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A administração Lecor e a Montevidéu
portuguesa:
1817 – 1822
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Tema Livre.
Texto de
Fábio Ferreira
A
monarquia portuguesa, durante o período de sua
permanência no Rio de Janeiro, entre 1808 e
1821, tenta, em três momentos, conquistar o que
corresponde à atual República Oriental do
Uruguai. A primeira tentativa, em 1808, tem,
inicialmente, o apoio do príncipe regente D.
João, e corresponde ao projeto de Carlota
Joaquina em exercer a regência espanhola a
partir do Rio da Prata. No entanto, pela ação de
Lorde Strangford, representante britânico no Rio
de Janeiro, e de D. Rodrigo de Souza Coutinho,
ministro de D. João, o plano de Carlota malogra.
Uma segunda tentativa expansionista lusa ocorre
em 1811, mesmo ano em que José Gervásio Artigas
adere à Revolução de Maio, iniciada em Buenos
Aires, e que busca o rompimento com a Espanha.
As tropas de D. João invadem o território
oriental sob a alegação de preservá-lo aos
Bourbon, casa real a qual Carlota pertence e,
também, sob o argumento de que as perturbações
no território oriental causavam turbulências na
fronteira com o Rio Grande. No entanto, mais uma
vez por pressão inglesa, D. João retira as suas
tropas desse território em 1812.
Em 1816 ocorre a terceira tentativa
expansionista lusa, que obtém êxito. As tropas
do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves
são lideradas pelo então general Carlos
Frederico Lecor e invadem o território oriental,
conquistando Montevidéu em 20 de janeiro de
1817.
Uma vez estabelecendo-se a conquista e o governo
luso de Montevidéu, permanece à frente desta
empreitada o general Lecor, que administra o
território oriental a partir de Montevidéu até
1825. Assim, nas linhas a seguir serão
apresentados alguns aspectos da administração
Lecor.
Sobre Carlos Frederico Lecor, líder do projeto
expansionista português na região do Prata,
nasceu em Faro1, no Algarves.
Descendia, pelo lado paterno, de franceses e, do
materno, de alemães, sendo destinado por seus
progenitores à vida comercial, vivendo, assim,
na Holanda e na Inglaterra. Entretanto, opta
pela carreira militar, assentando praça no
regimento de Artilharia de Faro.
Na última década do século XVIII e na primeira
do XIX, Lecor ascende no exército português,
tendo tido, dentre outras patentes, as de
soldado de artilharia, sargento e capitão. Com
as três invasões francesas que Portugal sofre a
partir de 1807, lideradas, respectivamente,
pelos generais Junot, Soult e Massena, Lecor
participa da ação contra os ocupadores e ascende
na hierarquia militar durante a guerra contra
Napoleão e, ainda, “[...] ostentaba como
galardón de su carrera, el haber iniciado en
Portugal la reacción contra el invasor. Carlos
Frederico Lecor, el único de los oficiales
extranjeros que mereciera el honor de comandar
una división inglesa a las órdenes de Wellington
[...]”2
Durante o conflito o então Tenente-Coronel Lecor
deserta, assim como outros oficiais lusos, indo
para a Inglaterra, onde organiza a Leal Legião
Lusitana contra o sistema napoleônico. Lecor
luta em território francês e, uma vez havendo a
derrota do oponente, as vitoriosas tropas
portuguesas retornam ao seu país lideradas pelo
marechal-de-campo Lecor.
Assim, com o fim da guerra no velho mundo e com
os interesses da monarquia de Bragança nos
assuntos americanos, é decidido que tropas sejam
enviadas para a América. O Tenente-General Lecor,
então Governador da Praça de Elvas3,
é escolhido4 para liderar os
militares portugueses envolvidos na conquista da
Banda Oriental.
Com a conquista lusa de Montevidéu, Lecor fica à
frente do governo instalado neste núcleo urbano
e, na campanha, travam-se lutas contra Artigas.
Uma vez no poder, Lecor aproxima-se de pessoas
de destaque de Montevidéu, tendo no seu circulo
figuras como, por exemplo, o Padre Larrañaga,
que outrora fora aliado de Artigas, além de ter
sido o fundador da Biblioteca Pública de
Montevidéu, e autor de várias obras no âmbito
científico, literário, teológico e político;
Francisco Llambi, assessor do Cabildo de
Montevidéu em 1815, período em que a cidade está
sob o poder das forças artiguistas; e, ainda,
Nicolas Herrera, figura controversa na
historiografia uruguaia, pelo fato de ter sido
aliado do portenho Alvear e, depois, de Lecor.
Sobre este oriental, soma-se que, segundo Donghi,
quando as forças de Lecor marcham sobre o
território oriental, Herrera está ao lado do
general, além de que “(...) ahora su función es
asesorar a sus nuevos amos en esa conquista
pacífica que debe acompañar a la militar.”
5
Lecor também tenta compor politicamente com
Artigas, entretanto, não obtém êxito. O general
português, de acordo com as instruções que
recebeu, propõe ao caudilho que venda as suas
propriedades e bens legitimamente seus, além do
exílio no Rio de Janeiro ou em qualquer outro
lugar que D. João autorize e, ainda, o ganho de
um soldo, que não exceda o de coronel de
infantaria portuguesa. Porém, com Artigas, a
“diplomacia” de Lecor malogra, não conseguindo a
pacificação do território oriental.6
Para derrotar Artigas, Lecor aproveita-se do
contexto oriental, pois à medida que o poderio
do caudilho encolhe e o luso cresce, a população
demonstra-se mais favorável aos ocupadores e,
assim, Lecor militariza a população e organiza-a
contra Artigas.7
Entretanto, isto não significa que Lecor obtém
unanimidade, pois a resistência artiguista
perdura até 1820. Porém, observa-se que Lecor
sabe atrair para o seu lado aliados do caudilho8,
como, por exemplo, Fructuoso Rivera.
Sobre a administração Lecor, é válido salientar
que
“Mediante dádivas y honores, ganó la voluntad de
los hombres; profundo conocedor de las flaquezas
humanas, halagó a unos con promesas y a otros
con realidades; repartió cruces y
condecoraciones; distribuyó tierras que no eran
de su Rey; conquistó a la sociedad de Montevideo
con fiestas y saraos; casó a su oficiales con
hijas del país, haciendo él lo propio;
seleccionó los hombres para casa cometido;
eligió a su gusto los Cabildos, organismos que
tenían prestigio popular y que fueron el secreto
de su política, y de tal suerte dispuso las
cosas, que todos los actos de incorporación a la
corona de don Juan VI o cesiones a favor de ella,
parecieron siempre hechos espontáneos, debidos a
solicitudes y ruegos de nuestro pueblo, que se
lisonjeaba en proclamarlo su Rey.”9
Medida tomada por Lecor e apresentada na
extração acima é a de incentivar o casamento
entre os militares luso-brasileiros com as
mulheres de Montevidéu. Observa-se, inclusive,
que o próprio Lecor casa-se, em 1818, com Rosa
Maria Josefa Herrera de Basavilbaso, que à época
possuía 18 anos de idade.
No mesmo ano do seu casamento, Lecor recebe o
título nobiliárquico de Barão da Laguna, em
virtude das mercês que D. João VI concede pela
sua aclamação e coroação como rei de Portugal,
Brasil e Algarves. Sobre a origem do Laguna no
título do militar português, Duarte afirma que
“Acreditamos que, ao conferir o título de Barão
da Laguna ao General Lecor, reportara-se o Rei
ao fato de que fora naquela povoação catarinense
que o Comandante da Divisão de Voluntários Reais
iniciara a penosa marcha para atingir Montevidéu.”10
Uma vez no poder, Lecor também distribuí terras
entre os ocupadores, tanto as que são de posse
dos chefes artiguistas, quanto as abandonadas.
Além deste benefício, os invasores adquirem
estâncias a baixíssimo custo, tirando proveito
da situação em que o território oriental vive.
Igualmente os estancieiros criollos que apóiam
Lecor são contemplados com essa política.11
No que tange a política de Lecor para os
Cabildos, o general, através da sua destreza e
de promessas, busca a interferência e, também, a
simpatia destes corpos municipais. Lecor mantém
os Cabildos e os alcaides de acordo com as
instruções dadas pelo Marquês de Aguiar.12
Sobre o general e esta instituição municipal, é
válido observar que
“En 1819 dispuso Lecor que se alejase del
Cabildo la tercera parte de sus integrantes, a
excepción de Juan José Durán y Jerónimo Pío
Bianqui, debiéndose elegir los sustitutos y
confirmar en sus puestos a los restantes; y el 9
de agosto de 1820, el propio Lecor ordenó la
separación de cinco cabildantes que protestaban
por el incumplimiento de las bases de
incorporación ajustadas por los pueblos del
interior con el Cabildo de Montevideo.”13
Ainda sobre os Cabildos, estas instituições
“[...] habían perdido el carácter popular que en
otras épocas los hiciera respetables, por
irregularidades en la forma de su elección e
influencia que en sus deliberaciones ejerciera
el Barón de la Laguna.”, além de que durante o
período do governo luso
“La posición de esos cuerpos municipales
respecto de Lecor, no era uniforme. El de
Montevideo, nombrado bajo su directa influencia,
respondía ciegamente a sus intenciones cuyos
secretos conocía; los del interior obedecían
también sus directivas, pero sin tener una
noción exacta de cuáles eran los planes de que
venían a ser instrumentos.”
Assim, desacreditando estas instituições
municipais, Devoto afirma que
“En los Cabildos de 1821, podía, sin duda, desde
el punto de vista de las formas de su elección,
reconocerse organismos legalmente constituidos,
pero nombrados bajo la inspiración de Lecor,
¿hasta dónde representaban los intereses y las
ideas de los pueblos? ¿Tenían, acaso,
competencia para elegir sus diputados [no caso,
elegê-los para o Congresso Cisplatino].”14
É válido observar que com o trecho acima, além
de questionar a autonomia dos Cabildos,
principalmente o de Montevidéu, Devoto apresenta
as características de articulador político do
general Lecor e a influência do mesmo nas
instituições políticas orientais.
A atuação de Lecor à frente do território
oriental é definida por Devoto como uma ação
política, e que sua administração é baseada em
suas articulações. O autor inclusive afirma que
a característica política do personagem
prepondera sobre a militar, pois, após citar o
destaque de Lecor nas lutas da Europa, afirma
que “en América [Lecor fue] un General de
Gabinete que ganó en el campo de la intriga
todas sus batallas” e que “Sus contemporáneos
señalaron preferentemente una característica de
su personalidad: la astucia. Lecor ‘es un raposo
y no un León’, expresó con acierto Lavalleja.”15
A ação política de Lecor no território oriental
não é ignorada por Duarte. O autor afirma que
“Instalado em Montevidéu, iniciou o General
Lecor seu trabalho de sapa, subterrâneo e
paciente, implantando uma espécie de
quinta-coluna, a fim de fortalecer o partido que
representava, e fomentar a oposição à
reconquista espanhola”16. O autor
também expõe que
“Silencioso, mas dinâmico, caprichoso e astuto,
sem parecer, por mais diplomático, que militar,
como aparentava à luz do sol pelas revistas,
formaturas e desfiles da Tropa, o General
escolhido por D. João [...] desenvolvia intenso
labor num meio estranho, cercado de interesses
de todos os matizes.
E, para bem cumprir a tarefa de extrema
delicadeza que recebera, Lecor passou a usar a
sutileza, a finura na penetração dos sentidos,
agindo tanto pela força, como pelo suborno,
estes às vezes claro, chocante, outras vezes,
ameno e até colorido de malícia... Sempre no afã
de arregimentar prosélitos, procurando-os,
principalmente, nas agremiações nas quais uma
defecção era compromisso passível de morte, em
caso de reconquista espanhola ou portenha; era
indispensável admitir ambas as hipóteses. Assim,
entre os castelhanos buscava adeptos que, mais
tarde, pelo próprio instinto de conservação,
embaraçariam e afastariam a volta do domínio de
Fernando VII, e nisso sua política, embora em
círculo muito limitado, evidenciou-se
portentosa.”
Assim, verifica-se que a dominação lusa não
acontece somente pela força militar, outros
componentes, como os de caráter político, são de
fundamental importância para a permanência de
Lecor no poder. O trecho acima também evidencia
o lado político do general, além de que há a
existência de um grupo em Montevidéu que dá-lhe
suporte e articula com ele, e que existem
alianças e negociações entre o militar e os
habitantes da cidade ocupada.
Segundo Duarte, a conquista só concretiza-se em
função das habilidades pessoais de Lecor:
“[...] o General Lecor emprestou grande
contribuição pessoal [à tolerância e simpatia
dos orientais em relação as tropas de ocupação],
impondo a seus comandados uma disciplina que
contrastava com o bárbaro procedimento dos
soldados de Otorgués [representante de Artigas
em Montevidéu]; sobretudo atuando junto aos
párocos, de maneira que estes influíssem na
opinião das ovelhas de seus rebanhos [...]”
A respeito, é válido observar a relação de Lecor
com a Igreja Católica. As forças ocupadoras têm,
desde o início, o apoio do padre Larrañaga que,
a princípio, pode ser entendido como o
representante do clero católico na administração
portuguesa de Montevidéu. Larrañaga está ao lado
de Lecor em diversos momentos da administração
do general, como, por exemplo, no Congresso
Cisplatino, e na instalação da Escola de
Lancaster na Cisplatina17.
Sobre o Congresso, realizado em julho e agosto
de 1821, os seus deputados – Larrañaga é um
deles – votam pela incorporação da Banda
Oriental à monarquia portuguesa sob o nome de
Estado Cisplatino Oriental, sendo, inclusive, a
nomenclatura sugerida pelo sacerdote18.
Grande parte da historiografia uruguaia aponta
os congressistas como aliados de Lecor, e que o
resultado do Congresso foi fruto das
articulações políticas entre o general e os
orientais. O contato com as atas do Congresso,
disponíveis no Archivo General de Nación de
Montevidéu, permite verificar o processo de
articulação política entre Lecor e os
congressistas em torno da criação da Cisplatina.
A Escola de Lancaster é implementada devido à
atuação de Larrañaga e, com a aprovação do
Cabildo, Lecor autoriza a implementação do
método no território que está sob a sua
autoridade. A Sociedade Lancasteriana de
Montevidéu, constituída no dia 3 de novembro de
1821, tem como presidente Lecor
Assim, a participação do padre na constituição
da Sociedade Lancasteriana, na adoção do método
de ensino, e na criação da Cisplatina, são
evidências que mostram a participação do
sacerdote no governo luso-brasileiro e a
proximidade existente na relação entre Larrañaga
e Lecor. O relacionamento entre os dois também
evidencia a participação oriental na
administração Lecor.
Entretanto, apesar de ocorrer a participação de
habitantes locais na administração do general,
Lecor também atua na repressão aos seus
opositores. Ele ordena, via uma publicação, que
em relação aos seus oponentes a ordem é a de que
“[...] tais partidas seriam tratadas como
salteadores de estradas e perturbadores da ordem
pública. E, no caso de não poderem ser
aprisionados os autores de tais atentados, se
faria a mais séria represália às famílias e bens
dos chefes e elementos dessas partidas, podendo
[...] [o] Exército português [...] queimar as
estâncias e levar suas famílias para bordo dos
navios da esquadra.”19
Com isso, pode-se perceber a repressão por parte
do governo de Lecor aos seus opositores. Autores
uruguaios com os quais obtivemos contato
caracterizam o governo de Lecor como violento. O
que é bem provável, pois a força ocupadora, por
mais que tenha um grupo que a apóie, tem os seus
oponentes, que precisam ter a sua atuação
anulada. Ressalta-se, também, que os opositores
agem através da força e em um contexto de
guerra, então para silenciar a oposição,
emprega-se igualmente a força.
Provavelmente, Lecor, em determinados momentos,
usa da força para alcançar os seus objetivos, no
entanto, não pode-se ignorar a questão da
cooptação, onde Lecor conquista a sociedade
montevideana com títulos, festas e promessas.
Durante a administração Lecor, mais precisamente
em 1819, é construído um farol na Ilha das
Flores, nas imediações de Montevidéu. A alegação
é a de que no local ocorrem constantemente
acidentes – o que não é falso, inclusive, na
ocasião, havia ocorrido um –, no entanto, o
farol de Lecor tem um preço: o Cabildo
montevideano passa para o Rio Grande vasto
território pertencente à Banda Oriental.20
Neste território, de escassa população, mas
abundante em gado, os ocupadores fazem vastas
doações a oficiais e soldados portugueses e
brasileiros, constituindo, deste modo, grande
dependência econômica do território doado com o
Rio Grande, “[...] a la que se pretendió anexar
en 1819 con el denominado Tratado de la Farola
que fijaba el límite meridional de aquélla en el
río Arapey.”21
Ainda sobre a atuação de Lecor à frente do
governo instalado em Montevidéu, observa-se que
o personagem atua com relativa autonomia em
relação ao monarca português, principalmente nos
últimos momentos de união de Portugal e do
Brasil. Como exemplo, pode-se citar o Congresso
Cisplatino, onde o general age diferentemente
das ordens do governo português, bem como
procura atender os seus interesses e os do seu
grupo de apoio:
“En uso de las amplias facultades que le diera
la Corona, Lecor había gobernado la Provincia
Oriental de manera absoluta y, en algunos casos,
con independencia de la voluntad del Soberano y
sus ministros, especialmente en los últimos
tiempos en que los graves acontecimientos
políticos de la metrópoli, rodearon de
atenciones a estos últimos. La celebración del
congreso dispuesta por Juan VI, fue encarada por
Lecor como un asunto de su interés particular y
del de su círculo. El ‘Club del Barón’ llamaron
los contemporáneos a ese grupo político
integrado en distintas épocas por Tomás García
de Zúñiga, Juan José Durán, Nicolás Herrera,
Lucas J. Obes, Dámaso A. Larrañaga, Francisco
Llambí, Francisco J. Muños, Jerónimo Pío Bianqui,
José Raimundo Guerra, entre otras figuras de
menor volumen.”22
A respeito da participação de Lecor no Congresso
Cisplatino e da conjuntura no território
oriental à época do resultado da votação, Duarte
afirma que
“Se a incorporação da Banda Oriental aos
domínios da Coroa Portuguesa havia sido uma
vitória pessoal das qualidades do Barão da
Laguna, nem por isso foi ele justamente
recompensado de seu árduo trabalho. Por essa
época, irrompeu nas fileiras da Divisão de
Voluntários Reais o manifesto desejo de retornar
a Portugal [...]”23
Pode-se constatar na extração acima as
dificuldades que as tropas portuguesas estão a
causar durante a administração de Lecor.
Agrega-se, também, a habilidade política que o
general tem que ter para mantê-los e comandá-los
de maneira conveniente aos seus interesses.
Nesse momento, a situação do grupamento militar
português instalado no território oriental é de
insatisfação. As tropas portuguesas são a favor
de que se jure a Constituição, enquanto Lecor
não apóia o juramento, assim como as tropas
americanas24 e, ainda, os lusos
reclamam pelo fato de não receberem há vinte e
dois meses e desejam retornar para Portugal.
Outra insubordinação que Lecor tem que lidar
durante a sua administração é o motim das tropas
portuguesas em 20 de março de 1821. Na ocasião,
aquela Divisão, na praça de Montevidéu,
reivindica o comprometimento do Barão da Laguna
com a constituição e, ainda, exige a presença de
Lecor para que seja formado um Conselho Militar
sob a presidência do mesmo.
Agrega-se, ainda, que é proclamada e jurada a
Constituição que viesse a ser realizada pelas
Cortes de Portugal, e as forças lusas obrigam
Lecor a fazer o mesmo. Estas tropas também
solicitam a D. João VI o regresso ao seu país de
origem.
Sobre o episódio acima, Duarte25
afirma que a conspiração é chefiada pelo
“turbulento” e “sumamente ambicioso, agitado e
despótico” Coronel Claudino Pimentel que, tendo
perdido uma promoção para o Coronel D. Álvaro da
Costa de Sousa Macedo, passa a “formar na facção
dos revanchistas”.
Assim, Pimentel lidera o movimento,
aproveitando-se do desconhecimento da tropa do
que está ocorrendo na Europa. Observa-se ainda
que, no caso de Lecor não aderir ao grupamento
reivindicador, ele estaria deposto e substituído
por Pimentel.
A atitude de Lecor diante de tal episódio é
assim definida por Duarte:
“O arranhão na ‘disciplina militar prestante’ a
que se sujeitou o Capitão-General, de certo modo
foi um expediente hábil e sagaz, atendendo à
situação periclitante em que se encontrava à
frente dos destinos políticos da Banda Oriental.
[...] Foi um recurso extremo, empregado somente
por aqueles que têm alto sentido político, para
safar-se de críticas situações.
E o Barão da Laguna, parecendo vencido nessa
batalha contra alguns de seus camaradas
ambiciosos, era na verdade o vencedor, pois foi
capaz, com uma atitude paciente e tolerante, de
impedir o agravamento da situação política em
que se encontrava, sem ter em quem escorar sua
autoridade, em face dos graves acontecimentos
ocorridos fora da sua área de comando, em Lisboa
e no Rio de Janeiro, e que fatalmente
propiciariam a eclosão de uma revolta declarada,
sem precedentes, no seio da Divisão de
Voluntários Reais.”26
Com a extração acima verifica-se as
características políticas do personagem,
apresentando atitudes pensadas, premeditadas e
pragmáticas de Lecor.
Esta não é a única insubordinação que Lecor tem
que enfrentar enquanto está no poder. Alguns
meses mais tarde, mais precisamente na noite de
23 de julho, ocorrem novos problemas com as
tropas lusas, em virtude dos soldos atrasados e
do desejo de retornarem para Portugal.27
Assim, em 1821, a relação entre Lecor e as
tropas lusas tornam-se tensas, estando a
aproximação de Lecor com o governo do Rio de
Janeiro como um dos fatores, bem como a
assinatura da Constituição. Os portugueses são
favoráveis a questão constitucionalista e ao
movimento que originou-se no Porto, já Lecor
não, posterga o seu posicionamento público em
relação a Constituição. Sobre a questão, Devoto
afirma que “El ejército portugués americano
parecía no estar dispuesto a reconocer la
Constitución liberal; los ‘Voluntarios Reales
del Rey’ eran decididos partidarios de ella.”28
Durante a permanência de Lecor no poder, há
também momentos de tensão com os governos
limítrofes. O Barão da Laguna cogita e articula
uma invasão a Entre Rios. Carreras e Alvear,
opositores do governo portenho, buscam o apoio
do militar português para ocupar militarmente
Entre Rios. No entanto, a possibilidade da
ocupação malogra, dentre outros fatores, pelas
turbulências ocorridas no interior das tropas de
Lecor.29
No que diz respeito a Buenos Aires, quando o
General Martín Rodrigues toma conhecimento da
ordem para a realização do Congresso Cisplatino,
ele redige epistola ofensiva a Lecor, taxando o
general português de o “dono do Mundo”30.
Em ofício de seis de julho a Estanislao Lopez,
líder de Santa Fé, Rodríguez ressalta o perigo
do expansionismo luso na região. Acreditando que
o Congresso poderia votar pela anexação do
território oriental à monarquia portuguesa, o
general portenho expõe a Lopez que poderia haver
também a apropriação, por parte de Portugal, do
território oriental ao Paraná, e que Santa Fé e
o Paraguai poderiam vir a ser vítimas da
expansão lusa na região.31
Rodrigues, em função do expansionismo luso no
espaço platino e das atividades de Lecor neste
sentido, “[...] dirigió en abril 1º de 1821, un
violente oficio al Barón de la Laguna en el que
calificaba de insulto la ocupación de la
Provincia Oriental y pedía satisfacciones por
las maniobras para invadir Entre Ríos [...]” e
que “El plan del Gobierno de Buenos Aires era
provocar la insurrección en la Provincia
Oriental para apoyarla luego”.32 Os
portenhos tentam cooptar para a sua causa
Fructuoso Rivera, que permanece ao lado de
Lecor, e o plano não vinga.
Assim, não só a possibilidade de ocupar Entre
Rios causa em Buenos Aires a hostilidade em
relação ao Barão da Laguna e a ocupação
luso-brasileira. O asilo que Lecor outorga a
Carreras e Alvear contribui para o
recrudescimento das relações entre o general e
Buenos Aires.
A respeito da relação entre os governos
luso-brasileiro e portenho, Devoto afirma que
“[...] se habían desarrollado en un terreno de
neutralidad hasta el momento en que la
protección dispensada en Montevideo a Carrera y
Alvear, y posteriormente el apoyo prestado a los
planes de Ramírez contra Buenos Aires, llevaron
al ánimo de aquel Gobierno el convencimiento de
que las aspiraciones de los portugueses en el
Río de la Plata – de Lecor y su partido, mejor
dicho – eran de una latitud indefinida.”33
Em novembro de 1821, mesmo depois da derrota de
Ramírez, Lecor continua a ser uma ameaça a Entre
Rios, tanto que o novo governador, Lucio
Mansilla, através de ofícios, busca a
cordialidade com o general português, evitando,
deste modo, a invasão do território entrerriano.
Lecor e Mansilla acabam por acordar a
neutralidade, o primeiro não interviria em Entre
Rios e o segundo faria o mesmo em relação à
Cisplatina.34
Com a Independência do Brasil, agrava-se outro
ponto de tensão existente na administração
Lecor: o contingente militar luso. O Barão e as
tropas portuguesas ficam de lados opostos,
lutando uns contra os outros até 1824.
A respeito dos últimos anos de vida de Lecor
pode-se dizer que após negociações de paz entre
portugueses e brasileiros, em 1824, o general
retorna a Montevidéu, ficando toda a Cisplatina
sob o controle brasileiro, sendo este núcleo
urbano o último ponto português na América.
No ano seguinte, o Império do Brasil eleva Lecor
a Visconde da Laguna. Entretanto, a partir daí,
o general enfrenta uma série de derrotas. Em
1825, os 33 orientais35 declaram a
independência da Cisplatina e a reunião desta
com as Províncias Unidas. Iniciam-se as lutas
com os insurgentes, no que depois vem culminar
na declaração de guerra do Brasil às Províncias
Unidas do Rio da Prata, em 10 de dezembro de
1825, e a declaração dos portenhos, no primeiro
dia de 1826, aos brasileiros. Assim, esse é o
primeiro conflito externo do Brasil
independente.
É válido observar que antes mesmo da resposta
argentina, mais precisamente no dia 18 de
novembro de 1825, Lecor é destituído pelo
Imperador do governo da Cisplatina. O substituí
o Tenente-General Francisco de Paula Magessi
Tavares de Carvalho, futuro Barão de Vila Bela.
Lecor fica no comando do Exército do Sul, no
entanto, é logo exonerado pelo Imperador,
substituindo-o o Marquês de Barbacena. Porém,
Lecor retorna ao cargo por mais duas vezes,
somando três vezes a sua seleção.
Em 1828, após a intermediação da Inglaterra,
finda-se o conflito entre o Brasil e as
Províncias Unidas, criando-se a República
Oriental do Uruguai. Não havendo mais o conflito
entre Portugal e Espanha no território oriental,
Brasil e Argentina, nos anos seguintes, exercem
a sua influência e interferência na política
uruguaia.
Em 1829 Lecor é promovido a marechal-de-exército
e, assim, passa para a reserva. Entretanto,
apesar da promoção, neste mesmo ano o Visconde
da Laguna é submetido a um Conselho de Guerra
Justificativo, em função da Guerra da
Cisplatina, onde a votação é pela absolvição de
Lecor. Após seu julgamento, o militar ainda
preside uma comissão que tem o objetivo de
reformar o artigo 150 da Constituição do
Império, referente ao exército.
No dia 3 de agosto de 1836 falece Carlos
Frederico Lecor, no Rio de Janeiro, a contar 72
anos de idade, sendo sepultado na Igreja de São
Francisco de Paula. Lecor deixa como viúva a
Viscondessa da Laguna, sem descendentes diretos
e, segundo Duarte, o militar expira em uma má
situação financeira.
_________________________________________________________________________
Fotos Ilustrativas
Imagem do general Carlos
Frederico Lecor, Barão e Visconde da Laguna.
Figura disponível em: DUARTE. Paulo de Q. Lecor
e a Cisplatina 1816-1828. 3 v. Rio de Janeiro:
Biblioteca do Exército, 1985.
Juan António Lavalleja, Fructuoso
Rivera e António Dámaso Larrañaga.
Figuras disponíveis em: http://www.uruguay.com
Bandeira da Cisplatina.
Figura disponível em:
www.rbvex.it/ameripag/uruguay.html
_________________________________________________________________________
Notas
1 - Duarte (1985) afirma que Lecor nasceu no dia
11 de setembro de 1764. No entanto,
Saint-Hilaire (2002), que esteve em Montevidéu
em 1820, registra em seu diário no dia quatro de
novembro a comemoração do natalício de Lecor,
afirmando, ainda, que o general é um homem de
cinqüenta anos. De acordo com a informação de
Duarte, em 1820, Lecor completaria 56 anos.
Deste modo, é plausível que Lecor em 1820
estivesse completando 56 anos e aparentasse os
cinqüenta atribuídos pelo viajante francês,
podendo, assim, proceder a informação de que o
ano de nascimento do general é 1764.
Fisicamente, Lecor, segundo Saint-Hilaire
(Ibid., p.185), era “[...] alto, magro, cabelos
louros, rosto moreno e olhos negros, fisionomia
fria, mas que traduz bondade.”
2 - DEVOTO, Juan E. Pivel. El Congreso
Cisplatino (1821): repertorio documental,
seleccionado y precedido de um análisis. Revista
del Instituto Histórico y Geográfico del
Uruguay, t.XII. Montevideo: 1936, p.117.
3 - O irmão de Carlos Frederico Lecor, João
Pedro, também foi governador em Portugal, no
caso, de Albufeira, no Algarves.
4 - Segundo Duarte (1985), a escolha recai sobre
Lecor em função do Marechal Beresford, que
liderou as invasões inglesas a Buenos Aires e
Montevidéu, respectivamente, em 1806 e 1807.
5 - DONGHI, Tulio Halperin. Historia Argentina
de la Revolución de Independencia a la
confederación rosista, volume III. Buenos Aires:
Editorial Piados, 2000, p.120.
6 - SOUZA, J.A. Soares de. O Brasil e o Prata
até 1828. In: BARRETO, Célia de Barros. O Brasil
monárquico: o processo de emancipação. HOLANDA,
Sérgio Buarque de. História geral da civilização
brasileira, t.II, v.3. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 2003, p.363.
7 - LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de
Janeiro: Topbooks, 1996, p.394.
8 - Op. cit.
9 - DEVOTO, op. cit., p.113.
10 - DUARTE. Paulo de Q. Lecor e a Cisplatina
1816-1828. v. 1. Rio de Janeiro: Biblioteca do
Exército, 1985, p.305.
11 - CASTELLANOS, Alfredo. La Cisplatina, la
independência y la república caudillesca.
Historia Uruguaya. Tomo 3. 1998. Buenos Aires:
Ediciones de La Banda Oriental, p.7.
12 - SOUZA, op. cit., p.363.
13 - DEVOTO, op. cit., p.130.
14 - DEVOTO, op. cit., p.130 e 131.
15 - DEVOTO, op. cit., p.112 e 113.
16 - DUARTE, op. cit., p.271.
17 - FERREIRA, Fábio. O General Lecor e a Escola
de Lancaster: Método e Instalação na Província
Cisplatina. In: Revista Tema Livre, ed.09, 23
set. 2004. Disponível em:
http://www.revistatemalivre.com
18 - ACTAS DEL CONGRESSO CISPLATINO. Sessão de
23 de julho de 1821. Montevideo, 1821. Archivo
General de la Nación, f.17 e 17v.
19 - DUARTE, op. cit., p.273.
20 - Castellanos observa que D. João VI não
ratifica o trato, entretanto, anos mais tarde, a
chancelaria brasileira vem a evocá-lo na
demarcação dos limites entre o Brasil e o
Uruguai.
21 - CASTELLANOS, op. cit., p.7.
22 - DEVOTO, op. cit., p.125.
23 - DUARTE, op. cit., v.2, p.442.
24 - ABADIE; ROMERO, op. cit., p.326.
25 - DUARTE, op. cit., p.415.
26 - DUARTE, op. cit., p.418.
27 - DEVOTO, op. cit., p.140.
28 - DEVOTO, op. cit., p.120.
29 - ABADIE; ROMERO, op. cit., p.326.
30 - DUARTE, op. cit., p.439.
31 - RELA, Walter. Uruguay cronologia histórica
anotada: dominación luso-brasilenã (1817-1828).
Montevidéo: Alfar, 1999, p.20 e 42.
32 - DEVOTO, op. cit., p.123.
33 - DEVOTO, op. cit., p.119 e 120.
34 - RELA, op. cit., p.22.
35 - Segundo Carneiro (1946), dos 33 orientais,
na verdade, somente 17 o eram. Onze eram
argentinos, dois africanos, um paraguaio, outro
francês e, ainda, um era brasileiro.
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