Santuário de Nossa Senhora do Cabo, casa dos Círios e terreiro /
Santuário de Nossa Senhora da Pedra da Mua
Designação : Santuário de Nossa Senhora do Cabo, casa dos
Círios e terreiro / Santuário de Nossa Senhora da Pedra da Mua
Localização : Setúbal, Sesimbra, Castelo
Acesso : Cabo Espichel, EN. 379
Protecção : IIP, Dec. nº 37 728, DG 4 de 05 Janeiro 1950,
ZEP, DG 280 de 29 Novembro 1963; incluído na zona de classificação da
Pedra da Mua, Monumento Natural, pelo Ministério do Ambiente, Dec. nº
20/97, DR 105 de 07 Maio 1997.
Enquadramento : Rural, isolado, em planalto, no extremo
poente do extenso promontório do Cabo Espichel, elevada formação
rochosa, com alguma vegetação, que integra o conjunto montanhoso da
Arrábida e que se adeanta sobre o Oceano Atlântico em escarpas ou
falésias de grandes lages de estratos calcáreos desde os 140 m. de
altura. Nas arribas e falésias adjacentes ao Santuário encontram-se as
jazidas de icnofósseis da Pedra Mua e dos Lagosteiros, importante
conjunto do domínio da paleoicnologia dos dinossáurios pela elevada
qualidade dos icnitos e dos trilhos em que se constituem, pelo seu
número, diversidade e distribuição no tempo.
Descrição : Conjunto dominando o amplo terreiro do lado E.,
constituído por igreja e hospedarias dispostos em forma de "U", e por
Casa da Água a O. no enfiamento da fachada da igreja ( onde
sensivelmente a meio existe um cruzeiro ), e por ermida a NO., próximo
da falésia. A IGREJA é de planta longitudinal composta pelos
rectângulos justapostos da nave e da capela-mor, a que se adossam os
quadrados das torres sineiras e os rectângulos das 2 sacristias.
Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhado de 2 e 3
águas sobre a igreja e anexos, em cúpula sobre as torres. Embasamentos
de cantaria aparente contrastam com o reboco branco dos muros,
circunscritos por cunhais apilastrados. Apresenta fachada de 2 pisos,
flanqueada por 2 torres sineiras prismáticas, às quais se unem os
corpos paralelos das hospedarias através de 2 elementos rematados por
frontão e vazados por arcos de passagem. O 1º piso da fachada é
rasgado por três portais, com frontão em concha, sendo o central
proeminente, apresentando no topo uma pequena inscrição referente à
data da construção da igreja. O segundo piso possui 3 janelões
rectangulares com molduras de cantaria. Remate em frontão decorado com
volutas, contendo um nicho, enquadrado por pilastras, assentes em
consolas e frontão interrompido volutado, o qual contém a imagem do
orago. As torres apresentam três pequenas frestas e, na zona superior,
vão de volta perfeita correspondentes à sineira. Remate em cornija com
pináculos nos ângulos e cobertura em coruchéu piramidal. No INTERIOR,
existência de coro-alto assente em pilares, aos quais estão adossadas
duas pias de água-benta, possuindo guarda de madeira balaustrada.
Neste, surge um órgão positivo com três castelos e decoração
fitomórfica sóbria, patente apenas nas pilastras, gelosias e remates.
Guarda-vento de madeira do Brasil. A nave é revestida a mármore branco
e vermelho, tendo, sobre cimalha envolvente, uma falsa abóbada de
berço de madeira pintada com a Assunção da Virgem centrando
arquitectura perspectivada, executada por Lourenço da Cunha. A nave
ostenta oito retábulos laterais, abertos na espessura do muro, de
madeira polícroma ( azuis, verdes e dourados ), seguindo uma tipologia
semelhante. Apresentam tribuna central de volta perfeita, enquadrada
por pilastras e colunas torsas, que sustentam um ático composto por
duas arquivoltas simples. As colunas assentam em consolas, que, em
alguns retábulos, são enriquecidas com anjos-atlantes. Uma moldura de
acantos, mais tardia, decora a boca da tribuna. Nestas, surgem
esculturas de madeira estofada, assentes sobre altas peanhas,
representando, no lado do Evangelho, São Pedro ( dedicado ao círio de
Palmela ), Santa Ana ( ao círio dos saloios ), Nossa Senhora da
Conceição ( ao círio de Almada ) e Senhor Jesus do Bonfim ( ao círio
de Setúbal ), acompanhado por uma Senhora da Soledade. No lado da
Epístola, as imagens de São Lourenço ( ao círio de Azeitão ), São
Joaquim ( círio dos saloios ), São José ( círios de Arrentela e Seixal
) e São João ( círio da Caparica ). De cada um dos lados, um púlpito
com guarda-voz e um confessionário. Num segundo registo, atribuídas
também a Lourenço da Cunha, 10 telas representando passos da vida da
Virgem, tendo, do lado do Evangelho o Menino entre os Doutores, Fuga
para o Egipto, Circuncisão, Nascimento da Virgem e Aparição de Cristo
à Virgem; do lado da Epístola, a Assunção da Virgem, Coroação,
Triunfo, Agonia e Morte da Virgem, emolduradas em talha dourada. No
espaço entre as telas, surgem em cada uma das ilhargas, de forma
ritmada e alternada, três fenestrações em capialço, protegidas por
guarda e dois nichos, com as imagens dos Evangelistas. Arco triunfal
de cantaria, ladeado por retábulos colaterais de madeira policromada,
integrados num vão semi-circular aberto na espessura do muro,
apresentando planta convexa. No centro, uma tribuna de volta perfeita,
ladeada por colunas coríntias e pilastras, a que se adossam mísulas
com pequenos baldaquinos. O ático é composto por frontão interrompido
e espaldar que se adequa à estrutura murária. Nas tribunas, sobre
altos plintos, as imagens de madeira estofada de Santo António, no
lado do Evangelho e São Vicente, na Epístola, ambas do círio de
Lisboa. Na capela-mor, coberta por abóbada de aresta pintada com
cartelas, enrolamentos e "putti", rasga-se tribuna real do lado da
Epístola. É iluminada por 1 janelão. Apresenta painéis pintados,
representando a Adoração dos Magos, a Natividade e a Apresentação no
Templo. Silhar de azulejos em azul e branco, com motivos emblemáticos
marianos. O retábulo-mor é amplamente decorado por 2 arcos
concêntricos em colunas torsas paralelas que se prolongam em
arquivoltas no ático, até serem fechadas por um escudo com o brasão
das Armas Nacionais. Na tribuna, uma maquineta-relicário em prata
dourada, doada pelo círio de Lisboa em 1680, guarda a imagem de Nossa
Senhora do Cabo. Na base da tribuna, o sacrário em forma de templete,
ornado com colunas espiraladas. Duas sacristias, ambas com acesso pela
capela-mor, com arcazes de boa madeira do Brasil armados com ferragens
douradas onde se guardam várias pinturas de qualidade, algumas que se
supoêm ser da autoria de Lourenço da Cunha, entre as quais um Santo
Agostinho da 1ª metade do séc. 18 e bastante italianizante, 2 tábuas
quinhentistas, parte do retábulo da primitiva igreja, atribuídas ao
Mestre da Lourinhã ( Serrão: 1986, 76 ), representando Santo António e
São Tiago Maior, bem como numerosos ex-votos oferecidos à Virgem,
entre 1784 e 1940. HOSPEDARIAS têm planta rectangular, distribuídas em
2 corpos paralelos, de comprimento desigual, no sentido E. / O., com
volumes articulados e coberturas diferenciadas de 2 e 4 águas. Têm 2
pisos, o inferior rasgado por arcaria ritmada assente em pilares
prismáticos, o superior por janelas rectangulares irregularmente
distribuídas. Nos parapeitos de 4 delas pode ler-se "CAZAS DO SÍRIO DA
IRMANDADE DE LIXBOA". Interiormente os pisos térreo, com 40 salas, e
superior, com 39 salas, são de vão único com pequeno recanto destinado
para cozinhar. Os 2 pequenos corpos que unem as alas paralelas das
hospedarias à fachada da igreja, são coroados por frontões e vazados
por arcos de passagem segmentares, são rasgados por janelas de sacada.
ERMIDA DA MEMÓRIA: planta quadrada centralizada, coberta por cúpula
boleada que a coroa e com ressaibos orientalizantes; interior
revestido por silhar de azulejos setecentistas em azul e branco,
representando o milagre de Nossa Senhora do Cabo, a construção da
igreja e das hospedarias. No exterior dois painéis de azulejos azuis e
brancos já danificados, datados de 1750 representando 2 peregrinos e
onde se pode ler "Século non est auditum". Ambos ostentam molduras "rocaille".
CASA DA ÁGUA *1 tem planta hexagonal, coberta por cúpula em
meia-laranja rematada por lanternim, cimalha envolvente, cunhais
apilastrados marcando as 6 faces. No interior, uma fonte "rocaille" em
mármore, com motivos escultóricos ao gosto Berniniano, bancos de pedra
ao longo das paredes, restos de um silhar de azulejo ( Fábrica de
Belém ) com cenas de caça, cenas alusivas aos círios, figuras de
convite.
Utilização Inicial : Cultual e devocional: santuário de
peregrinação
Utilização Actual : Cultual e devocional: santuário de
peregrinação com procissão anual
Propriedade : Privada: Igreja Católica / pública: estatal
(ala N.)
Afectação :
Época Construção : Séc. 18
Arquitecto/Construtor/Autor : João Antunes, Francisco Tinoco
da Silva (atr.).
Cronologia : Séc. 15 - construção da ermida da Memória, no
local onde, segundo a tradição, terá sido descoberta, por 2 velhos de
Caparica e Alcabideche avisados em sonhos por Deus, a imagem milagrosa
de Nossa Senhora *1; 1701 - 1707 - construção do santuário, no local
onde se erguia uma primeira igreja, da qual não existem vestígios;
1715 - início da construção das hospedarias, substituíndo as casas dos
romeiros que se dispunham em volta do primitivo templo; 1730, c. de -
silhar de azulejos da capela-mor; 1740 - pintura da abóbada da igreja
por Lourenço da Cunha; 1742 - data no órgão do coro-alto; 1743 -
execução das telas que decoram os alçados laterais e arco triunfal;
1745 / 1760 - continuação da construção; Séc. 17, meados - azulejos
ermida da memória; 1770 - construção da Casa da Água e da tribuna real
na capela-mor; 1810 - restauro do orgão; 1995 - por Decreto 40/95, DR
267 de 18 de Novembro, doação ao Estado da ala N. do Santuário.
Tipologia : Arquitectura religiosa, maneirista, barroca.
Conjunto monumental, funcional e cenograficamente concebido para
acolhimento dos romeiros; extenso largo de peregrinação - o arraial -
enquadrado pela fachada da igreja flanqueada pelas fachadas das
hospedarias destinadas ao alojamento, um vão por família, dos
romeiros. Igreja de espaço unificado, com falsa abóbada na nave,
abóbada de arestas na capela-mor, fachada principal rodeada por torres
sineiras; volumes severos das fachadas animados pela dinâmica dos
portais com frontões concheados, pelo remate do frontão da fachada em
franja de volutas e pela decoração do interior, com as pinturas em "trompe
l'oeil" da nave e pelos elementos escultóricos e pictóricos que ornam
as paredes. Retábulos de talha do estilo nacional, com molduras
tardo-barrocas nas bocas da tribuna. Altares colaterais rococó. Ermida
da Memória de planta quadrada, cupulada, com revestimento azulejar
setecentista. Casa da Água hexagonal, cupulada, antecedida por
escadaria de vários lanços.
Caracteristicas Particulares : Raro exemplo de sítio
religioso planificado de raiz, de notável concepção plástica e
cenográfica, evidenciando claramente a influência construtiva
característica da região saloia. Todo o conjunto é racionalizado à sua
função de santuário de peregrinação, criado para as necessidades dos
romeiros (hospedarias, casa dos círios, aqueduto e casa de fresco): a
diferença no comprimento das duas alas que definem com a massa da
igreja o rectangulo do arraial, permitindo uma visão global do recinto
a quem chegava ao santuário pela estrada de Sesimbra; a divisão
ritmada das arcarias com espaço planificado para acolhimento por
família; a igreja ligada ao conjunto mas dele pelo interior destacada,
ponto de fuga prospéctico e simbólico marcando o olhar do peregrino.
Dados Técnicos : Paredes autoportantes; estrutura
autoportante.
Materiais : Alvenaria de pedra e tijolo rebocada e caiada em
estruturas, cantaria de pedra em molduras, mármore em revestimentos
interiores, telha cerâmica, azulejo, madeira, vidro.
Bibliografia : CARVALHO, A. Ayres de, D. João V e a arte do
seu tempo, 2, Lisboa, 1962; FREITAS, Arq. António, A Senhora do Cabo,
no Espichel - Necessidade da protecção deste conjunto arquitectónico,
Jornal de Letras, 14 de Fevereiro de 1962; AAVV, O Santuário da
Senhora do Cabo no Espichel, Lisboa, 1964; AAVV, Arquitectura Popular
em Portugal, Lisboa, 1980; SERRÃO, Eduardo da Cunha, SERRÃO, Vítor,
Sesimbra Monumental e Artística, Sesimbra, 1986.
Documentação Gráfica : DGEMN: DSID, DRML
Documentação Fotográfica : DGEMN: DSID
Documentação Administrativa : DGEMN: DSID
Intervenção Realizada : DGEMN: 1964 - limpeza do terreiro,
consolidação de troços das fachadas que ameaçavam ruir; arranjos
urgentes nas coberturas e nos rebocos exteriores; 1964 / 1965 - obras
de recuperação no santuário, ala N.; recalçamento de fundações das
paredes exteriores, regularização dos pisos térreos com enrocamento;
cintas de travamento em betão armado; 1966 - escoramentos em
coberturas e pavimentos nas alas S e N; obras na ala S., idênticas às
realizadas na ala N.; 1969 - continuação da recuperação: substituição
de coberturas por outras assentes em estrutura de betão armado,
pavimentos em madeira; 1970 - recuperação da cobertura da igreja,
assente em cinta e estrutura em betão armado; 1971 - substitutição da
cobertura na área reservada a museu, pavimento em laje de betão,
reforço de paredes e alvenarias exteriores; 1972 - recuperação na ala
N, do lado E., reservado a albergue e pousada: consolidação de
alvenarias, substituição de pavimentos e coberturas (estruturas em
betão); 1973 / 1974 - recuperação da ala N., troço O., à semelhança da
efectuada na ala S.; 1997 / 1998 - obras exteriores de conservação na
igreja: rebocos, caiação, limpeza de cantarias, restauro de
caixilharias e ferragens, instalações sanitárias, eléctrica, redes de
água e esgostos; 1998 - conclusão das obras exteriores e de
infraestruturas; 1999 - restauro do tecto do altar-mor; talha e
molduras de quadros; 2000 / 2001 - restauro de pinturas do tecto da
igreja e talhas da nave principal; projecto de reabilitação e restauro
que abrange a ala N., reutilização e pequena ampliação do topo O., e a
ala S. (obras em curso).
Observações : *1 - A Casa da Água, que recebia a água
trazida por aqueduto desde a Azóia, por uma extensão de
aproximadamente 2 Km., possuia um poço e dois tanques para dar de
beber aos animais. *2 - As pegadas de dinossauros descobertas nas
imediações do local onde está implantado o conjunto monumental,
tomadas pelas pegadas da mula que, segundo a lenda, terá transportado
até ao alto do cabo a imagem de Nossa Senhora, terão sido responsáveis
pela associação do local a um centro propiciatório de práticas
cultuais, muito anterior ao séc. 15 (SERRÃO, 1986).
Actualização : Victor Mestre 1999