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AS GUERRAS CONTRA
ARTIGAS (1816 E 1820 )
Terminada a campanha, a Capitania do Rio
Grande continuava em pé de guerra, face à agitação em
Montevidéu, novamente sitiada por Rondeau, e a luta entre
Artigas e os argentinos para exercerem soberania sobre o
Uruguai. E, nesse embate, o Rio Grande do Sul foi atingido,
motivando as guerras Cisplatinas de 1816-28, nas quais o Rio
Grande e seu território foram intensamente envolvidos em
razão dos seguintes interesses geopolíticos:
- A prisão do rei D. Fernando da Espanha, por
Napoleão, detonou o processo de independência. Portugal
vai chocar-se com vários interesses geopolíticos no
Prata, envolvendo o território do Rio Grande do Sul.
- Portugal e Brasil querem assegurar a livre navegação
no rio da Prata para manter comunicação com Mato Grosso.
- A Argentina sonha reconstituir o antigo Vice-Reinado
do Prata, incluindo partes do Rio Grande do Sul, do
Uruguai, Paraguai e Bolívia.
- O Uruguai sonha com sua independência, incluindo
territórios do Rio Grande do Sul.
- O Paraguai sonha reconstituir, independente, o
antigo Império Teocrático Guarani, que incluiria os
Setes Povos do Rio Grande do Sul , a antiga província de
Tape.
- A Inglaterra tem interesses no Prata, conflitantes
com os de Portugal.
- A Espanha quer continuar no Prata mantendo o domínio
sobre o atual Uruguai.
Causas:O Exército Pacificador de D.
Diogo de Souza voltou para o Rio Grande, em 1812, em razão
de armistício imposto pela Inglaterra, celebrado entre os
espanhóis de Montevidéu e os sitiantes orientais, e
desrespeitado pelos argentinos.
No início de 1814, Montevidéu capitulou e entregou-se à
Argentina. O futuro oscilava entre quatro interesses
conflitantes , isto é, entre ser:
Província Argentina;
Protetorado da Inglaterra;
Nação Independente; ou
Província portuguesa.
Portugal optou por essa solução, achando
que uma intervenção no Rio da Prata traria, no mínimo, uma
definição dos limites entre Uruguai e o Rio Grande do Sul.
O governador do Rio Grande e comandante
das Armas era, desde 13 de novembro de 1814, o Marquês de
Alegrete - Luiz Teles da Silva Caminha e Menezes. Ao tomar
conhecimento de que Artigas exercia influência sobre os
"Setes Povos das Missões" (de Portugal desde 1801), para que
se unissem em torno de sua bandeira, propôs uma ação conta
Artigas.
Em 1815 o Brasil foi elevado à condição
de Reino Unido a Portugal e Algarves.
Portugal, com seu governo no Rio de
Janeiro, decidiu ocupar, antes que outro o fizesse, o atual
Uruguai. Para tal, contaria com as tropas do Rio Grande,
auxiliadas pela Divisão de Voluntários Reais (que mandou vir
de Portugal) integrada por combatentes veteranos das lutas
napoleônicas, e ao comando do Tenente -General Carlos
Frederico Lecor.
O Marquês de Alegrete concentrou suas
forças na Fronteira do Rio Pardo. Estimulou a defesa local
das áreas ameaçadas, com a formação de forças irregulares
(guerrilhas) e voluntários.
8 a) A primeira Campanha contra Artigas
(1816-17)
Tropas orientais, no final de julho de
1816, estabeleceram o seguinte dispositivo para invadir o
Rio Grande do Sul:
|
No corte do Quaraí: Artigas, com
mil homens, próximo a Santana,
e a 18 Km a jusante, Verdun,
lugar-tenente do líder, com
forte contingente |
|
No corte do Uruguai:
Andresito Artigas, filho adotivo
do líder e nascido em São
Borja, visava invadir o Rio
Grande
e atacar São Borja, sede
de Comando Militar dos Sete
Povos. E, mais a jusante,
Sotelo, visando penetrar no
distrito
de Entre-Rios, para dominá-lo e,
a seguir, auxiliar Andresito
nas Missões. |
Compare os dois planos.
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Plano de Artigas |
Plano Português |
|
·
Opor-se com pequeno efetivo a Lecor
em sua marcha para Montevidéu.
· Com o
grosso de suas forças,
levar a guerra ao Rio Grande do
Sul.
·
Conquistar os Sete Povos das Missões.
· Com
os reforços aí recebidos, bater
as
tropas do Marquês de Alegrete.
· Cair,
em seguida, sobre a retaguarda
de Lecor e sua Divisão de Voluntá
rios Reais. |
·
Avançar com a Divisão de Voluntá
rios Reais contra Montevidéu e
principais cidades uruguaias no
itinerário Laguna-Montevidéu.
· Com
as tropas locais, defender nas
linhas dos rios Uruguai e
Arapeí, impedindo a invasão
oriental
ou a sua permanência no Rio
Grande, caso já o tivesse
invadido.
· Em
uma 2ª fase, o plano previa a
Divisão de Voluntários Reais,
partindo
de Montevidéu para o norte, e a
do
Rio Grande para o Sul, esmagar
Artigas, comprimindo-o numa
manobra
de pinça. |
Ao cair em mãos de um posto de fronteira
português uma ordem de Artigas a um subordinado, tomou-se
conhecimento da invasão iminente do território do Rio
Grande. O alarma se espalhou! Foram tomadas providências com
a evacuação do que fora aconselhável. Formaram-se,
espontaneamente, corpos auxiliares de guerrilhas, inclusive
dispondo de vaqueanos e bombeiros (observadores avançados).
A Fronteira de Rio Pardo, ao comando do
Tenente- General Joaquim Xavier Curado, cerrou sobre a
fronteira do Uruguai, onde concentrou sua tropa no rio
Ibirabuitã-Chico, de onde poderia socorrer os Sete Povos das
Missões.
O primeiro embate aconteceu em 22 de
setembro de 1816, com desvantagem para os defensores, em
virtude da superioridade oriental.
Verdun e Sotelo invadiram o Rio Grande do
Sul. A tropa, que estava ao comando do intrépido agora
Tenente- Coronel José de Abreu, atacou Sotelo, que foi
obrigado a atravessar novamente o Uruguai com pesadas
perdas.
Andresito Artigas invadiu São Borja e foi
cercado pelo Coronel Chagas Santos. Abreu repeliu nova
tentativa de invasão de Sotelo. Em 27 de setembro, após a
épica travessia do Ibicuí, bateu-se pela terceira vez com
Sotelo, cuja coluna destruiu; marchou, célere, para São
Borja sitiada e, em 3 de outubro, caiu de surpresa sobre os
sitiantes, aos quais se havia reunido Sotelo. Abreu bateu
Andresito e Sotelo, causando-lhes pesadíssimas baixas.
Os dias seguintes foram de intensa
perseguição. O intrépido Tenente- Coronel José de Abreu - o
Anjo da Vitória, como passou a ser chamado, em nove dias de
ação fulminante, revelando incomum energia, varreu o inimigo
da margem esquerda do Uruguai e das Missões.
A seguir, o ataque recaiu sobre Verdun,
que fora alcançado por força, ao comando do Brigadeiro João
de Deus Menna Barreto; a derrota ocorreu em 19 de outubro no
combate de Ibirocaí, através do uso de um providencial
ardil: simulou retirada, o que fez o inimigo abandonar as
posições para a perseguição; em seguida, uma parada brusca e
um contra-ataque sobre o inimigo surpreso e desarticulado.
Derrotados Sotelo, Andresito e Verdun, restava Artigas.
Em 27 de outubro, ele foi alcançado
próximo a Santana, no local denominado Carumbé, por tropas
ao comando do Brigadeiro Joaquim Oliveira Álvares. As forças
de Artigas eram mais numerosas, mas as de Portugal, com a
Cavalaria nas alas, a Infantaria no centro e apoiadas em
duas peças, saíram vitoriosas. Carumbé concretizou a
expulsão dos invasores do Rio Grande do Sul, cuja tropa foi
proibida de ultrapassar a fronteira.
O Marquês de Alegrete assumiu o comando;
conheceu reunião de Artigas em Arapeí; decidiu invadir o
Uruguai! Em 3 de janeiro de 1817, o agora Coronel José de
Abreu bateu os orientais em Arapeí.
No dia 4, ocorreu o combate de Catalão.
Nele, o Marquês de Alegrete liderou, em pessoa, seus
comandados. Foi uma luta árdua, devido à impetuosidade de
Artigas. A vitória esteve por muito tempo indecisa, até que
houve o ataque da Cavalaria do Coronel José de Abreu,
lançando a Cavalaria de Latorre para longe do local da
batalha.
Com o flanco esquerdo exposto, Artigas
foi rapidamente batido. Buscou abrigo na margem direita do
rio Uruguai, onde dispunha de cavalos, bovinos e demais
condições de apoio para produção de itens bélicos.
Foi então que o Marquês de Alegrete
determinou ao Brigadeiro Chagas Santos que organizasse, a
partir de São Borja, uma expedição para destruir as bases
logísticas de Artigas, com vistas a novas invasões do Rio
Grande.
Assim, de 14 de janeiro a 13 de março de
1817, o já citado Brigadeiro, à frente de uma coluna de três
armas, demoliu e saqueou as povoações de Japeju, La Cruz,
São Tomé, Santa Maria, São Xavier, Mártires e Conceição,
além das povoações de São José, Apóstolos e São Carlos.
Mas, em que pese a essa operação de
destruição das bases de partida de Artigas contra as
Missões, permaneceu intacta a povoação de Apóstolos, onde
Andresito reuniu importante
contingente. Mais uma vez, Chagas Santos atravessou o
Uruguai, mas foi repelido e retornou a São Borja.
Artigas conseguiu ainda reunir dois
exércitos: um lançado ao comando de Ramírez contra Buenos
Aires; o outro, a seu comando, concentrou próximo de
Santana, por onde lançaria sua última cartada.
No entanto, a Divisão de Voluntários
Reais prosseguia sobre o litoral. Em 10 de novembro de 1816,
combateu na Índia Mueta. Em 1º de dezembro, em Cassupá; em
20 de janeiro de 1817, a Divisão de Voluntários Reais entrou
em Montevidéu, precedida de destacamentos da Capitania do
Rio Grande do Sul, 16 dias após a decisiva batalha de
Catalão.
8 b)A segunda campanha contra Artigas
1820
O conde da Figueira, novo governador da
Capitania sulina, concentrou suas forças em Bajé, para dali
auxiliar as forças de Montevidéu, seguindo ordens do Rio.
O conde soube que Andresito Artigas
invadira as Missões, em abril de 1819, à frente de 2 mil
homens, pelo passo de Santo Isidoro, e que se apoderara dos
povos de São Luís Gonzaga e São Nicolau.
O Mal. Chagas Santos despachou contra ele
uma força ao comando do Coronel Diogo Moraes de Arouche
Lara. Reunindo-se a Arouche Lara, o Brigadeiro Chagas Santos
atacou São Nicolau. E foram repelidos, morrendo na ação o
Coronel Arouche Lara da Legião de São Paulo.
O Conde da Figueira socorreu as Missões.
Operou junção com o Brigadeiro Chagas Santos. Em 3 de junho
de 1819, atingiu São Nicolau, já abandonada por Andresito.
Ordenou ao Coronel José de Abreu que
perseguisse Andresito junto à margem esquerda do Piratini
(das Missões). Destacou uma força para uma possível limpeza
de inimigos aos povos de São Miguel, São Lourenço, São João
e Santo Ângelo.
Andresito, ao deixar São Nicolau, rumou
para o sul com o fim de juntar-se a Artigas. Foi
surpreendido e preso por uma patrulha quando tentava
atravessar o Uruguai, após ter sido completamente destroçado
próximo ao Rincão do Carovi, pelo Coronel José de Abreu. Foi
remetido preso para fortaleza de Santa Cruz no Rio. Anos
mais tarde voltou a Montevidéu, onde faleceu. Sua prisão foi
um duro golpe para Artigas que perdeu um de seus melhores
comandantes.
Assim, as Missões ficaram livres da
segunda invasão. Após expulsar os invasores das Missões, o
conde de Figueira enviou o Coronel José de Abreu para
guarnecer a linha do rio Arapeí e deslocou a força, que
estava em Bajé, para Las Canas. Mandou guarnecer a atual
Jaguarão. O Tenente General Manoel Marquês de Souza, desde
abril, guarnecia o forte de Santa Teresa.
Os guerrilheiros Bento Gonçalves da
Silva, Albano de Oliveira, Bento Manoel Ribeiro, Jerônimo
Gomes Jardim e outros, através de diversas ações, tiveram
destacada atuação, minando o poder de Artigas e Rivera no
Uruguai.
O conde da Figueira, sabedor desde
outubro de 1818, que Artigas, com numerosa força, retornara
ao Uruguai, determinou o seguinte dispositivo das forças da
Capitania:
- manter ocupada Santa Teresa;
- manter a vigilância da fronteira Rio Grande -
Uruguai;
- manter o Brigadeiro José de Abreu no corte de
Arapeí;
- concentrar próximo a Itaquatiá e Cunha Peru
apreciável contingente ao comando do Brigadeiro Bento
Correia da Câmara, em condições de apoio mútuo com o
agora Brigadeiro José de Abreu (juntos somavam 900
homens);
- ficar em Porto Alegre em condições de acudir ao
primeiro chamado, enquanto se aguardava esquadra de
Cadiz.
Em janeiro de 1820, Artigas (após ser
pressentido por José de Abreu em seu acampamento em
Taquarembó, próximo a Santana) invadiu o Rio Grande,
obrigando ao Brigadeiro José de Abreu, em inferioridade de
meios, a retirar-se com pesadas perdas para o passo do
Rosário, onde foi acolhido pelo Brigadeiro Correia Câmara,
após épica retirada.
No dia 27 de dezembro, Correia Câmara e
Abreu atacaram, no vale do Ibicuí da Armada, uma tropa de
Cavalaria inimiga que se recolheu com pesadas perdas para o
acampamento oriental em Taquarembó. O conde da Figueira, em
manobra fulminante, deslocou-se de Porto Alegre com reforços
para assumir, pessoalmente, o comando. Com a mesma rapidez,
lançou-se sobre um contingente inimigo que arreara mais de 1
mil vacuns do território que haviam invadido. Bateu o
inimigo e recuperou a tropa valiosa. Prisioneiros
revelaram-lhe que o exército de Artigas estava acampado nas
nascentes do Taquerembó-Chico. Então, cerrou para Itaquatiá.
A posição artiguista era forte. A frente
era protegida por um banhado profundo e, nos flancos, por um
meandro do Taquarembó, com margens altas.
Em 20 janeiro de 1820, sob o comando
direto do conde da Figueira, aconteceu o ataque. José de
Abreu irrompeu através do banhado e atacou a frente inimiga.
Correia Câmara caiu sobre um flanco, após atravessar o
Taquarembó. O comandante inimigo, Latorre, vendo a ameaça,
atravessou em vários pontos o Taquarembó, sob perseguição. O
conde da Figueira, de espada em punho, lançou-se à luta,
animando seus liderados. Em pouco tempo, o inimigo foi
vencido.
Artigas, fazia algum tempo, já se
retirara de Taquarembó. Com alguns liderados, dirigira-se
para Curuzu-Quatia ( Corrientes).
Complicações políticas nas antigas
províncias platinas terminaram por obrigar Artigas a se
exilar no Paraguai, em setembro de 1820, de onde não mais
retornou.
O Uruguai terminou sendo incorporado, em31 de julho de
1821, ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, com o
nome de Província Cisplatina.
Em função dessa guerra, foram
estabelecidos os atuais limites do Rio Grande do Sul com
Uruguai, que até hoje permanecem, a exceção de modificação
no Chuí, em 1909.
Exercício
Citar os interesses argentinos na guerra que o Brasil
moveu contra Artigas.
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