
A Fortaleza de
S. Sebastião (www.xirico.com
)
A
Fortaleza de S.
Sebastião
Percorrendo as
fortalezas
portuguesas
espalhadas pelos
vários cantos do
mundo, de
Mazagão a Goa,
de Ormuz ao
Brasil,
verificamos que
um dos aspectos
que quase sempre
andou a par com
o processo de
expansão
ultramarina foi
a capacidade de
adaptação dos
portugueses ao
meio.
Em 1507, no
início da
presença
portuguesa na
ilha de
Moçambique, os
portugueses
construíram,
onde é hoje a
capela do
palácio dos
Governadores,
uma pequena
fortificação
junto à torre de
S. Gabriel, «que
tinha 15 homens
a proteger a
feitoria nela
instalada»1.
Passado cerca de
meio século, o
provisório forte
de S. Gabriel
encontravase
naturalmente
ultrapassado,
dada a evolução
do poder de fogo
e de destruição
da artilharia
inimiga, não
cumprindo
cabalmente o
papel de defesa
da ilha, que,
entretanto, se
tinha tornado
escala quase
obrigatória da
carreira da
Índia e dos
crescentes
interesses
comerciais
privados e da
Coroa2.
Apesar da
urgência na
construção da
fortaleza, as
obras só
principiaram em
1558. Segundo
Margarida Valla,
teria sido
Francisco Pires
- o
engenheiro-militar
que, em 1546,
dirigiu a
reformulação da
fortaleza de
Diu, e
introduziu o
«novo sistema
dos baluartes em
triângulo
correspondendo à
nova tecnologia
do ‘fogo
cruzado’,
ensinado nos
tratados de
fortificação
renascentista»
-, o responsável
pela elaboração
de um
projecto de
forte para a
Ilha de
Moçambique3.
No entanto,
Manuel Lobato
afirma, baseado
em informações
de frei João dos
Santos, que
teria sido um
sobrinho do
dominicano frei
Bartolomeu dos
Mártires o
arquitecto
encarregado de
dar início ao
projecto que
Miguel de Arruda
desenhou, de
acordo com um
plano detalhado
que D. João de
Castro dirigiu a
D. João III, em
15454.
Sem nos
perdermos com
estas pequenas
discrepâncias
históricas,
importa
salientar que a
construção da
Fortaleza de S.
Sebastião foi
evoluindo,
lentamente, em
perfeita
harmonia com a
topografia da
ponta norte da
ilha. De acordo
com o meio
ambiente, tal
como o
peixe-pedra, que
se acomoda e
disfarça entre
as rochas para
melhor se
defender de um
ataque iminente,
também a
Fortaleza de S.
Sebastião -
ainda antes de
estar concluída,
em 1620 - foi
capaz de
resistir aos
cercos
holandeses da
primeira década
do século
XVII, e, mais
tarde, aos
ataques dos
árabes de
Mascate, em 1669
e 1704, e dos
franceses, no
final do século
XVIII.
Não há dúvida
que o valor
estratégico da
maior fortaleza
de África
austral, e a
segunda maior em
todo o império
Português,
depois de Diu,
foi desde
sempre, um dos
aspectos que
mereceu uma
especial
atenção. No
primeiro quartel
do século XIX, o
carmelita frei
Bartolomeu dos
Mártires5,
observava que
«os navios são
obrigados a
passar muito
perto, e quase
junto à
Fortaleza de S.
Sebastião, que
pela sua bem
escolhida
posição local na
entrada, e boca
do porto, o põem
a coberto de
qualquer insulto
hostil»6.
Em meados do
século XVI, a
Fortaleza de S.
Sebastião fazia
parte de uma
vasta rede de
fortalezas
estrategicamente
dispostas ao
longo da rota da
Índia. O que é
curioso é que a
distribuição e a
localização das
fortificações
quinhentistas
mantiveram, pelo
menos até há bem
pouco tempo, uma
grande
actualidade.
Segundo
Modelski, se
compararmos um
mapa de ca.1550
relativo à
distribuição
global das
fortalezas
portuguesas,
verificaremos
que ele é muito
semelhante a um
mapa que revela
a rede de bases
militares dos
Estados Unidos
no estrangeiro,
ca.19967.
Tendo em
consideração o
perigo que as
comparações
anacrónicas
comportam, a
verdade é que
esta analogia
permite
reflectir sobre
as estratégias
desenvolvidas
pelos dois
impérios que, em
diferentes
épocas, tentaram
exercer a
supremacia no
mundo.
Passados 500
anos, a
Fortaleza de S.
Sebastião
encontra-se, de
novo, com obras
de recuperação.
Lentas, é certo,
em parte devido
a problemas
idênticos aos do
passado,
nomeadamente os
que se prendem
com a falta de
mão-de-obra
qualificada e a
gestão dos
donativos e
financiamentos,
privados e
públicos.
Aconteceu o
mesmo no século
XVII, quando, à
tradicional
carência de
artífices
experientes,
acresciam as
doenças
tropicais que
vitimavam muitos
pedreiros, quase
todos indianos8.

Palácio dos
Governadores ou
Palácio de S.
Paulo (www.xirico.com
)
O
palácio dos
Governadores
Se nos
restringirmos
aos aspectos
plásticos da
obra
arquitectónica,
o denominado
palácio dos
Governadores
nada tem de
excepcionalmente
interessante,
para além da sua
relativa
imponência e
localização na
Ilha. O edifício
provoca, no
entanto, alguma
curiosidade
quando se
conhece um pouco
da sua evolução
histórica. Na
verdade, o
edifício
construído em
1618-1620, sobre
as ruínas da
Torre Velha e da
sua cerca
fortificada, não
nasceu para se
tornar um
palácio do poder
político, mas
antes para
albergar um
colégio jesuíta.
Só em 1766, sete
anos após a
expulsão dos
jesuítas de
Moçambique, o
colégio de S.
Francisco Xavier
seria convertido
em residência e
sede do governo.
A reutilização
do edifício
deveu-se, em
grande parte, à
enorme carência
de casas de
habitação que
fossem
compatíveis com
o estatuto do
mais alto cargo
da colónia e que
possuíssem o
mínimo de
dignidade para
receber visitas
privadas ou
oficiais,
nomeadamente
para hospedar os
Vice-Reis que
seguissem para a
Índia.
Sabemos que o
governador
Pereira do Lago
(1765-1779)
mandou construir
quatro casas de
raiz junto ao
convento, e
procedeu à
remodelação de
muitas outras
divisões do
imóvel, que
serviram de
residência dos
governadores e
das suas
famílias e para
instalação das
secretarias do
governo. A
ampliação do
colégio de S.
Francisco
praticamente
duplicou a sua
fachada e foi
feita à custa da
demolição de
casas situadas
junto do
edifício e que
também
pertenciam aos
jesuítas. As
obras custaram
6.500 cruzados,
uma quantia que
Pereira do Lago
afirmava não ir
sobrecarregar o
erário régio,
pelo facto de
esta soma ser
uma pequena
parcela
proveniente da
valorização das
patacas que
pertenciam à
Fazenda Real.
Tudo o mais foi
construído com a
ajuda de
moradores de
Moçambique, que
colocaram os
seus escravos e
mestres de
ofício ao
serviço da
Coroa, e ainda
pagaram do seu
bolso as
despesas com o
transporte das
madeiras9.
Os acrescentos e
as alterações
realizadas no
interior do
primitivo
colégio
conservaram as
formas
geométricas
simples e as
linhas sóbrias
da fachada, em
conformidade com
um certo
espírito de
austeridade e
humildade
monástica, mas,
paradoxalmente,
também tornaram
o edifício mais
aparatoso e
imponente, como
se este
procurasse
ganhar a
dignidade e a
distinção
inerentes à
residência da
autoridade
máxima em
Moçambique.

Palácio dos
Governadores ou
Palácio de S.
Paulo (www.xirico.com
)
O palácio dos
Governadores
vive
paredes-meias
com a igreja de
S. Paulo, e fica
defronte do
antigo porto. O
edifício de dois
pisos,
construído em
quatro panos
unidos pelas
extremidades que
formavam um
quadrado, tinha
no seu interior
um pátio
ajardinado que
era utilizado
nos momentos de
lazer dos
padres. O acesso
à ala nordeste
fazia-se por uma
escadaria de
dois lanços que
ia dar a um
amplo patamar
sob o qual está
uma pequena
gruta
artificial.
Contíguo, no
lado sudoeste,
fica a igreja de
S. Paulo, que
conferiu o nome
ao edifício. Do
lado de
nordeste,
separada por um
quintal que
chegou a possuir
árvores de
fruto, existia
uma Hospedaria
que
anteriormente
servia de
albergue para
peregrinos10.
Aparentemente,
tanto a
fortaleza como o
palácio podem
parecer
mausoléus,
corpos sem alma
e sem capacidade
de ter futuro.
Nada de mais
enganoso, na
medida em que
ambos os espaços
são
culturalmente
fruídos, como
aconteceu com o
festival «Verão
amarelo»,
ocorrido no
início de
Outubro passado,
na fortaleza e
na praia
vizinha, cujo
objectivo
principal foi o
relançamento das
potencialidades
culturais e
turísticas da
ilha, ou com a
transformação do
palácio em
museu, a fim de
preservar o seu
rico património
indoportuguês.
A cidade
branca e a
cidade negra: a
pedra e o macúti
Os especialistas
em arquitectura
costumam
assinalar que a
notável unidade
arquitectónica
da Ilha deriva,
em grande parte,
de uma certa
coerência e
continuidade no
uso de algumas
técnicas de
construção, na
utilização de
materiais
tradicionais de
edificação e na
aplicação dos
mesmos
princípios e
elementos
decorativos. No
entanto, essa
unidade
arquitectónica
não significa,
evidentemente,
que a
organização dos
espaços e dos
ambientes não
obedeça a uma
clara divisão
social existente
na Ilha. Isto é,
a Ilha
encontra-se
historicamente
dividida em duas
zonas
perfeitamente
distintas, que
interiormente
evidenciam um
grau elevado de
homogeneidade.
No extremo
norte, fica a
Fortaleza e o
campo de S.
Gabriel, um
espaço verde que
antigamente era
usado como
espaço de treino
militar e área
onde eram
produzidas as
«amarras,
viradeiras e
cordas de
cairo»,
essenciais à
vida marítima11.

Vista aérea da
«cidade de
pedra» (www.xirico.com
)
Na continuação
do campo de S.
Gabriel,
entramos
propriamente na
chamada «cidade
de pedra e cal»,
zona de grande
concentração de
edifícios
administrativos
e de habitação,
boa parte deles
de origem
seiscentista e
setecentista. Ao
longo da costa
ocidental, entre
a praia que fica
defronte da
fortaleza e o
palácio dos
Governadores,
encontramos uma
linha de casas,
construídas de
forma compacta,
que nos surge
como uma
sequência
ininterrupta de
fachadas, como
se se tratasse
de um único pano
de parede que se
prolonga de um
extremo ao outro
da rua. Muitas
destas
habitações
teriam
pertencido a
comerciantes
indianos,
vulgarmente
conhecidos por
baneanes, e
funcionavam como
feitorias por
estarem em
contacto
directo, de um
lado, com os
navios e com as
manobras de
carga e
descarga, e, do
lado oposto, com
a rua e com a
freguesia que
procurava
adquirir todo o
género de
fazendas. Em
algumas dessas
casas-feitorias,
o piso térreo
servia de
armazém para
recolha de
marfim e tecidos
indianos e a
casa chegava
mesmo a dispor
«de um pequeno
ancoradouro
privativo por
onde os escravos
eram conduzidos
directamente»
para os navios12.
Até ao Hospital
e o seu parque,
quarteirão que
faz fronteira
com a «cidade de
macúti», podemos
ver, entre
muitos outros
edifícios, o
antigo porto, a
alfândega, o
bazar, o
pelourinho, os
celeiros e
algumas das
casas mais
antigas, outrora
pertencentes aos
moradores mais
ricos.

Porta
indo-portuguesa
(www.travel-images.com/mozambique2.html
)
Muitas destas
residências
apresentavam
portas e janelas
de madeira
africana, dura,
algumas
exuberantemente
ornamentadas em
talha ao estilo
indiano. Nas
traseiras
existiam
pequenas hortas
e jardins com
árvores de fruto
e palmeiras que
conferiram ao
conjunto
habitacional e
monumental da
Ilha a harmonia
e a traça
semelhantes às
das cidades
portuguesas do
Estado da Índia
e, mesmo, das
cidades indianas
do Golfo de
Cambaia13.
A cobertura
destas casas, em
forma de
terraço, servia
para recolher a
água das chuvas,
que depois eram
encaminhadas
para cisternas
de uso doméstico14.
A passagem da
«cidade de
pedra» para a
«cidade de
macúti» ocorre
abruptamente,
devido ao
desnível do
terreno e às
características
particulares das
duas zonas.

Cidade de macúti
(www.xirico.com
)
Para Sul, ficava
a povoação
indígena pobre e
desordenada,
geralmente
conhecida por
cidade de
macúti,
pelo tipo de
materiais e pelo
modo como as
casas eram
construídas.

Casa de macúti (www.xirico.com
)
As casas de
macúti eram
construções de
paredes feitas
com uma trama de
bambus rebocados
com uma
argamassa de cal
e com tectos
feitos de forma
semelhante mas
cobertos de
folhas de
coqueiro15.
Estas casas de
macúti
para escravos,
negros forros e
mestiços de tez
mais ou menos
escura,
começaram por se
desenvolver de
forma um pouco
dispersa ao
longo da
contracosta.
Porém, à medida
que caminhamos
em direcção à
ponta meridional
da Ilha a
povoação
indígena
tornou-se um
pouco mais
compacta.
Para lá dos
poços da
Marangonha, «de
que todo Povo se
serve não só
para beber, mas
para os mais
uzos
cotidianos», e
dos Tanques
dos Mainatos,
cuja água
salobra apenas
servia para
lavagens e para
os indígenas se
servirem por não
terem outra que
beber, tudo o
mais «era
logradouro
privativo dos
negros gentios e
vedado a brancos
que lá não
fossem em grupos
armados»16.
Aos olhos
europeus era um
local
assustador,
especialmente
quando caía a
noite e havia
lugar às festas
indígenas à luz
de fogueiras,
com danças e
cantares ao som
estrepitante de
batuques, com
muita bebida
alcoólica e
muito fumo de
seruma que, por
vezes, davam
origem a brigas
e mortes17.
O extremo da
ilha, onde hoje
fica a zona dos
cemitérios e o
crematório dos
hindus baneanes,
construídos a
partir de meados
do século XIX,
era antigamente
um local
praticamente
desabitado.
Como facilmente
se depreende, a
população da
Ilha de
Moçambique era
relativamente
pequena e muito
heterogénea.
Fixou-se em
áreas bem
determinadas, de
acordo com a sua
riqueza,
estatuto social
e origem
religiosa.
Podemos, no
entanto, afirmar
que a Ilha e as
aldeias que
ficavam
defronte, no
continente, eram
mestiças. Até
meados do século
XIX, os dados
disponíveis
sobre a
população das
povoações
moçambicanas são
muito
incompletos. O
censo elaborado
pela Câmara, em
1766, sobre os
ofícios e a
forma viviam os
habitantes da
Ilha de
Moçambique e das
Terras Firmes,
indica que cerca
de 61% dos
residentes eram
goeses cristãos
ou «filhos de
Moçambique», os
filhos de
reinóis e de
goeses com
nativas
moçambicanas.
A maioria das
famílias brancas
originárias do
Reino
concentrava-se
no núcleo
urbanode pedra e
cal da Ilha, mas
muitas destas
famílias também
possuíam quintas
rurais no
Mossuril e na
Cabaceira
Grande, onde
permaneciam com
seus escravos e
dependentes,
durante longas
temporadas de
repouso18.
Segundo Gerhard
Liesegang, uma
estimativa
baseada em
censos parciais
de 1806 e 1831,
calcula que a
população da
ilha de
Moçambique não
excedesse as
4000 almas, a
maior parte
escrava19.
Os baneanes
hindus oriundos
do Guzerate
viviam quase
todos na Ilha,
geralmente em
casas alugadas
aos jesuítas ou
a outra ordem
religiosa, de
preferência
junto à
alfândega ou
junto à costa,
em contacto
directo com a
carga e descarga
de navios. Os
muçulmanos
asiáticos viviam
maioritariamente
na contracosta,
desde o terreiro
de S. Gabriel
onde produziam
as cordas de
cairo,
essenciais à
vida marítima.
Os negros
autóctones,
escravos livres,
mulatos e alguns
muçulmanos
autóctones
viviam em
palhotas a sul
do
convento-hospital
de S. João de
Deus e dos poços
da Marangonha. A
Ilha de
Moçambique,
lugar de
encontro de
diferentes
culturas, povos
e religiões,
encontra
precisamente
nessa dimensão
da diferença a
sua marca
identitária mais
forte. Esta
questão da
pluralidade, a
que acresce a
necessidade de
protecção,
reabilitação e
preservação do
seu património,
confere à Ilha
de Moçambique um
estatuto
importante no
panorama
histórico e
cultural da
humanidade e
convida os
cientistas
sociais a
debruçarem-se
sobre uma
história que
reconhece a
todos os
sujeitos em
presença um
papel activo e
enriquecedor,
especialmente se
esses sujeitos
têm origens tão
distintas quanto
as que se
encontram no
Índico africano.
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