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 Crédito: Hernani Amaral Xavier in APORVELA

Até quase ao séc. XIX, a construção naval, em Portugal, fazia-se por Traças e Regimentos, sendo que Traças era o conjunto completo das regras necessárias para a construção do navio, enquanto que os Regimentos eram as regras para se fazerem estruturas ou componentes desse navio. Assim, enquanto, por exemplo, se dizia Traça de uma Nau da Índia de 600 tonéis, dessa Traça haveria uma parte que se intitularia Regimento para o Lançamento da Roda, e/ou outro semelhantes, em que este seria a regra geral para a definição do arco da roda de proa. Só por volta dos finais do séc. XVIII é que começaram a aparecer os planos geométricos que definiam todo o traçado do navio, bastantes, sem outro qualquer auxílio, para a construção de qualquer navio.

Dos chamados "Tratados de Construção Naval" portugueses, nenhum é já suficientemente moderno para possibilitar a construção de um navio por plano geométrico; mesmo o "Livro de Traças de Carpintaria", de Manuel Fernandes e de 1617, tem desenhos de alguns tipos de navios e dos componentes que os constituem, mas não são planos geométricos, porque os desenhos não são perfeitos e não obedecem a escala, não se podendo pois relacionar a forma com as dimensões, nem estas entre si. Os desenhos de Manuel Fernandes, que sendo carpinteiro de ribeira, não era Mestre e, portanto, não estava oficialmente qualificado para traçar navios, são apenas uma visualização das Traças, em tudo semelhantes aos que Garcia de Palácios, espanhol, ou Mathew Baker, inglês, introduziram nos seus escritos.

 


Desenho de Mathew Baker, ca. 1580

 


Desenho de Garcia de Palácios, 1587

 

Desenho de Manuel Fernandes, 1671

 

Estes escritos e desenhos não têm nada que ver com os princípios geométricos da representação definidos por Anthony Dean, em 1670, nem com os planos de Chapman, de 1768, ou com as Planches de l'Encyclopédie Methodique, publicada em França em 1788, 9 anos depois de editada a versão francesa da Architectura Navalis Mercatoria, de Chapman.

 


Desenho geométrico de Dean, 1670

 

Planos geométricos de Chapman, 1768

 

Como é do conhecimento geral, em Portugal fazia-se o traçado dos componentes do navio, no chão da chamada Casa do Risco, casas que existiam em todos os estaleiros e arsenais. Estes riscos eram traçados com réguas, utilizando paus com tinta, a partir das Traças e Regimentos, inculcados, de pais para filhos, na cabeça de cada Mestre de Ribeira. As figuras curvas eram traçadas com os mesmo paus presos em fios, que na outra extremidade acabavam em estacas, para cravar no chão, e que eram o centro da circunferência, sendo o comprimento do fio o seu raio.

A partir do traçado no chão, faziam-se os moldes de madeira que, ciosamente guardados, serviam para fazer outros navios semelhantes.

Ainda no princípio do séc. XX se trabalhava assim nos estaleiros de norte a sul do país, na construção de embarcações de madeira, e ainda foi mais ou menos desta forma que se construíram as réplicas de caravelas da APORVELA, nos estaleiros de Vila do Conde. Os moldes lá ficaram até se perder da memória de que barcos eram, por falta de utilização, e virem a ser queimados para rentabilização do espaço, como sempre sucedeu a tantos outros.

 


Riscando a baliza mestra

 

Para construír um navio ou embarcação, era necessário conhecer-se apenas sete medidas básicas, em Rumos e Palmos de goa ( Rumo = 6 Palmos de Goa = 1, 54 m Palmo de Goa = 0,256 m):
  • comprimento da quilha
     
  • o comprimento do cadaste e
     
  • o seu lançamento
     
  • a curvatura da roda de proa, a sua altura e
     
  • o seu lançamento
     
  • a largura do gio e
     
  • a largura e forma da baliza mestra (desenho de cima)
     
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    Ou melhor, como se pode ver aqui, em que:
  • A representa o comprimento da quilha em rumos,
  • B o lançamento do cadaste em palmos de Goa,
  • C o arco e lançamento da roda de proa em palmos,
  • D e E as alturas do cadaste e da roda de proa em palmos, respectivamente,
  • F a largura do gio em palmos,
  • G a largura máxima da baliza mestra, ou boca do navio,
  • H e I representam as almogamas, que são as balizas semelhantes à mestra, na fôrma, e que assentam no mesmo ponto da quilha, sendo por isso também conhecidas como cavernas de um ponto.

    A distância entre almogamas definia o plão, ou fundo liso, cujas dimensões mandavam, quase que inteiramente, a capacidade de carga de um navio. De facto, se as almogamas forem colocadas muito próximo da roda de proa e do cadaste, ou seja, se tivermos muitas cavernas de um ponto, o navio terá grande capacidade de carga, mas andará pouco e manobrará mal, porque fica quase redondo e sem delgados. Pelo contrário, quanto mais chegadas forem as almogamas entre si, isto é quando houver poucas cavernas de um ponto, mais delgado fica o navio, com pouca capacidade de carga, mas muito mais veleiro.

    Se olharmos bem para a figura acima, vamos verificar que as cavernas entre almogamas estão definidas pela Traça, semelhantes à mestra, mas não o estão as cavernas da almogama da proa para a roda de proa, nem as da almogama da popa para o cadaste. A fôrma destas cavernas era tirada pelas armadouras, finas e flexíveis fasquias de madeira, que partindo de várias alturas das almogamas e assentando na altura correspondente da roda ou do cadaste, definiam, por dentro, a forma externa das balizas de dois, três e mais pontos, conforme mandava o Graminho. Como vemos, de uma mesma Traça, mas dependendo da actividade a que se destinava o navio, e da capacidade e engenho do respectivo Mestre de Ribeira, podiam saír navios bastante diferentes. E disso, chegaram-nos várias queixas de navios do mesmo tipo e tonelagem, em que uns andavam sempre adornados, outros pareciam que andavam de lado, descaíndo muito e outros ainda que eram excelentes veleiros.

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    Acima, à esquerda, vemos as operações referentes ao que acábamos de descrever. Na quilha estão assentes o cadaste e a roda de proa, a baliza mestra, a almogama da popa e os carpinteiros estão agora a assentar a almogama da proa. À direita podemos observar o casco de uma nau, no estaleiro, já acabado, desenho de Duarte d'Armas no "Livro das Fortalezas", de cerca de 1510.
     

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