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Deixando de lado
as discussões éticas quanto a valores históricos e culturais,
quem de nós, especialmente nós mergulhadores, nunca sonhou em
encontrar um tesouro submerso.
Sim, OURO,
amarelo, reluzente e que é, logicamente acompanhado de belas
moedas, além de jóias e pedras preciosas.
Alguns, por uma
moral adquirida em idade mais madura, podem dizer: “Eu, Nunca!”.
Mas para estes pergunto: vocês leram a Ilha do Tesouro, de
Robert L. Stevenson e não “viajaram” em encontrar um tesouro
enterrado numa ilha deserta?
Para certas
pessoas, este sonho permanece e por fim motiva a pesquisa em
busca de embarcações naufragadas que levaram consigo tesouros
para o fundo. Isto pode se transformar num objetivo de vida que,
na maior parte das vezes termina em fracasso pois apenas de 5 a
10% dos “caçadores de tesouro” tiveram sucesso. E este sucesso
ocorreu, salvo em pouquíssimos casos, após árduos trabalhos de
pesquisa documental, outros tantos de trabalhos no mar (quem não
se lembra de Mel Fischer e do Atocha, foram 16 anos até sua
localização), sem contar os gastos envolvidos nestes trabalhos.
Apesar de nossa
costa ser muito extensa, podemos dizer que não temos aqui uma
grande concentração de embarcações que naufragaram com fortunas
a bordo, ainda mais se uma comparação com o Caribe ou com a
Flórida for feita. Mesmo assim, podemos afirmar que um dos
naufrágios mais cobiçados do mundo se encontra ao largo de nosso
litoral.
Um naufrágio que,
além de atrair pesquisadores nacionais, já trouxe para nosso
país grupos estrangeiros com fama internacional no resgate de
naufrágios. Poucos sabem, mas o Columbus-America Discovery
Group, famoso por resgatar os tesouros do S.S. Central América,
já esteve por aqui. Além dele o Odyssey Marine Exploration, sob
a “fachada” de uma empresa nacional chamada COMPAS. Além destas,
a equipe inglesa Blue Water, recentemente andou sondando em que
pé andam as coisas por aqui.
Creio que parece
óbvio de qual naufrágio estou falando.
Sim, é ele mesmo:
o Santa Maria da Rosa, mais conhecido como o Santa
Rosa.
Muitos dos dados
que irei aqui apresentar vem da grande pesquisa realizada por um
colega “sonhador”, João Ivo Gouveia, que estuda o Santa Rosa a
mais de 14 anos. Durante estes anos todos, centenas de Arquivos
e Bibliotecas foram pesquisados; milhares de documentos
paleografados, lidos e relidos; dezenas de estudos
oceanográficos foram analisados; e muito capital foi investido.
Tudo isso o
transforma, em minha humilde opinião, num dos maiores, senão o
maior conhecedor do Santa Rosa em todo o Mundo.
Mas o que possui
de tão importante esta embarcação, que a tantos hipnotiza ?
Sua história
Lançada ao mar na
Ribeira das Naus em 1715, com suas 1.100 toneladas, esta fragata
de 3 mastros, 56 metros de comprimento e armada com 70 canhões,
teve um papel importante na frota de Dom João V.
Seu primeiro
grande feito foi o da sua vitoriosa participação na batalha do
Cabo de Matapan (atualmente Cabo Tenaro na Grécia) em Abril de
1717.
O Rei, para
satisfazer a um pedido que lhe fizera o Papa, enviou em socorro
da Santa Sé ameaçada pelos Turcos, uma poderosa esquadra
comandada pelo Conde de Rio Grande. Nesta batalha, envolveram-se
duas esquadras: uma formada a pedido do Papa Clemente XI, na
qual estavam 7 embarcações portuguesas e 30 galeras de Malta,
Veneza e dos Estados Pontífices; a outra esquadra, formada por
54 galeras, pertencia ao sultão Ahmed de Constantinopla, que
tentava expandir seus domínios no Mediterrâneo.

Após quase um
dia de batalha, os turcos foram derrotados, tendo perdido
diversas embarcações e mais de 2000 homens, enquanto que a frota
católica perdeu 300 homens.
Ao retornar
vitorioso para Portugal, o Santa Rosa passou a realizar diversas
missões de comboio e antipirataria, tendo sido finalmente
destacada para proteger as frotas anuais que vinham para o
Brasil trazendo mercadorias da Metrópole e voltavam carregadas
de riquezas.
Estas riquezas
eram produtos da terra como o açúcar, o fumo e couros, além de
ouro em pó, em lingotes ou moedas e pedras preciosas. Por volta
de 1720, o Brasil era o maior produtor de ouro do mundo (dele
partiam para Portugal cerca de 25 toneladas por ano) e aqui
estavam instaladas três Casas da Moeda: na Bahia, no Rio de
Janeiro e em Minas Gerais.

Moeda de ouro de
10.000 réis cunhada na Casa da Moeda de Minas Gerais (com a
marca monetária M) em 1725.
O naufrágio
No ano de 1726,
mas precisamente no dia 20 de Março, uma frota de 18 embarcações
parte de Portugal com destino ao Brasil. Dela faziam parte duas
embarcações de guerra, a Nossa Senhora de Nazareth e o Santa
Rosa, este último comandado pelo capitão Bartholomeu Freire de
Araújo.
O comboio chegou
a Salvador após dois meses e quatro dias de navegação.
Passaram-se
outros dois meses e meio nos quais foram feitas as operações de
descarga e carregamento. Além das embarcações que para cá haviam
vindo de Portugal, gradativamente outras 37 acabaram por se
reunir à frota de retorno.
O volume de
gêneros transportados para a Metrópole foi enorme: cerca de 27
mil rolos de tabaco, 13 mil caixas de açúcar (estas por si só já
valiam uma fortuna na Europa), além de 20 mil couros, milhares
de cocos e, um grande número de arcas e baús de jacarandá.
Nestes baús e
arcas, cerca de 10 toneladas de moedas de ouro, além de ouro em
pó e em barras, diamantes e pedras semi-preciosas. Esta enorme
fortuna foi dividida entre as duas embarcações de guerra,
cabendo ao Santa Rosa cerca de 6,5 toneladas que faziam parte do
Quinto da Coroa Portuguesa.
A frota foi
organizada e partiu de Salvador no dia 24 de Agosto de 1726,
exatamente 3 meses depois de sua chegada.
Logo no dia
seguinte, um forte temporal atinge a frota que acaba por ser
dividida em dois grupos. Como o temporal continuou por alguns
dias, o Santa Rosa, comandando um grupo de navios, tenta
prosseguir e voltar para sua rota normal, mantendo-se a cerca de
6 léguas ao largo da costa.
Duas semanas após
zarpar, dia 6 de Setembro, a tragédia acontece.
Não são claros
até hoje os reais motivos da explosão que provocou o naufrágio
mas, a hipótese mais aceita é a de que o capitão Bartholomeu
Freire, teve acirrada discussão com o comandante do regimento de
soldados que se encontrava a bordo, e após as Ave Marias, alguém
desceu até o paiol de pólvora, e nele ateou fogo.

A explosão deve
ter sido tremenda, pois a quantidade de pólvora que era
transportada para ser utilizada nos 70 canhões do Santa Rosa,
excedia a 200 barris. Basta lembrar que em 1648, o comandante no
navio português Nossa Senhora do Rosário, bem menor que o Santa
Rosa, se vendo subjugado pela nau Utrecht, ateou fogo em seu
próprio paiol de pólvora, no momento em que a embarcação
holandesa se preparava para a abordagem e, com a explosão ambas
foram ao fundo.
O resultado foi
terrível. Dos mais de 700 homens a bordo, não mais do que 2 ou 3
dezenas devem ter sobrevivido a explosão e ao rápido naufrágio.
Do pequeno grupo inicial de sobreviventes, somente 7, agarrados
a tábuas foram recolhidos no dia seguinte. Os outros acabaram
por perecer vencidos pela fadiga, pelos ferimentos ou pelo
ataque de tubarões.
As embarcações
restantes chegaram a Lisboa no dia 17 de Novembro e, dos 7
náufragos resgatados, apenas 3 concluíram a viagem com vida.
Os segredos
A história do
desastre foi imediatamente abafada.
Os motivos de
todo este segredo ?
Podemos deduzir
aqui pelo menos dois dos motivos.
A rota pela qual
seguiam as frotas anuais era mantida no maior sigilo, para serem
evitados os ataques de piratas ou de nações inimigas. Toda
indicação do local do naufrágio foi mantida em segredo para que
não pudesse ser deduzida a rota utilizada.
O segundo, e
talvez o mais importante motivo, deve ter sido o fato de que
como a frota retornava uma vez por ano à Metrópole, era neste
momento em que os cofres da Coroa voltavam a se encher de
riquezas, com o produto do impostos, principalmente o Quinto
Real.
Caso o ouro da
Coroa não chegasse, esta seria uma grande oportunidade para
especuladores, que receberiam grandes benefícios em troca de
empréstimos ao Rei e para as nações inimigas, pois sem o ouro, o
Rei não teria como pagar o soldo de um exército ou aparelhar uma
frota, tornando-se presa fácil a ataques.
A informação foi
bem guardada. Apenas no ano seguinte é que o vice-Rei Vasco
César de Menezes, em Salvador, soube da notícia.
Mesmo com todo o
sigilo, algumas informações foram coletadas por espiões: um dos
documentos de mais fácil acesso em nossos dias encontra-se na
Biblioteca Nacional de Paris. Foi escrito por um espião na Corte
de Lisboa e informa sobre a chegada da frota e sobre o naufrágio
do Santa Rosa.
Dos poucos
documentos portugueses da época, pouquíssimos existem em nossos
dias. Grande parte foi perdida num terremoto seguido de
incêndio, que quase destruiu Lisboa em 1755. Para nós, sobraram
algumas cópias, que se encontram em arquivos espalhados em
diversas partes do mundo.
Não é sem motivo
que a localização do naufrágio permanece desconhecida até hoje.
Da mesma forma, é por isso que pesquisadores como Ivo Gouveia,
levam por vezes 10, 15 ou 20 anos, para reunir dados sobre uma
única embarcação. E ele é um dos poucos, senão o único, que
possui a posição aproximada dos restos do famoso e rico navio.
Mesmo que a
suposta localização do Santa Rosa por vezes apareça em
Pernambuco, por vezes na Bahia, e em outras na Paraíba, creio
que não teremos que esperar muito até que seus segredos e
tesouros venham a ser revelados.
Marcello De
Ferrari.
Notas:
As Casas da Moeda
A primeira Casa da
Moeda do Brasil foi criada pela Coroa Portuguesa por volta de
1644, mas apenas no papel, pois nunca chegou a funcionar.
O aumento da
produção do ouro, aliado a descoberta do metal precioso em Minas
Gerais, justificou a criação da Casa da Moeda da Bahia em 1694.
As primeiras moedas
foram cunhadas em Janeiro de 1695, com a letra monetária “B”.
Esta Casa da Moeda foi transferida para o Rio de Janeiro em 1698
mas uma nova foi instalada em Salvador no ano de 1714.
Os equipamentos que
saíram da Bahia foram utilizados para a criação da Casa da Moeda
do Rio de Janeiro em 1968, com sua letra monetária “R”. Estes
mesmos equipamentos foram removidos para Pernambuco em 1700 e,
de lá retornaram para o Rio, desta vez definitivamente, em 1702.
A Casa da Moeda de
Minas Gerais foi criada por Carta Régia em 19 de Março de 1720,
em Vila Rica, atual Ouro Preto. Começou a cunhar em Fevereiro de
1725, com sua letra monetária “M”, e foi fechada em 1734.
As Moedas
As moedas que foram
cunhadas nos anos de 1725 e 1726, traziam as três letras
monetárias: “B” da Bahia, “R” do Rio de Janeiro e “M” de Minas
Gerais. Nestas três Casas da Moeda, foram cunhadas milhares de
moedas em ouro, nos valores de 400, 1.000, 2.000, 4.000, 10.000
e 20.000 réis.
Sua cunhagem foi
feita com ouro de 22 quilates e, para que se tenha uma idéia
aproximada do valor atual do Tesouro, transcrevo aqui o maior
valor pelo qual foram arrematadas moedas similares num leilão
numismático realizado na Suíça em Agosto de 1999.
Valor
nominal ano Casa da Moeda
Valor do lance em US$
20.000
réis 1725 M
3.655,63
20.000
réis 1726 M
3.351,00
10.000
réis 1725 M
2.741,72
10.000
réis 1726 M
2.208,61
4.000
réis 1725 M
8.758,28
4.000
réis 1726 M
9.519,87
2.000
réis 1725 B
8.758,28
1.000
réis 1725 M
1.332,78
1.000
réis 1726 M
2.817,88
400
réis 1725 M
2.437,09
A qualidade das
moedas que se encontram no Santa Rosa, quanto ao seu estado de
conservação, não seria a mesma das que foram colocadas em
leilão, logicamente devido aos quase 300 anos em que estão no
fundo do mar. Mas, a perda decorrente da qualidade, seria
compensada pelo fato de que a maior parte dos objetos resgatados
de naufrágios postos em leilão, atingiram preços que variaram
dos 40% aos 500% acima do preço médio de mercado.
http://www.naufragios.com.br/nsluz.htm
Marcello De
Ferrari 2001 |