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A LENDA
Diz-se que,
nessa época, já aquela região era terra de pescadores, se
bem que o castelo ainda não existisse e a população abitasse
o lato do monte onde mais tarde se construiria a fortaleza.
Era senhor
daquelas terras um homem tirânico que de todos exigia
vassalagem. Era ele quem concedia as autorizações de pesca,
sem as quais nenhum homem poderia partir para o mar, nem
sequer para pescar o sustento da sua mesa. Além disso,
cobrava tributos sobre o pescado, sobres os barcos e sobre
tudo quanto entendesse. Alguns dos tributos eram desumanos e
foi isso que o perdeu.
Um desses
tributos, velho hábito ancestral, obrigava todas as
ddonzelas que iam casar a serem possuídas pelo tirano na
v´spera do matrimónio.
Homens e
mulheres sofriam por este gesto que o custume e o medo
haviam quase legitimado, mas ninguém ousava rebelar-se
contra o tirânico senhor.
Certo dia,
porém, Zimbra e Maria decidiram casar-se. Zimbra era
pescador, como todos os outros, e era jovem e ousado. Maria
era mulher, fiha da mesma teraa, vítima silenciosa que seria
do mesmo costume opressor.
Como sempre
acontecia nestes casos, desceu-lhes ao pensamento a
obrigação de vida ao senhor da terra. Maria dispôs-se a
aceitar fatalmente, o tributo da sua virgindade. Zimbra,
contudo, não estava disposto a aceitar mudo e quedo aquela
exigência que nada fundamentava ou legitimava. E, assim,
dispôs-se ele a desafiar o estabelecido e aceite no mais
íntimo dos seus conterrâneos.
Todos, e
também Maria, o aconselharam a não lutar contra os desejos
do velho tirano. Zimbra não deu ouvidos a ninguém, decidido
como estava a que não acontecesse a Maria o mesmo que ás
outras raparigas. E até ao fim ignorou os castigos que
podiam esperá-lo naquela aventura.
Inicialmente
só na sua determinação, conforme se foi aproximando o
casamento, Zimbra foi sendo rodeado e apoiado pelos outros
jovens pescadores da aldeia. Tiveram discussões quase
intermináveis sobre o que lhes aconteceria quando o tirano
viesse a sentir desautorizado. Mas Zimbra cansou-se daquela
conversa vazia, só cheia de medos, e pôs cobro ás discussões
apresentando o seu plano: desceriam até á borda do mar e aí
se estabeleceriam num povoado autónomo e livre de toda a
tirania.
Isto pareceu
tão simples e razoável a todos os pescadores rebeldes que
dissiparam os medos e se entregaram interios á coragem de
Zimbra. Tal era a confiança que depositavam no pescador que
mal aprovaram o plano de liberdade, como que perderam a
vontade própria. E cada vez que se falava no propósito
diziam:
― Se Zimbra
quiser...
Zimbra quis
porque não o visitou o medo. No dia do seu casamento recebeu
Maria e partiu monte abaixo até á praia. Com eles desceu um
qrupo de casais e a expectativa.
Chegados ao
sopé, delimitaram, segundo velhos rituais, os limites da
nova aldeia, sacrificando no centro um animal, como lhes
haviam ensinado os seu avós, que tinham recebido o
ensinamento de outros antepassados. Em seguida, ergueram os
pilares das suas novas casas, pobres choupanas de madeira
cobertas de ramos de árvores. Tudo isto fizeram manifestando
uma alegria toda natural e no final reuniam-se dançando
velhas danças que evocavam pescas maravilhosas e esquecidas.
Quando soube
disto, o tirano teve uma fúria imparável. Juntou quanta
gente pôde e, sequioso de vingança, jurou não parar enquanto
não desfizesse todas as esperanças de Zimbra e dos rebeldes.
Mas Zimbra e
os habitantes do novo povoado sabiam o que os esperava. A pé
firme, como quem espera o embate bruto do mar, esperaram a
hoste do senhor. Estavam dispostos a tudo por Zimbra que
lhes dera a sua coragem:
-
Se Zimbra quiser...
E Zimbra
quis, mais uma vez. Quando aquela bruta onde de gente
embateu nos seus corpos, resistiram serenos porque tinham o
conhecimento íntimo de que a fúria duro um momento. Calmos,
desfecharam os seus golpes no inimigo que sobre eles se
abatia e num gesto de sabedoria mataram o tirano e todos os
seus homens.
Ficaram
livres do jugo secular e injustificável dos tiranos da
terra. Agora era-lhes
possível
fazer do seu povoado uma terra de verdadeiros pescadores:
-
Se Zimbra quiser...
E Zimbra,
pela terceira e última vez, quis. De tal modo o quis que,
muito tempo depois, quando Afonso Henriques conquistou o
velho castelo fronteiro ao mar, era Sesimbra que lhe
chamavam.
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