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Barra de Goa (4 de Janeiro de 1638

A partir do ano de 1636 os Directores da VOC (Companhia Holandesa das Índias Orientais), decididos a acabaram de uma vez por todas com a presença dos Portugueses no Oriente, deram ordens às suas armadas para bloquear Goa. E desde esse ano até ao ano de 1645, desde o fim da «monção» (Setembro) até ao início da «monção» seguinte (Maio) uma armada holandesa, vinda de Batávia, permanecia fundeada em frente ao Mandovi, fora do alcance dos canhões das nossa fortalezas, a fim de impedir a entrada das naus vindas do Reino e a largada das naus de torna-viagem.

A 26 de Outubro de 1637 fundeou ao largo de Goa uma poderosa armada holandesa constituída por dez naus e cinco patachos da qual duas naus e dois patachos foram pouco depois destacados para Surrate e para a Pérsia. Nada pôde fazer por então contra ela a nossa armada de alto bordo que nessa altura não tinha soldados por estarem a ser utilizados pelas armadas de remo que, apesar do bloqueio holandês, navegando cosidas com a costa, continuavam a assegurar as ligações de Goa com as restantes praças. Em princípios de Janeiro de 1638, tendo a armada de alto bordo recuperado os seus soldados, foi decidido dar batalha aos holandeses apesar de estes disporem de mais navios.

São muito curiosas as instruções dadas pelo vice-rei Pedro da Silva a António Teles de Meneses, capitão-mor da armada, acerca da forma de conduzir a batalha porque denotam uma clara percepção dos problemas da táctica naval, coisa rara entre os chefes políticos e militares portugueses e espanhóis da época. Dizia ele: que do combate de artilharia não se deveria esperar mais do que desaparelhar algumas naus inimigas e causar-lhe um número limitado de mortos e feridos; que o combate à abordagem devia ser evitado pelos galeões maiores, uma vez que a mosquetaria dava grande vantagem aos defensores e que, por outro lado, os navios, depois de aferrados, perdiam a liberdade de manobra e corriam o risco de se queimarem juntamente com os do inimigo; que, por isso, o que interessava era que cada um dos nossos três galeões pequenos e velhos conseguisse aferrar uma nau inimiga e depois se queimasse juntamente com ela; lá estavam os navios de remo para salvar as guarnições.

A 4 deJaneiro, ainda escuro, a nossa armada dirigiu-se para o local onde se encontrava fundeada a holandesa, na intenção de a surpreender. Mas os holandeses estavam atentos e suspenderam de emergência, afastando-se para sotavento a fim de se organizarem. Foram os nossos em sua perseguição mas só da parte da tarde, quando começou a soprar a brisa do mar, é que conseguiram alcançá-los. Ao contrário do que acontecera nas batalhas anteriores, a armada holandesa não conseguiu chegar a organizar-se e, a dada altura, os navios portugueses e holandeses achavam-se misturados, no meio de grande confusão, bombardeando-se furiosamente. Os holandeses começaram por transformar dois dos seus patachos em brulotes que lançaram contra os nossos galeões maiores. Mas ambos se consumiram sem qualquer efeito.

O herói do dia foi o pequeno galeão São Bartolomeu que conseguiu passar para barlavento de uma nau holandesa que a seguir aferrou, começando a atirar-lhe para dentro grande quantidade de lanças de fogo e de panelas de pólvora. Acorreu de imediato uma outra nau holandesa que aferrou o nosso galeão pelo outro bordo. Então o capitão deste, D. Luís de Castelo Branco, mandou pôr-lhe fogo, ao mesmo tempo que a sua guarnição se atirava à água. Tratou logo o holandês que estava a barlavento de se afastar mas nessa altura, por acidente ou porque o fogo tenha chegado ao seu paiol da pólvora, explodiu. O São Bartolomeu e a nau holandesa que primeiro aferrara arderam até à linha de água. Antes que acorressem os navios de remo portugueses, as lanchas holandesas recolheram os marinheiros do galeão que estavam na água. Só a chegada da noite pôs termo à luta.

Nesta encarniçada batalha os Holandeses perderam duas boas naus e os dois patachos que tinham transformado em brulotes. Os portugueses perderam somente um pequeno galeão e cerca de oitenta prisioneiros que posteriormente foram resgatados. Como é evidente, desta vez, a vitória, sob o ponto de vista táctico, pertenceu-lhes. Mas sob o ponto de vista estratégico nada se alterou, tanto mais que os holandeses, poucos dias depois, receberam o reforço de duas naus.

Estavam os portugueses aprontando os seus navios para novo confronto quando na noite de 8 de Março um dos seus maiores galeões se incendiou por acidente e se perdeu, o que levou a pôr de parte, por então, a ideia de nova batalha. Resta dizer que em Setembro de 1639, sendo Vice-Rei interino o arcebispo de Goa, por não se terem tomado em devido tempo as medidas necessárias ao aprontamento da armada de alto bordo, os holandeses conseguiram surpreender em Mormugão três grandes galeões portugueses, dos quais só um se encontrava armado, e destruíram-nos a todos, com o que a principal armada portuguesa da Índia deixou praticamente de existir.

 

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