Sesimbra e o
impacto social
Ofim das férias vem
encontrar os pescadores de Sesimbra exactamente no
ponto em que estavam no início do Verão. Isto é, em
rebelião activa contra as consequências que, em seu
entender, decorrem da aplicação do Plano de
Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (POPNA).
Depois de todas as manifestações e protestos em
meses anteriores, os pescadores encaram agora a
possibilidade de fechar o porto de Sesimbra, ou de
boicotar as eleições autárquicas de Outubro próximo,
como forma de pressionar a alteração do POPNA que,
há poucos dias, entrou em vigor.
Em causa está, como se sabe, o Regulamento do Parque
Marinho Luiz Saldanha, parte integrante do POPNA,
cuja aplicação, garantem os pescadores, impõe
restrições à actividade piscatória local de tal
maneira gravosas que, se forem cumpridas, lançarão
na miséria 400 famílias sesimbrenses. Mas dizem
mais.
Afirmam que as alterações ao regulamento que
propuseram caíram em saco roto, já que não foram
tidas em conta na elaboração da versão final do
POPNA. As Câmaras Municipais de Sesimbra e de
Setúbal dão razão aos pescadores e preparam-se para
impugnar o plano, acção que se admite possa vir a
ter o apoio também da Câmara de Palmela .
Entretanto, circula um abaixo-assinado com vista a
forçar o debate do assunto na Assembleia da
República.
É claro que não passa pela cabeça de ninguém que o
plano em causa não tenha por objectivo geral criar
condições para um desenvolvimento sustentado da área
abrangida, tal como corrigir atropelos ambientais e
salvaguardar recursos naturais preciosos, sobretudo
marinhos.
O que não se percebe é como se chegou a um ponto em
que ninguém se entende, e há vozes responsáveis,
como a da Assembleia Municipal de Sesimbra, que
afirmam que o POPNA dita "a morte lenta das pescas
em Sesimbra" e "não salvaguarda direitos e
expectativas da população".
Projectos da dimensão do POPNA são obrigatoriamente
sujeitos a um Estudo de Impacte Ambiental (EIA), que
contempla a avaliação da componente social. Ora esta
avaliação deveria ter mostrado as consequências
nefastas, para os pescadores e suas famílias, da
aplicação dos novos regulamentos.
E, a ser assim, o Regulamento do Parque Marinho Luiz
Saldanha devia ter sido adaptado à realidade social,
ou, alternativamente, deveria conter soluções para
os problemas humanos que iria gerar.
Porém, o que com frequência acontece é que a
componente social dos EIA é minimizada, em favor da
componente material. O que ocorre frequentemente é
que a racionalidade económica se impõe e as decisões
são tomadas tendo em conta a relação entre custos
materiais e ganhos materiais. A esta sustentação das
decisões junta-se, não poucas vezes, com peso
decisivo, a visão política dos problemas e os
objectivos políticos em causa.
O resultado operacional desta dominação das
racionalidades económica e política é a não
incorporação, nos cálculos materiais, dos custos
sociais das decisões económicas e políticas, como
são, por exemplo, o desemprego, a miséria, os
suicídios, o alcoolismo, o consumo de drogas, a
violência no interior das famílias.
Não possuo elementos que me permitam afirmar que,
neste caso dos pescadores de Sesimbra, foi isso que
aconteceu. O que digo é que alguma coisa correu mal.
O que digo é que está na altura de pescadores,
autarcas e governantes do sector se sentarem à mesa,
à boa paz, e encontrarem soluções de facto. É que
não há desenvolvimento sustentado, não há construção
do futuro, onde não formos capazes de cuidar do
presente e das condições de vida dos seres humanos
que o povoam.
Plano da Arrábida
mantém pescadores em luta, porque alterações
propostas caíram em saco roto
Durante o Inverno é motorista de
camiões, mas desde há dois anos passa quatro meses
durante o verão a transportar passageiros no comboio
turístico da Costa de Caparica. Porquê?
Comecei com isto para ter uma aventura, uma
experiência nova.Depois acabei por gostar tanto que
continuei.
Quais são os atractivos que encontra nesta
profissão?
O convívio com os colegas e com os passageiros.
Estes falam muito comigo e quando são passageiros
mais frequentes, que vejo quase todos os dias porque
vão para a praia, acabo por criar uma certa amizade
com eles.
Qual é a relação que mantém com os seus colegas?
Damo-nos todos muito bem, somos companheiros. É como
se fosse uma família.
Quando chega o Inverno fica triste por ter de
deixar tudo isto?
Sim, fico um bocado. Cria-se uma certa amizade a
isto e depois tenho de voltar à vidinha normal de
todos os dias...
Que dizem a sua mulher e filhos deste emprego de
Verão?
Os filhos (são três e já estão casados) dizem que o
pai é que sabe. A minha mulher gosta muito e acha
muito engraçado. É raro, mas de vez em quando também
dá uma voltinha aqui no comboio. E vem aqui todos os
dias trazer-me o almoço. É uma mulher a sério, uma
verdadeira companheira!
Há quantos estão casados?
Há 30.
Mónica COsta
António Pereira
Motorista
IDADE57 anos
naturalidade Alentejo
residência Costa de Caparica
curiosidadeÉ maquinista no comboio da Costa de
Caparica
"Vegetariana" no
Jardim Municipal de Oeiras
Pelas 17 horas de
amanhã é inaugurada a sexta edição da "Vegetariana",
que põe em destaque a meditação, o yoga, e as
terapias alternativas.
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