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Associação Nacional de Cruzeiros
BATALHAS E COMBATES
da Marinha Portuguesa
Mombaça - 5 de Março de 1589
Conforme já referimos, ao saber das
depredações causadas por Mir Ali Bec na costa de Melinde em 1586
o vice-rei D. Duarte de Meneses havia despachado prontamente
para lá (em 9 de Janeiro de 1587) uma poderosa armada
constituída por dois galeões, três galés e treze fustas,
guarnecidos com seiscentos e cinquenta portugueses, sob o
comando de Martim Afonso de Melo. Não tendo encontrado sinais de
Mir Ali Bec, que nesse ano não saíra do mar Vermelho, Martim
Afonso tinha-se limitado a destruir a cidade de Ampaza e a
submeter algumas vilas e cidades da costa de Melinde que haviam
acolhido os Turcos, incluindo a própria cidade de Mombaça que,
para não ser arrasada, teve de pagar um avultado resgate. Feito
isto, dirigira-se para Ormuz, onde, aliás, veio a falecer.
Entretanto, no mar Vermelho, Mir Ali Bec estava a reunir forças
para levar por diante a projectada construção de uma grande
fortaleza em Mombaça, o que daria aos Turcos o domínio de toda
aquela costa e colocaria em sério risco as naus da carreira da
Índia que, tanto na viagem de ida como na de volta, navegavam
durante várias semanas a curta distância dela. Mas o sultão do
Cairo estava a lutar com dificuldades financeiras e, por isso,
das dez galés novas que haviam começado a ser construídas em
Suez apenas foram acabadas quatro que, depois de guarnecidas e
equipadas, foram enviadas para Moca e entregues a Mir Ali Bec.
Com essas quatro galés e a fusta que tinha capturado aos
Portugueses no cruzeiro anterior, fez-se aquele de novo ao mar
em fins de 1588 ou princípios de 1589.
Depois de ter escalado Mogadoxo, onde se reabasteceu, de ter
tentado atacar Melinde, onde foi rechaçado pelos portugueses que
lá se encontravam, e, de ter tocado em várias outras cidades,
onde exigiu o pagamento de pesados tributos, Mir Ali Bec chegou
a Mombaça disposto a dar início à construção da grande fortaleza
com que sonhava. Mas a conjuntura não podia ser pior. Nessa
época estava tendo lugar uma migração dos Zimbas, povo
antropófago originário da Zambézia, que se dirigia para norte
devastando tudo à sua passagem. Quíloa havia sido tomada e os
seus habitantes comidos. Agora era a vez de Mombaça enfrentar o
pesadelo dos terríveis zimbas que se encontravam acampados em
grande número no continente, em frente à ilha. Nestas
circunstâncias, viu-se Mir Ali Bec forçado a distrair parte da
sua armada para conter os zimbas enquanto dava início à
construção de um pequeno forte destinado a controlar a entrada
da barra e que, possivelmente, teria a intenção de, mais tarde,
ampliar.
Mas, desta vez, os Portugueses estavam alerta. Escaramentados
pelo que lhes acontecera em 1586, tinham tido o cuidado de se
manter informados sobre o que se estava a passar no mar
Vermelho, por intermédio dos navios árabes que de lá vinham. E
logo que tiveram notícia de que Mir Ali Bec estava aprontando
uma nova armada mandaram uma fusta à Índia a pedir socorro ao
Vice-Rei.
Por morte de D. Duarte de Meneses, governava então a Índia
Manuel de Sousa Coutinho, que imediatamente organizou uma armada
destinada à costa de Melinde, capitaneada por seu irmão Tomé de
Sousa Coutinho, que compreendia dois galeões, cinco galés, seis
galeotas, seis fustas e uma manchua, onde iam embarcados, além
dos marinheiros e forçados, novecentos soldados portugueses.
A dimensão desta armada torna bem patentes duas coisas: a
primeira é que os portugueses da Índia se tinham claramente
apercebido da importância da ameaça que representava a
instalação dos Turcos na costa de Melinde; a segunda é que
dispunham de meios mais que suficientes para a enfrentar.
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Mombaça - 1589
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Não foi fácil a viagem de Tomé de Sousa
de Goa para a costa africana. Sucessivos temporais obrigaram
uma das galés a arribar ao porto de partida com água aberta;
os dois galeões desgarraram-se dos navios de remo; na maior
parte destes foi necessário deitar carga ao mar para não ir
ao fundo. Afinal, nos últimos dias de Fevereiro, os navios
de remo, que apesar de tudo se tinham conseguido conservar
juntos, chegaram a Brava, onde lhes foi dito que Mir Ali Bec
tinha passado para sul havia pouco. Grande foi o
contentamento dos portugueses, que o que mais temiam era não
encontrar a armada inimiga. Dispararam-se os canhões e os
arcabuzes, tocaram-se os instrumentos bélicos e encheram-se
os ares com a vozearia das guarnições!
Em face de tão boas novas, Tomé de Sousa apressou-se a
continuar a sua viagem. Em fins de Fevereiro tocou em
Ampaza, possivelmente para meter mantimentos; seguidamente
aportou a Lamu a fim de fazer aguada. Aí encontrou recado de
Mateus Mendes de Vasconcelos, capitão-mor daquela costa, de
que Mir Ali Bec se encontrava em Mombaça. Completada a
aguada, Tomé de Sousa dirigiu-se sem mais detença para
Melinde, onde juntou à sua armada uma boa galeota e duas
fustas que Mateus Mendes tinha preparadas para o acompanhar.
Nessa mesma noite, depois de uma breve visita ao Rei, tomou
o caminho de Mombaça, onde chegou no dia seguinte de manhã,
que era 5 de Março.
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Sobranceiro ao braço de mar que conduz à
cidade tinha Mir Ali Bec construído um pequeno forte guarnecido
com artilharia de grosso calibre com que contava impedir a
entrada aos navios portugueses se por ali aparecessem; para
evitar que os zimbas entrassem na ilha vira-se forçado a
destacar duas das suas galés para um passo existente no canto NW
da mesma que podia ser vadeado com água pelo peito na maré
vazia; as outras duas galés e a fusta tinham ficado fundeadas
junto à cidade.
Apesar do aspecto ameaçador do forte, Tomé de Sousa Coutinho
decidiu forçar imediatamente a entrada para não quebrar o ímpeto
que pressentia nos seus homens nem dar tempo ao inimigo para se
refazer do choque resultante da sua chegada. E com todos os
navios profusamente embandeirados e tocando trombetas, pífaros e
tambores, arremeteu arrojadamente pela entrada da barra sem se
importar com os pelouros de grosso calibre que caíam em torno da
armada. À frente iam as oito fustas sob o comando directo de
Mateus Mendes de Vasconcelos; logo a seguir, as oito galeotas;
por fim, as quatro galés com o capitão-mor.
À passagem pelo forte disparou este uma primeira salva sobre as
fustas sem que nenhuma tivesse sido atingida. Enquanto os turcos
estavam a carregar de novo as suas peças, passaram as galeotas.
Quando se aproximou a galé capitania, todos os canhões do forte
dispararam sobre ela uma segunda salva que também não acertou no
alvo! Mais destros ou com mais sorte, os bombardeiros da galé
conseguiram meter alguns pelouros de grosso calibre dentro
daquele, que mataram o condestável turco que dirigia o tiro.
Tanto bastou para que os restantes membros da sua guarnição
desmoralizassem e se pusessem em fuga para a cidade! Então, um
jovem fidalgo meteu-se no esquife da galé com meia dúzia de
soldados, saltou em terra, entrou no forte e, depois de ter
morto alguns soldados que ainda lá se encontravam, arrancou as
bandeiras turcas, que eram lindas bandeiras de seda multicores,
e voltou com elas, triunfante, para a galé!

Ataque a Mombaça
Entretanto, Mateus Mendes de Vasconcelos
chegava ao contacto com as duas galés e a fusta que estavam
diante da cidade, que logo acometeu com grande determinação. Os
turcos ainda tiveram tempo para disparar por duas vezes a sua
artilharia. Mas de pouco lhes serviu. Investidos por uma
alcateia furiosa que disparava sobre eles dezenas de arcabuzes à
queima-roupa e lhes lançava para cima catadupas de panelas de
pólvora, lançaram-se à água e fugiram para terra. Alguns dos
nossos, vendo que naquele lugar havia pé, atiraram-se também à
água e foram atrás dos turcos até à praia, continuando a matar
neles. E era tal a sua fúria que para os fazer recolher foi
necessário ir a terra o capitão de um dos navios!
As galés turcas estavam ricamente carregadas com os tributos que
Mir Ali Bec havia exigido nas várias cidades por onde passara e,
imediatamente, os soldados começaram a saqueá-las. A chegada de
Tomé de Sousa, com as galés, veio pôr termo à desordem. Meteu
nos navios tomados gente de confiança e mandou-os levar para o
largo; mandou um destacamento de cem homens ao forte a fim de
retirar dele toda a artilharia, o que não viria a ser tarefa
fácil por alguns dos canhões serem de grandes dimensões; ordenou
que Mateus Mendes de Vasconcelos, com duas galés, as sete
galeotas e seis fustas fosse atacar as duas últimas galés turcas
que estavam de guarda ao passo dos zimbas, ficando ele com duas
galés e duas fustas diante da cidade.
O combate com as duas galés turcas que estavam no passo dos
zimbas foi bastante mais renhido do que o anterior, porque nelas
tinha Mir Ali Bec metido a sua melhor gente. Depois da costumada
salva de arcabuzaria e do habitual lançamento de panelas de
pólvora em profusão, os portugueses lançaram-se à abordagem,
travando com os defensores violentos combates corpo a corpo. Mas
a superioridade numérica dos nossos era, neste caso, muito
grande. Cerca de cem turcos foram mortos em poucos minutos e
mais de setenta feitos prisioneiros. Da nossa parte houve apenas
dois mortos.
O resto do dia passou-se a inventariar o espólio encontrado nos
navios turcos para efeitos de repartição, conforme as regras em
vigor. Ao cair da noite, o rei de Mombaça mandou pedir pazes.
Concedeu-lhe Tomé de Sousa vinte e quatro horas de tréguas com a
condição de entregar todos os turcos que tinha consigo.
O dia 6 foi passado em relativo sossego, a curar os feridos e a
pôr os navios capturados em estado de navegar. Na manhã de 7,
não dando o rei de Mombaça sinal de si, Tomé de Sousa Coutinho
desembarcou com quinhentos soldados e ocupou a cidade sem
encontrar resistência. O rei e a população tinham fugido para o
arrabalde e encontravam-se escondidos no mato. Depois de ter
saqueado e incendiado a cidade, bem como uma nau e numerosos
navios que se encontravam varados na praia, Tomé de Sousa
regressou aos navios.
Apareceu então um emissário dos zimbas a felicitar os
portugueses pela vitória que tinham alcançado e a pedir
autorização para entrarem na ilha e comerem os vencidos!
Desejoso de haver às mãos Mir Ali Bec, Tomé de Sousa Coutinho
autorizou que o fizessem no dia seguinte. E, ao amanhecer,
mandou as embarcações miúdas da armada para junto de terra com
ordens para recolherem todos os fugitivos que se apresentassem.
Tal como havia previsto, logo que os turcos, árabes e gentios de
Mombaça se aperceberam de que os zimbas estavam a entrar na
ilha, fugiram espavoridos para junto das embarcações
portuguesas, pedindo aflitivamente para que os recolhessem, pois
preferiam mil vezes ser cativos do que mortos e comidos. Desta
forma foi cativado Mir Ali Bec e mais trinta turcos, entre os
quais alguns capitães importantes, cerca de duzentos árabes e
muitos naturais de Mombaça. Mas muitos mais morreram afogados
por já não haver lugar para eles nas embarcações.
A 15 de Março chegaram os dois galeões que se tinham desgarrado
durante a travessia do mar da Arábia, os quais nada mais puderam
fazer do que embandeirar festivamente e assinalar a vitória com
uma potente salva de artilharia.
Deixando Mombaça completamente arruinada, Tomé de Sousa Coutinho
foi à ilha de Pemba, onde colocou no trono um rei favorável aos
Portugueses, e daí dirigiu-se para Melinde, onde chegou a 22 de
Março.
Desnecessário será dizer que a estrondosa vitória que alcançara
sobre os Turcos e a prisão de Mir Ali Bec encheram de pasmo as
gentes de toda aquela costa e fizeram subir consideravelmente o
prestígio dos Portugueses ou, dizendo melhor, o medo que
inspiravam. Mal podendo acreditar no que os seus olhos viam, os
nativos diziam uns para os outros: «Com os Portugueses ninguém
se meta porque mais tarde ou mais cedo lhas pagará!»
Em Melinde, Tomé de Sousa deixou, além da galeota e das duas
fustas que eram de lá, duas fustas da sua armada, a fim de
ajudarem a defender a cidade dos zimbas que se estavam
aproximando. Desde já se poderá dizer que quando estes, mais
tarde, tentaram tomar de assalto Melinde sofreram uma tremenda
derrota, sendo obrigados a regressar às suas terras
completamente destroçados.
Com o resto da armada, Tomé de Sousa Coutinho ainda se conservou
durante mais algum tempo na região a fim de castigar os reis de
Lamu, Pate e Mandra pelo auxílio que tinham dado aos turcos. A
15 de Abril iniciou a viagem de regresso a Goa, onde chegou a 16
de Maio, sendo muito festejado.
Mir Ali Bec foi tratado com todas as honras e, mais tarde,
enviado para Portugal, onde acabou por se converter ao
Cristianismo.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa»
(Vol.IV)
Bibliografia:
Couto, Diogo do, Décadas, Livraria Sam Carlos, Lisboa, 1974,
22º Volume, p. 26
Sousa, Manuel de Faria e, Ásia Portuguesa, Livraria
Civilização, Porto, 1947, Vol. V, p. 113
Sousa, Alfredo Botelho de, Subsídios para a História Militar
Marítima da Índia, Ministério da Marinha, Lisboa, 1930, Vol. I,
p.203
Esparteiro, António Marques, Três Séculos no Mar, Ministério
da Marinha, Lisboa, 1975, Volume 4, p. 35
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e Combates da Marinha Portuguesa
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Última actualização: 23 de Outubro de 2001
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