Forte São Joaquim

Os portugueses em 1779, já possuíam algumas povoações na bacia do rio Branco, seus afluentes, e até já recrutavam para servirem no Forte São Joaquim os índios macuxis do rio Essequibo, cabeceiras do Rupununi e os da aldeia do lago Amacu. A partir da década de 1780, a expansão demográfica, com as fazendas de gado, tomava conta da área campestre circundante desses rios.

As fazendas nacionais foram fundadas no final do século XVIII. Lobo D'Almada, em 1787, governador da capitania de São José do Rio Negro, fundou a Fazenda do Rei, mais tarde, Fazenda São Bento, à margem do rio Uraricoera, próximo da confluência com o rio Itacutu, com animais abandonados pelos espanhóis durante a fuga de núcleo que dispersou às margens do rio Solimões, próximo ao lago de Tefé.

O tenente José Antônio Évora, do Forte São Joaquim, em 1794, transferiu para a margem esquerda do rio Itacutu várias cabeças de gado, especialmente vacas com cria, para formar a Fazenda São José, nas imediações do forte.
O capitão Nicolau de Sá Sarmento, comandante do forte, no final do século XVIII, em 1799, fundou a Fazenda Nacional de São Marcos, com animais da Fazenda do Rei (São Bento).

Durante os anos de 1838 e 1839, a região foi explorada por uma expedição científico-militar que, partindo do Forte de São Joaquim, foi ao Monte Roraima e daí a Esmeralda, no rio Orinoco, de onde, pelo canal do Cassiquiare, alcançaram a vila de São Carlos, no rio Negro, descendo até a cidade de Moura e subindo o rio Branco, retornando ao forte.

Parte dos militares destinados a servir no forte, ou aqui chegados em outras missões, gostaram e ficaram.
Não apenas soldados, cabos e sargentos, mas, também, oficiais fixaram-se na região com os seus familiares, constituíram família e, desses lavrados e buritizais, não mais saíram.

Dentre estes, veio o Frei José dos Inocentes, veio de Portugal, no ano de 1799, com o propósito de se distanciar o mais possível de sua terra natal. Enclausurou-se no rio Branco, como capelão do Forte de São Joaquim.
Antes de vir para o Brasil, José Batista Mardel havia largado o convento, para casar-se com Maria Carmelita, em 1794.
No ano seguinte, em 1795, nasceu o filho do casal, Carlos, porém, para desolação de José, sua mulher morreu em parto, quando nasceu a filha, Carmelita.
Consternado com a perda da companheira, José entregou o casal de filhos aos avós e voltou para o convento, consagrando-se frade, em 1799. Veio direto para o Brasil.
Ao chegar a Belém do Pará, conseguiu ir para Manaus e, dali, para o Forte de São Joaquim. Frei José dos Inocentes exerceu o ministério na região do rio Branco, nos anos de 1840 a 1850.

Outro foi o major Carlos Batista Mardel, filho do capelão do Forte de São Joaquim, frei José dos Inocentes, com Maria Carmelita, chegou em 1827.
Carlos, fazendo-se oficial do Exército português, veio seguindo o itinerário do pai.
Após desobrigar-se oficial de sua missão militar, o major Carlos Batista Mardel dedicou-se à indústria criatória e ao ramo de comércio a grosso, com mercadorias importadas de Belém do Pará, em demoradas viagens de barco à vela.
Fundou 7 (sete) fazendas na região do rio Cauamé: Monte Cristo; Nova Olinda; Monte Alegre; Santa Maria; São Salvador; Caranã e Boca do Auau.
Na região do Amajari, fundou 3 (três) fazendas; Graciosa; Monte Verde e Arapiri.
Foi casado com Geminiana Cândida.

O capitão Inácio Lopes de Magalhães veio do Estado do Ceará, para o Forte de São Joaquim.
No ano de 1830, Inácio Magalhães, fundou a primeira fazenda particular de gado bovino, denominada Boa Vista, pois existiam apenas as fazendas do Rei, São Bento, São José e São Marcos. Da sede da fazenda, ainda existe a antiga casa, onde está estabelecido o bar Meu Cantinho, no largo da igreja matriz de Nossa Senhora do Carmo.
Mais tarde, passou à categoria de vila de Boa Vista do Rio Branco, depois cidade. Hoje, é a capital do Estado de Roraima.
O Forte de São Joaquim do Rio Branco, em 1831, foi palco do casamento do capitão Inácio Magalhães com Liberata Batista Mardel, celebrado por frei José dos Inocentes. Liberata Batista Mardel era filha do major Carlos Batista Mardel com Geminiana Cândida, e neta do capelão.
Dessa união, veio o tronco da família Magalhães, de Roraima, com seus oito filhos.

O capitão Bento Brasil foi designado, por ato de Dom Pedro II, comandante do Forte de São Joaquim, posição avançada das Forças Armadas portuguesas no Brasil, incumbidas de garantir a posse destas terras.
Aqui chegou, em 1852, à frente de um reforço militar que fez retroceder invasores ingleses que fincavam marcos divisórios na foz do Surumu, onde já haviam hasteado uma bandeira inglesa.
O capitão Bento Brasil veio desempenhar sua função e ficou aqui. Constituiu família e deixou, desde então, na consciência de seus familiares, o amor pela terra e o vínculo com o seu desenvolvimento.
Tornou-se fazendeiro da região, de cujos núcleos criatórios vaqueiros era um sócio na procriação. Geraram-se muitos fazendeiros.
Seguidamente, em vários pleitos eleitorais, a candidatura ao cargo de deputado estadual da Assembléia Legislativa do Amazonas, recaiu na pessoa do seu filho, Bento Ferreira Marques Brasil.
Seus netos, Jaime e Adolfo Brasil, sempre estiveram presentes aos acontecimentos marcantes da transformação de Roraima.

O sargento do Exército João Capistrano da Silva Mota, veio do Estado do Pará, em 1865, integrando uma comissão da Delegacia Fiscal do Amazonas, encarregada de averiguar denúncias sobre desvios de gado da Fazenda Nacional de São Marcos.
No dia 25 de julho de 1890 é empossado na função de superintendente do município de Boa Vista, pelo capitão Barreto Leite, representante do governo do Amazonas.
Chegou com esposa e filhos. Ficou viúvo e casou pela segunda vez. Aqui lhe nasceram doze filhos.
O coronel Mota gostou, e ficou por toda vida nas ribeiras do rio Branco.
Ainda como militar, fundou a primeira escola da região; foi o primeiro professor, o primeiro juiz de paz, o primeiro promotor de justiça, o primeiro superintendente e o primeiro prefeito municipal de Boa Vista, cargo que desempenhou por quatro vezes.
A família Mota está entrelaçada com quase todas as outras famílias do Estado.
João Capistrano da Silva Mota difundiu o ensino e fez a disseminação da ocupação demográfica do Estado.

O cabo do Exército Pedro Rodrigues Pereira veio de Recife, Pernambuco, para o Forte São Joaquim, com a missão de retirar uma bandeira que os ingleses haviam hasteado na cabeceira do rio Branco, na Fazenda de São Marcos. Formou trincheiras.
Pedro Rodrigues, no posto de cabo do Exército, chegou a comandar o Forte de São Joaquim.
Aqui ficou e casou com Flota Mota, filha do coronel Mota, com quem teve cinco filhos. Depois, casou com Ana Mota de Oliveira, neta do coronel Mota, com quem teve dezessete filhos, inclusive o Tuxaua Pereira.
Ao sair da caserna, começou a trabalhar no comércio. Tinha balataria, na serra da Lua, no alto rio Surumu, "Camarão" e "Quixadá", no rio Cotingo, eram os mais movimentados da região.
Formou as fazendas Triunfo, Camarão e Baliza, na região do Cotingo, em Normandia. Fundou casa de engenho, chamada "Congresso", onde fabricava, em grande escala, açúcar moreno, rapadura, mel e aguardente.
Pedro Rodrigues, em 1923, deu exemplo de brasilidade ao enfrentar, sozinho e desarmado, doze invasores colonos britânicos, para defender as fronteiras do Brasil.
Não se intimidou com a agressão injusta à sua pessoa e no desrespeito à sua pátria e reagiu, eliminando o primeiro que investiu, tomando-lhe a arma e, com ela, enfrentando os outros. Definiu brasileira aquelas terras, confirmando aos ingleses que os limites do Brasil com a Guyana estão no curso do rio Maú.
A maior ocupação demográfica da região compreendida entre os rios Maú, Cotingo e Surumu, compõe-se de descendentes e afins de Pedro Rodrigues Pereira. Faleceu no dia 13 de setembro de 1941, com 62 anos de idade.


 

 


“D. Joseph, por graça de Deus rei de Portugal, e dos Algarves d’aquem e d’alem mar, em África de Guiné etc. Faço saber a vós, Francisco Xavier de Mendonça, governador e capitão-geral do Pará, que, tendo-me sido presente que pelo rio Essequebe, têm passado alguns hollandezes das terras de Suriname ao rio Branco, que pertence aos meus domínios, e commettido n’aquelas partes alguns distúrbios: Fui servido ordenar, por resolução de 23 de outubro deste anno, tomada em consulta do meu conselho ultramarino, que sem dilatação alguma se edifique uma fortaleza nas margens do dito rio Branco, na paragem que considereis ser mais própria, ouvidos primeiro os engenheiros que nomeares para este exame, e que esta fortaleza esteja sempre guarnecida com uma companhia do Regimento Macapá, a qual se mude annualmente. E aos ditos engenheiros fareis visitar outras paragens, e postos dessa companhia de que à defensa seja importante, particularmente das que forem mais próximas às colônias, e estabelecimentos estrangeiros, para formarem um distincto mappa das fortificações, que julgarem conveniente, o qual remettereis com o vosso parecer, declarando ao mesmo tempo a fortificação de que necessitarem as cidades do Pará e Maranhão, e as suas barras. El-Rey nosso senhor o mandou pelos conselheiros do seu conselho ultramarino abaixo assignados, e se passou por duas vias. Theodosio de Cabelos Pereira a fez em Lisboa a quatorze de novembro de mil setecentos e cincoenta e dous. O conselheiro Diogo Rangel de Almeida Castello Branco a fez escrever, Thomé Joaquim da Costa Corte-Real. – Fernando Joseph Marques Bacalhão.”
Este texto foi transcrito do Livro:
Forte de São Joaquim do Rio Branco.
Autor:
Alcir Gursen De Miranda