sendo abandonada pela sua tripulação assim que
a água no seu interior ultrapassou a capacidade de esgotamento das
bombas.
O San Medel y Céledon foi visto, pela última vez, junto
às Formigas.
A nau Madalena, do esquadrão de Urquiola, deu à costa na
Terceira perdendo-se metade da sua tripulação.
Um patacho do mesmo esquadrão deu à costa na Graciosa, tendo-se
salvo a artilharia e a tripulação.
Uma outra nau, a Vegoña de Sevilla, do esquadrão de
Sancho Pardo, perdeu-se em mar alto, afogando-se cerca de 70
homens da sua tripulação de 200.
Duas outras naus naufragaram junto ao Topo, em São Jorge, tendo-se
salvo quase toda a tripulação.
Junto a São Miguel naufragaram ainda duas naus das Índias e um
galeão biscaínho.
Quanto ao Revenge, deu à costa na Terceira, junto à
Serreta num local asperissimo. Da sua tripulação de
emergência, apenas sobreviveu um homem, que morreu pouco tempo
depois, dos ferimentos sofridos no naufrágio.
Ainda nesse ano, Suarez de Salazar aconselhava o Rei a proceder ao
salvamento das peças do Revenge. Entre 1592 e 1593, procedeu-se à
recuperação de 14 bocas de fogo, recorrendo-se a meios de
recuperação subaquática ainda não totalmente esclarecidos. Para
trás ficaram 7 peças que foram, em 1603, arrastadas por uma
tempestade para uma profundidade menor, junto à costa, conforme o
relatado pelo capitão de artilharia Pedro de Lumbieras. No ano
seguinte, foram dispendidos cerca de 500 ducados com a recuperação
dessas peças, essenciais para o suprimento da fortaleza de São
Filipe. Quase 34 anos depois, a 4 de Julho de 1625, foram
recuperadas outras duas peças. Para a tarefa, foi escolhido um
artilheiro espanhol, Sebastiano Rivero, que participara já nas
anteriores recuperações, tendo só ele recuperado 18 canhões. Uma
destas peças era um meio canhão de bronze, com cerca de 40
quintais - 2 toneladas - de peso.
Para saber mais:
Carta de Christovão Soares de Albergaria ao Archiduque
Alberto, 24 de Outubro de 1591, in Archivo dos Açores,
Vol. II, 1880, Ponta Delgada
Documentação do Arquivo General de Simancas, GA
l. 326, d. 21, d. 29, d. 36, d. 44, d. 45, d. 57, d. 202, GA
l.626, Consiglio de Guerra
BUSHNELL, G. (1936) Sir Richard Grenville,
George G. Harp & Co., Ltd., London
EARLE, P. (1992) Sir Richard Grenville and
the Revenge, Collins & Brown Limited, 1992
FALCÃO, A. (1981) “Do Sucesso da Armada que foi
às Ilhas Terceiras no anno de 1591”, in Arquivo dos Açores, vol.
VI, Instituto Cultural de Ponta Delgada, Ponta Delgada
LINSCHOOT, J.(1609) “Histoire de la Navigation”,
Jean Evertz Cloppenburch, Amsterdam
MARTINEZ, R. (1988) “Las Armadas de Felipe II”,
Editorial San Martin, Madrid
RALEIGH, W., A report of the trues of fight about
the Isles of Açores, the last of August 1591, betwixt the Revenge,
one of her Majesties shippes, and an Armada of the King of Spaine,
Separata da Revista Insulana, Ponta Delgada
ROWSE, A. (1937) “Sir Richard Grenville of the
Revenge”, Jonathan Cape, Londres
TEIXEIRA, M. (1971) A batalha da ilha das Flores
- Sir Richard Grenville e o Revenge, BIHIT vol. XXV-XXVI,
Angra do Heroísmo
TENNYSON, A., (1971) The Revenge: a ballad of the fleet in
Poems and Plays, Warren, Oxford
WIGNALL, S. (1971) “Progress Report on the
Forthcoming ‘International Marine Archaeological Expedition’ to
the island of Terceira, Archipelago of the Azores” ”, BIHIT
vol. XXV-XXVI, Angra do Heroísmo