Pó cobre tudo em
Paio Pires
queixas
População diz que anda no ar um pó ferroso que se
agarra a tudo, desde a roupa aos capôs dos carros, e
acusa a ex-Siderurgia Câmara aguarda resultados de
análises às partículas
No cemitério da Aldeia de
Paio Pires, no Seixal, as campas estão cobertas por uma
camada de pó ferroso, que não sai à passagem de um
pano. Agarrado às superfícies brancas, o pó acumula-se
nos automóveis, janelas, roupa estendida e bancos de
jardim, deixando os moradores preocupados. Desde o
final do ano passado que as queixas chegam à Junta de
Freguesia local e as suspeitas recaem numa das empresas
instaladas na antiga Siderurgia Nacional.
"Cada vez há mais pó. No cemitério, as campas estão
pretas. E na roupa, principalmente na branca, nota-se
imenso o efeito desse pó que anda no ar. Desde o ano
passado que ando a reclamar. As janelas estão
cravadinhas de partículas", diz Maria Gonçalves,
natural de Paio Pires.
Temendo as consequências para a saúde, Maria Gonçalves
não poupa alertas porque o "pó espalhado no ar"
prejudica quem escolheu a freguesia para morar. "Além
disso, as campas estão uma miséria. Isto é culpa da
Siderurgia", sentencia.
Graças ao pó, Lurdes Santos já ouviu algumas críticas
dos clientes. Lava carros numa bomba de gasolina e já
houve quem se indignasse com o resultado do trabalho.
"Tive problemas porque um senhor veio lavar o carro e
refilou porque, no final, parecia que não tinha feito
nada. Parece lixa em cima da pintura que só sai com
polimento", revela. Passando a mão por cima de capô,
demonstra que as partículas não saem facilmente. "É um
pó que não é pó. Depois de lavados, os carros ficam
marcados", acrescenta.
Em frente ao quiosque onde trabalha Jorge Serrano, não
é preciso procurar muito para detectar a camada negra
que se agarra ao toldo. Há dez anos que trabalha na
Aldeia de Paio Pires e garante que, agora, "o pó está a
notar-se outra vez.Basta olhar para o varão", diz. No
entanto, Jorge Serrano considera que o vento "tem
influência" na acumulação das partículas e, tal como
outra moradora contactada pelo JN, sublinha que a falta
de chuva torna mais evidente o incómodo pó. "A
Siderurgia devia ter filtros. Para mim tem mais a ver
com os ventos e não com o facto de eles terem mais
poluição. O facto é que estas indústrias poluentes
deviam estar fora de zonas urbanas", argumenta.
Fernando Gomes, presidente da Junta de Freguesia da
Aldeia de Paio Pires, já fez chegar ao pelouro do
Ambiente e à direcção da Siderurgia Nacional (SN)
Longos, amostras dos resíduos. "Fomos recolher umas
partículas e entregámos às duas entidades para que os
técnicos investiguem a proveniência do pó. Isto não é
uma coisa passageira", sublinha.
De acordo com Fernando Gomes, a SN Longos já revelou
que, segundo análises laboratoriais, não tem
responsabilidades. "Mandaram analisar e parece que o
problema não é provocado pro eles. Mas num dos sacos
que entregámos, experimentei aproximar um íman e houve
partículas atraídas", revela.
Alfredo Monteiro, presidente da Câmara do Seixal, diz
que a SN Longos vai continuar a analisar as partículas
em causa "Estamos a aguardar o resultado", esclarece. O
JN tentou contactar a SN Longos, mas nunca obteve
resposta.
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